Rússia vs Ucrânia: A semana que mudou o 'mundo' europeu
Uma tragédia. A Europa quebrou tabus como o envio de armas e a Alemanha quer voltar a ser uma potência militar. O perigo nuclear volta a assustar o mundo. Putin desencadeou uma nova ordem mundial, que o isolou
Os mestres mundiais do xadrez conseguem antecipar, mentalmente, dezenas de jogadas de um adversário, enquanto um cérebro normal pouco mais faz do que reagir. Esta frase tem sete anos:
“Aqueles que dizem que o conflito na Ucrânia está distante, e que é improvável levar à instabilidade global, estão a passar ao lado do alerta que Putin nos está a transmitir.” Foi escrita pelo campeão de xadrez russo Garry Kasparov, em 2015, depois da anexação da Crimeia, no livro “O Inimigo Que Vem do Frio” (Clube do Autor).
Infelizmente, estava certa. Kasparov antecipou as jogadas de Vladimir Putin. O resto do mundo não viu “a perigosa viragem de Putin para um imperialismo baseado na etnia”, escreveu o xadrezista. Agora, postos em xeque, os jogadores globais reagiram ao lance dramático da Rússia na Ucrânia: em apenas uma semana, o tabuleiro do mundo não é o mesmo de 24 de fevereiro, quando Moscovo começou a marchar para Kiev. Em alguns casos, mudou radicalmente.
O planeta passou para um estado de “instabilidade global”, porque Putin decidiu fazer o “impensável” e invadir um vizinho soberano e democrático, — para o “desnazificar” e “desmilitarizar” —, ou por achar que a Ucrânia faz parte da Rússia.
Não acontecia desde 1945.
Acabou-se a fase do pós-Guerra Fria. “Com a invasão”, Putin “está a demolir a ordem da segurança europeia que prevaleceu durante mais de meio século”, disse o chanceler Olaf Scholz num discurso histórico, este domingo, no Bundestag.
“É um daqueles momentos que nos interpelam a reinterpretar a nossa própria era”, escreveu no “The New York Times” Ivan Krastev, do Instituto de Ciências Humanas de Viena. Uma tragédia: as guerras começam, mas não se sabe quando nem onde acabam. Com uma Rússia agressiva e “imperialista”, passa a ser este “o novo normal da segurança” europeia, avisou o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg.
“Não defender a Ucrânia hoje”, e esta frase também é de 2015, “é repetir o fracasso dos Aliados na defesa da Checoslováquia em 1938”, vaticinou Kasparov. Putin não parou na Crimeia. Agora, a Aliança Atlântica acionou, pela primeira vez, a NATO Response Force — uma força de 40 mil tropas com sete dias de prontidão, criada depois da invasão da Ucrânia em 2014 — e começou a reforçar a fronteira leste com militares, mas nem por isso a NATO intervirá em território ucraniano. O objetivo é a “dissuasão”. Os países ocidentais, no entanto, estão a reagir de formas tão inesperadas que, há 15 dias, seriam consideradas mais impossíveis do que improváveis.
MAD, A LOUCURA NUCLEAR
Com o regresso da guerra, voltou uma retórica que a opinião pública tinha esquecido: o risco do MAD, acrónimo de Mutual Assured Destruction (Destruição Mútua Assegurada). Putin apareceu na televisão a dar ordens aos generais para porem as “forças de dissuasão” em “estado de alerta de combate alto”. Ou seja, o poder nuclear com um nível de alerta mais elevado.
Embora especialistas em política nuclear tenham dito que “há uma real possibilidade de Putin se voltar para as armas nucleares se continuar a sofrer revezes” (Caitlin Talmadge, da Brookings Institution ao “Financial Times”), o académico Miguel Monjardino, colunista do Expresso e especialista em política internacional, é cauteloso.
“Segundo a imprensa em Portugal, Europa e EUA, as forças nucleares russas foram colocadas ‘num nível de alerta elevado’ ou ‘alerta máximo.’ Não é assim.” Segundo Monjardino, “ninguém sabe se Putin se referiu a armas nucleares táticas ou estratégicas”, ou “se se referia à Ucrânia ou à NATO/EUA. A ambiguidade é deliberada”, também como “forma de intimidação e de pressão psicológica.”
“Até hoje, não foi notada nenhuma alteração na postura nuclear russa ao nível estratégico ou tático”, explica Monjardino. “Por exemplo, na Rússia, as ogivas das armas nucleares táticas tendem a estar separadas dos seus vetores de lançamento. Que eu saiba, os bombardeiros nucleares russos não estão em alerta”, assinala.
O MNE russo Sergei Lavrov disse quarta-feira que uma III Guerra Mundial ia “envolver armas nucleares e será destrutiva”, mas especialistas internacionais falam da estratégia escalate to de-escalate (escalar para desescalar), como parte da doutrina militar russa. Isso pode passar pelo “uso de uma arma nuclear tática para criar um choque psicológico que leve ao fim da guerra”, diz Monjardino. Mas, para já, “o mais provável é aumentar a retórica nuclear ou o nível de violência de tal forma na Ucrânia, que leve os líderes em Kiev, Europa e EUA a concluir que têm mesmo de terminar a guerra”. O medo do nuclear voltou a ser palpável.
