“É o início de uma invasão”, diz Joe Biden: “Quem, em nome de Deus, deu a Putin o direito de declarar novos países em território que pertence aos seus vizinhos?”
Os Estados Unidos vão enviar mais equipamento militar e mais tropas para os Bálticos mas Joe Biden garante que ninguém quer uma guerra com a Rússia. Num discurso de cerca de 20 minutos, o Presidente norte-americano apresentou novas sanções económicas, usou palavras duras e quis deixar claro que os membros da NATO têm uma frente unida. Se forem invadidos mais territórios, “estamos preparados para ir mais longe”, frisou
Joe Biden apresentou-se esta noite como um guerreiro pronto para a batalha, mas como os eventos dos últimos dias nos mostram, do outro lado também há um líder sem medo de assumir os riscos das suas ações: Vladimir Putin declarou a independência de partes das províncias de Donetsk e Luhansk (as “repúblicas” controladas por separatistas) e prosseguiu com o envio de militares e tanques para “manter a paz”. Biden tem um frase para isso, que ainda não tinha dito: “Isto é o início de uma invasão russa na Ucrânia”.
Relembrando o discurso de Putin na noite de segunda-feira, no qual o Presidente russo assumiu que a Ucrânia não tem tradição como Estado soberano, Biden classificou como “bizzaro” o momento em Putin assegurou que as autoproclamadas repúblicas já não são parte da Ucrânia e sim território soberano. “Quem, em nome de Deus, deu a Putin direito de declarar novos países em território que pertencem aos seus vizinhos?”, perguntou Biden numa declaração ao país, transmitida pela televisão, a partir da Casa Branca.
Depois do envio de tropas para a região e dada a declaração de reconhecimento dos territórios como independentes, o Presidente dos Estados Unidos diz-se convencido que a Rússia tem planos ambiciosos na Ucrânia. “Do meu ponto de vista, Putin está a estabelecer um racional para poder retirar ainda mais territórios. É o início de uma invasão da Ucrânia, tal como Putin indicou e pediu permissão para fazer à Duma”, reforçou.
Do outro lado do mundo, em Berlim, enquanto Biden falava, centenas de pessoas manifestaram-se contra a guerra em frente à embaixada da Rússia. O Presidente norte-americano diz que a Europa e os aliados na NATO estão unidos – “e isso era algo que Putin não esperava”.
A Alemanha tinha sido, até hoje, um dos membros mais reticentes da aliança militar nas críticas à Rússia, de quem é uma parceira comercial importante. O chanceler, Olaf Scholz, acabou por dissipar as dúvidas que pudessem permanecer sobre o compromisso do seu país com uma resposta severa quando, algumas horas antes do discurso de Biden, congelou a certificação do gasoduto Nord Stream 2, um enorme investimento russo que deveria trazer até à Europa muitos milhares de metros cúbicos de gás.
As sanções dos Estados Unidos, escritas, segundo Biden, em concertação com a UE, debruçam-se sobre duas instituições financeiras (banco VEB e o banco militar da Rússia) e também sobre a capacidade da Rússia de se financiar nos mercados europeu e norte-americano. “Vamos impor sanções abrangentes à dívida soberana russa. Isso significa que o acesso do governo da Rússia ao financiamento ocidental fica cortado e já não será possível negociar a sua dívida nos mercados nem em mercados europeus”, explicou Biden que ainda deve apresentar mais sanções esta quarta-feira, desta vez dirigidas a indivíduos próximos do Kremlin. “A partir de amanhã, e continuando nos próximos dias, também vamos impor sanções às elites russas e a alguns membros das suas famílias. Se partilham os ganhos corruptos das políticas do Kremlin também devem sofrer as consequências”.
E não é tudo: “Se Rússia estender esta invasão ainda mais, estamos preparados para ir ainda mais longe”, afirmou o chefe de Estado norte-americano.
Antes do anúncio, Jon Finer, vice-conselheiro de segurança nacional de Biden, disse que as forças da Rússia começaram já a mover-se para a Ucrânia, declarando na CNN que “uma invasão é uma invasão, e é isso que está em andamento”.
Empurrado por estas informações que também tem tido eco em capitais europeias, nomeadamente Londres onde Boris Johnson apresentou esta terça-feira as suas próprias sanções, Biden disse que “os Estados Unidos vão continuar a oferecer ajuda na defesa da Ucrânia” e que já autorizou o reforço da presença militar dos Estados Unidos na Lituânia, Letónia e Estónia. O secretário da Defesa já especificou: serão enviados mais 20 helicópteros AH-54 helicopters para a região do Báltico, diretamente da Alemanha, e há mais 800 militares na mesma em direção, atualmente posicionados em Itália.
No entanto, Biden quis deixar claro, pois pende ainda no horizonte uma reunião entre o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, e o seu homólogo russo, Sergei Lavrov, que a NATO está a agir “na defensiva” e não tem “qualquer intenção de entrar em guerra com a Rússia”. A intenção é sim, deixar uma mensagem forte de união. Depois de listar os meios militares que a Rússia tem na Bielorrússia e ao largo da Crimeia, incluindo reservas de sangue – “Ninguém precisa de sangue se não estiver a pensar começar uma guerra” – Biden quis deixar claro que os parceiros da NATO estão “unidos no apoio à Ucrânia, unidos na oposição à agressão russa, unidos na resolução de apoiar a NATO, unidos na urgência e na seriedade da ameaça da Rússia que quer erodir a paz e estabilidade mundiais”. As sanções “por ondas” podem ser um sinal de que ainda há alguma réstia de esperança nos esforços diplomáticos.
Para consumo interno, Biden disse que entende que este momento pode provocar alguns sobressaltos para os consumidores e para os negócios norte-americanos – “os preços vão subir” – e diz-se preparado para pôr em marcha formas de ajudar alguns sectores. “Nenhum de nós se deve enganar e não nos vamos enganar: não há justificação [para as ações russas]. Se a Rússia continuar, é a Rússia e apenas a Rússia que tem de responsabilizada”, disse ainda o Presidente dos Estados Unidos.
C/Expresso











