Sábado, 21 de Nov 2020 24ºC Luanda, Angola

Recentes

Polícia começou hoje a "desarmar" as empresas de segurança Cuito: Detido cidadão que matou adolescente e deitou corpo na fossa Gangues tiram o sono aos moradores do Zango III Marginal “abatido” por supostos agentes do SIC na Estalagem
×

Há crianças a serem decapitadas em Moçambique

Há crianças a serem decapitadas em Moçambique


A denúncia é da organização humanitária Save the Children. “Naquela noite, a nossa aldeia foi atacada. Quando tudo começou, eu estava em casa com meus quatro filhos”, relata uma mulher. Em Cabo Delgado, o conflito armado já tirou a vida a mais de 2.500 pessoas.

Há crianças a serem decapitadas na província moçambicana de Cabo Delgado, denuncia a organização humanitária internacional Save the Children, num relatório divulgado nesta terça-feira.

“Crianças de apenas 11 anos estão a ser decapitadas, enquanto o conflito continua a desalojar milhares. A agência conversou recentemente com famílias deslocadas que relataram cenas horríveis de assassinato e luto e a perda de entes queridos”, refere o documento disponível online.

Elsa, de 28 anos, falou do seu filho mais velho, de 12 anos. Foi decapitado perto do local onde se a família escondia com os outros filhos. “Naquela noite, nossa aldeia foi atacada e casas foram queimadas. Quando tudo começou, eu estava em casa com meus quatro filhos. Tentamos escapar para a floresta, mas eles pegaram meu filho mais velho e o decapitaram. Não podíamos fazer nada porque também seríamos mortos”.

Amélia é outra mãe que perdeu um filho da mesma maneira. Tinha 11 anos quando foi assassinado por homens armados. Amélia não teve oportunidade de se despedir ou sequer de dar ao filho um enterro adequado.

“Depois do meu filho de 11 anos ter sido morto, entendemos que não era seguro continuar na minha aldeia. Fugimos para a casa do meu pai, noutra aldeia, mas alguns dias depois os ataques começaram ali também. Eu, o meu pai e os meus filhos passámos cinco dias comendo bananas verdes e bebendo água de bananeira até chegarmos ao transporte que nos trouxe aqui”, relata ainda.

Por causa do conflito armado em Cabo Delgado, quase 670.000 pessoas encontram-se deslocadas dentro de Moçambique – quase sete vezes o número relatado há um ano, segundo a mesma ONG.

Além disso, pelo menos 2.614 pessoas perderam a vida e a situação piorou bastante nos últimos 12 meses, com a escalada de ataques a aldeias.

Além da guerra, que dura desde 2017, Cabo Delgado foi alvo de vários ciclones e inundações, que têm degradado ainda mais as condições da população.

Mundo mais focado na Covid

As necessidades das crianças deslocadas em Cabo Delgado, no Norte de Moçambique, "superam em muito os recursos disponíveis para as apoiar" e muitas vezes elas são o alvo de violência, alerta a Save the Children.

"A ajuda é desesperadamente necessária, mas poucos doadores priorizaram a assistência para aqueles que perderam tudo e para os seus filhos", numa altura em que o mundo lida também com a Covid-19, refere Chance Briggs, diretor da organização em Moçambique, citado no comunicado.

"Enquanto o mundo estava focado na Covid-19, a crise de Cabo Delgado cresceu e foi menosprezada", acrescentou.

A Save the Children referiu que "quase um milhão de pessoas enfrenta fome severa" como resultado direto da onda de deslocados provocada pelo conflito armado na região, incluindo pessoas deslocadas e comunidades anfitriãs.

"Todas as partes devem garantir que as crianças nunca sejam alvos. Devem respeitar as leis humanitárias internacionais e de direitos humanos e tomar todas as ações necessárias para minimizar os danos civis, incluindo o fim de ataques indiscriminados e desproporcionais contra crianças", acrescentou a Briggs.

“Os relatos de ataques a crianças incomodam-nos profundamente. A nossa equipa foi levada às lágrimas ao ouvir as histórias de sofrimento contadas por mães em campos de deslocados”, sublinhou.

A violência armada em Cabo Delgado está a provocar uma crise humanitária, com milhares de pessoas sem habitação ou alimentos.

Algumas das incursões de rebeldes foram reivindicadas pelo grupo 'jihadista' Estado Islâmico entre junho de 2019 e novembro de 2020, mas a origem dos ataques continua sob debate.

A situação de insegurança levou a petrolífera Total a diminuir o número de trabalhadores e a abrandar os trabalhos no megaprojeto de gás na região, até que seja garantido um perímetro de segurança pelas Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas.

No entanto, mantém-se a previsão de início de exportação de gás natural liquefeito em 2024.

C/Renascença e Lusa

Você pode partilhar este post!




Artigos Relacionados