DECISÕES HISTÓRICAS NA EUROPA
Há duas semanas, o Presidente norte-americano e os dirigentes europeus prometiam “sanções nunca vistas”, mas os países continuavam preocupados com as suas próprias agendas e não era claro o consenso ou a dureza das medidas.
A Europa surpreendeu pela união e rapidez: quando a política de migrações era uma das mais difíceis, decidiu receber e proteger os refugiados ucranianos com vistos facilitados; congelar bens e contas de oligarcas e até de Putin; interditar o espaço aéreo a aviões russos e proibir as televisões russas promotoras de desinformação.
Mais: o bloqueio do sistema Swift para alguns bancos russos e o cancelamento de transações com o Banco Central Russo, reduzindo assim a capacidade de reação de Moscovo. Cairia também um dos grandes tabus da UE: a compra, financiamento e envio de armas para um estado terceiro. E Ursula von der Leyen abriu a porta à entrada da Ucrânia na UE.
“É um novo paradigma”, diz ao Expresso Paulo Sande, especialista em estudos europeus da Universidade Católica, que destaca a liderança europeia e da Comissão. “Esta forma de intervir num conflito é uma mudança na política europeia de Defesa”, mas também “no domínio energético”, ou na “solidariedade em relação aos refugiados, mesmo entre os países mais renitentes”.
O efeito de arrastamento das medidas levou vários países a tomarem decisões inéditas contra o que foi a sua política de sempre: uma viragem na essência da neutral Suíça, que seguiu todas as sanções europeias e também congelou as contas dos oligarcas e da corte de Putin; a Finlândia e a Suécia — que não pertencem à NATO — também enviaram armas para a Ucrânia e ponderam a entrada na Aliança Atlântica.
180° NA ALEMANHA
Em Berlim, quatro dias de guerra fizeram mudar décadas de política externa, de defesa e de energia. Apenas três meses depois de substituir Angela Merkel, o chanceler Olaf Scholz, do Partido Social Democrata (SPD), de centro-esquerda, fez um discurso que ficará como um “marco histórico”, ao inverter 50 anos da ostpolitik — uma política de apaziguamento em relação ao leste — criada pela grande referência social-democrata Willy Brandt. Não só o Governo germânico suspendeu a certificação do gasoduto Nord Stream 2 (o que levou ao pedido de insolvência da empresa), como enviou rockets e mísseis terra-ar para a Ucrânia, mandou tropas alemãs para a Letónia, Roménia e Eslováquia, e navios de guerra para o Báltico, mas o “inimaginável” há duas semanas para a revista “Der Spiegel” era o aumento das despesas militares para mais de 2% do PIB e o investimento em armamento no valor de €100 mil milhões.
Mesmo com os pacifistas Verdes na coligação, Scholz avançou para um programa gigantesco de rearmamento que inclui fragatas, o desenvolvimento de submarinos ou a projeção de um novo avião de caça. Com os traumas do nazismo, a Alemanha não pôde, e nunca tentou, recuperar o estatuto de potência militar. Com custos: o tenente-general que comanda o Exército, Alfons Mons, escreveu no LinkedIn que “o Exército alemão (…) está mais ou menos de mãos vazias. As opções que poderíamos dar ao Governo em apoio da Aliança, são extremamente limitadas.”
PRIVADOS ATACAM
As implicações noutras organizações ou nas opções de empresas privadas também estão a surpreender o mundo. A FIFA e a UEFA afastaram seleção e equipas russas das competições, o Grande Prémio de Fórmula 1 da Rússia foi cancelado, o Comité Olímpico afastou os atletas russos e bielorrussos dos paralímpicos de inverno, gigantes mundiais como a Apple, a Nike, a Boeing ou a Ford vão suspender o mercado russo, a petrolífera britânica BP anunciou a venda da participação numa grande companhia russa, a Galp cancelou compras, o Facebook, o Instagram, e o YouTube retiraram as televisões russas das suas redes, e a Filarmónica de Munique despediu o maestro Dieter Reiter, por ser apoiante de Putin.
Cercado e acossado, o líder russo “é cada vez mais tirano que ditador”, diz ao Expresso uma fonte que viveu na Rússia e conhece os meandros do Kremlin, mas que pede anonimato. Em posição de fraqueza, Putin pode ser ainda mais perigoso e tomar decisões mais desesperadas, admitem vários especialistas.
Com a inflação a galopar, as taxas de juro a duplicarem para os 20%, com o rublo a afundar 30% e com os russos a fazerem filas para levantar dinheiro e os ricos impedidos de viajar, o Kremlin está mais isolado do que nunca.
A maior parte dos países das Nações Unidas retirou-se da sala numa reunião esta segunda-feira, em Genebra, quando o ministro Lavrov, discursava.
A própria China, absteve-se no voto de condenação na ONU e depois “deplorou” o conflito, e a Turquia (membro da NATO) fechou o Bósforo à passagem de navios de guerra russos. Putin “deu à Ucrânia uma unidade que a Ucrânia nunca tinha tido”, diz a mesma fonte que tem acompanhado estes processos. Também talvez tenha dado mais alguma união ao resto do mundo.
Por: Expresso











