“Quim Ribeiro mandou regar todos”: Esposa de Mizalaque ‘entrega assassino' nas mãos de Deus
Nos últimos dias tem se aventado a possibilidade do antigo homem forte da Polícia de Luanda, Quim Ribeiro, sair em liberdade. Às notícias davam até ontem, dia 18, como certa a liberdade do ex-comissário.
A equipa de reportagem do Namira do Crime visitou a segunda esposa de Domingos Fonseca Mizalaque, a pessoa que estava na hora e local errado, quando à ‘milícia’ de Quim Ribeiro disparou a queima-roupa contra um oficial da Polícia Nacional e o infeliz funcionário dos Serviços Prisionais.
Na casa de Ester de Sousa, na verdade um quarto onde se improvisa uma sala e cozinha, encontramos a viúva deitada num colchão que está sobre blocos e grades de gasosas, para fazerem a vez da cama.
À mesa, no centro, com algumas cadeiras plásticas dão de cara com o televisor. À direita, um fogão antigo colocado sobre blocos, aguardava ansiosamente por alguma panela. Eram por volta das 12h00 de sexta-feira, 18, e a dona de casa ainda fazia contas para dar de comer os filhos.
Quando começamos com a entrevista, o nome do falecido foi motivo para lágrimas, o filho de 11 anos estava ao lado da mãe e não percebia o pranto da progenitora. Tinha apenas 11 meses quando lhe foi retirado de forma bruta a presença do pai.
“Desde que ele morreu a família só conhece sofrimento”, atirou Ester, em lágrimas, disse não conhecer Quim Ribeiro, sabe apenas que é o autor do sofrimento dela e de seus filhos.
“Eu sofro muito. Quando o Miza morreu tínhamos este terreno (10/15). Já tínhamos burgau e areia, mas pela demora roubaram tudo. Tive que me esfolar para puder comprar areia e construir este quarto onde estamos”, explicou, acrescentando que, para sobreviver, dá graças a irmã do primeiro esposo que arranjou uma vaga numa empresa de limpeza.
“Fez este favor porque o Miza também me ajudava a criar os meus primeiros filhos”, lembrou.
Os filhos de Mizalaque que à data dos factos tinham 6, 3 e 11 meses, hoje estão com 15, 13 e 10 anos.
Não sabem o que é viver com o pai. A mais velha tem lembranças vagas, desconhecem o afecto de um chefe de família, por isso, respondem às perguntas abanando à cabeça.
A mãe diz que não conta o que aconteceu com o pai para não criar ódio. “Prefiro que eles cresçam lutando, aprendendo o bem, quem matou o pai deles saberá o que é a lei divina”, suspirou.
A pobreza está patente na família de Mizalaque, mas a vontade de viver continua no seio daquela família, que nunca viu um tostão do Ministério do Interior ou daqueles que levarão o sustento da família.
“O Ministério do Interior não tem-me apoiado, a primeira mulher ficou com a casa e tudo que ele tinha, nunca vi nada desde que o meu marido morreu. Os meus filhos nunca receberam nada”, disse.
“Estou doente, a minha filha mais velha com o Mizalaque está agora a fazer a 9ª classe, já estou a pensar como vou-lhe colocar a estudar próximo ano se não tenho dinheiro. Estou acamada há uma semana e seis dias, é um inferno viver assim”, lagrimou.
Ester tem um salário de 30 mil kwanzas, e deve ser poupado durante 30 dias. “Comprar comida, assumir os estudos, o meu próprio bem-estar precisa de cuidados, comprar medicamento quando os filhos estão doentes…enfim, só Deus, devo ainda agradecer àqueles chefes de bom coração
que ajudam com alguma coisa no final do mês, senão não sei o que seria da minha vida”, agradeceu.
“Quando tocam no nome do Miza para mim é só lágrimas, a morte dele me causou muito sofrimento. Os meus pais estão no Lubango, aqui não tenho ninguém para além dos meus filhos. O Quim Ribeiro mesmo depois de matar estas duas pessoas saía aos fins-de-semana para ir ver os filhos deles, o pai do meu filho infelizmente não tem a mesma sorte”, lamentou.
Quim Ribeiro mandou “regar todos”
Lembrança do último dia de vida do marido.
“O que sei da morte do meu marido é que, neste mesmo dia, levou o seu neto para o hospital e, quando regressava, o Joãozinho ligou para lhe apoiar porque o carro dele (Joãozinho) estava avariado. Mas, infelizmente, o Joãozinho já estava a ser perseguido pelos homens do Quim Ribeiro.
Quando o Mizalaque apanhou o amigo e o levava para o Zango, o Miza deu conta que estavam a ser perseguidos, os assassinos fizeram ultrapassagem e furaram os pneus do carro do meu marido. Cercaram o carro e depois ligaram para o Quim Ribeiro a avisar que já tinham o Joãozinho na mira, mas que estava acompanhado. Este (Quim Ribeiro), disse para regar todos.










