Restos mortais da médica assassinada no bairro Alvalade repousam no Cemitério do Benfica
Os restos mortais da médica Ângela Paiva Valente, de 54 anos de idade, barbaramente assassinada na passada terça-feira,22, com vários golpes de faca no rosto, pescoço e no abdômen, no bairro Alvalade, repousam no campo santo do Cemitério do Benfica
Por: Agostinho Paulo
Familiares, colegas, amigos e vizinhos, com profundo sentimento de revolta, despediram-se da médica na manhã de ontem, Domingo, 27, com choros, gritos e lamentações pela morte prematura e gratuita aplicada a especialista em medicina interna.
O Na Mira do Crime, no local do óbito, soube de círculos familiares que a “dócil Gigi”, como era carinhosamente tratada, foi surpreendida em casa pelos meliantes, com argumentos que queriam “boas festas”.
Na sequência da acção, a médica possivelmente terá recusado o pedido e os meliantes arrombaram a porta, meteram-se na cozinha, local em que a malograda encontrava-se a lavar a louça e durante uma briga, terão desferido vários golpes de faca na vítima.
“Pelo grau de violência aplicada, possivelmente ela deve ter reconhecido um deles…porque ela terá gritado até você…”, explicou um dos familiares que solicitou o anonimato.
Álvaro Paiva irmão mais velho da vítima, visivelmente abalado, durante a leitura da biografia da irmã, preferiu apegar-se na velha máximo de que, “os animais matam-se para a sua alimentação, e o homem mata por ganância”.

“A minha irmã foi uma pessoa muito simples, não era pessoa de se envaidecer com roupas, joias, malas de grandes fabricantes. Trabalhava honestamente para ter o mínimo que puder, a título de exemplo, basta olhar para as colegas conforme estão a chorar”disse.
Segundo o irmão, a morte da Ângela representa uma perda muito grande na família, e fundamentalmente ao País em que ela decidiu servir de corpo e alma.
“Pelo seu curriculum invejável, a família não perdeu uma filha, mais sim o país e o sector em que ela contribuía com o brio, dedicação e profissionalismo”, reforça.

Colegas não se conformam com a morte
Durante as exéquias, ouviu-se repetidas vezes por parte das colegas de serviço, expressões como: acorda doutora, vamos trabalhar, os seus pacientes perguntam por si, quem fez isto.
“Segunda-feira, 22, ainda trabalhamos juntos, não estamos a conseguir digerir este momento. Custa acreditar nisto, para uma pessoa que conviveu conosco muito tempo, hoje é assassinada como um animal”, chorava incansavelmente a Directora da maternidade da Samba.
Morte da médica deixa classe mais pobre
João Nunes Madilo, Responsável dos Recursos Humanos da saúde do Distrito urbano da Samba, e supervisor do capital humano do único Centro de referência da Samba em que trabalhava a malograda, na área de consultas de medicina, explica que a vítima foi uma médica exemplar e incansável apesar da sua idade.
“A sua morte deixa a classe médica muito pobre. Desde que tomamos o conhecimento do seu passamento físico, quase que não se fez mais nada até no centro em que labutava”, explica o médico.

João Madilo o também economista de profissão, correu aos números e garante que tinha a nível da saúde no distrito da Samba, um total de 20 médicos e com a perda prematura da Doutora Ângela Paiva, o município perde uma das principais forças de trabalho.
“Das três unidades que controlo, este número já era inferior, agora fiquei com 19 médicos o que não chega para dar resposta a esta população da Samba e não só”, lamenta.
Família e Vizinhos Devastados pedem justiça
Álvaro Paiva, irmão mais velho da vítima, oficial superior das Forças Armadas Angolana na reserva, explicou que durante a autopsia notou várias perfurações no corpo da irmã, causadas pelos golpes que foram aplicados
“No rosto tinha mais ferimentos, sem querer errar, penso que tinha cinco golpes no rosto, e um maior no pescoço e por ser de sexo oposto, custou-me querer vasculhar quantos golpes tinha no abdômen”, chorou.
Álvaro Paiva lança um desafio aos órgãos competentes, para que se faça justiça e tragam os malfeitores a público e que sejam responsabilizados criminalmente.
“Espero honestamente que este crime não fique impune, como tantos outros cometidos nos vários círculos”, implora, pedindo justiça.
Dona Mimi vizinha da malograda há 20 anos, diz que palavras são poucas para descrever a mais valia da médica, que ajudou-a no parto da sua filha, que hoje já é uma senhora.
“A minha filha tem 26 anos, foi ela quem me ajudou no parto, estamos todos chocados”.

Ângela Paiva Cardoso Valente, de 54 anos de idade, nasceu a 24 de Outubro de 1966, na Província do Kuanza Norte, município do Golungo Alto. Foi a enterrar no cemitério do Benfica em Luanda, deixa viúvo, e uma filha de 25 anos que está a formar-se no Brasil, na área de saúde, especialidade de estomatologia.










