Golpe no Níger – Militares derrubam e mantêm refém Presidente eleito e sua família
O Níger, país minado por ataques de grupos ligados ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda, foi palco, esta semana, de um golpe de Estado. Os militares golpistas anunciaram a destituição do governo, a dissolução da constituição, o encerramento das fronteiras e a detenção do Presidente Mohamed Bazoum. O golpe de Estado já foi condenado pela comunidade internacional que exige que o Níger regresse à ordem constitucional.
Por: Na Mira do Crime
O Governo de Angola condenou, quinta-feira (27), os actos levados a cabo por um grupo de militares no Níger e considera “um grave atentado à ordem constitucional do país e por constituir uma inadmissível violação aos princípios democráticos sobre os quais assenta a legitimidade do poder instituído em 2021, por via de eleições livres e democráticas”.
Em comunicado, o Executivo angolano refere que "tem seguido com particular atenção e preocupação os últimos acontecimentos registados na República do Níger, de que resultou o golpe de Estado perpetrado por um grupo de militares, no dia 26 de Julho de 2023, contra o Governo legítimo nigerino”.
Face a esta grave ocorrência, prossegue o documento, e à luz destes factos, o Governo e o Chefe de Estado angolano, na qualidade de Campeão da Paz e Reconciliação Nacional em África, exigem a libertação imediata de Mohamed Bazoum, Presidente da República do Níger, seus familiares e colaboradores, na convicção de que se consiga criar assim um clima que favoreça, urgentemente, um entendimento nacional e possibilite a reposição da legitimidade democrática no país.
"Manifestamos, de forma inequívoca, o nosso apoio à posição tomada pela CEDEAO, ao condenar com veemência o golpe de Estado, e exortámo-la a encetar todas as diligências necessárias para que se retome rapidamente o funcionamento das instituições legítimas do Estado na República do Níger”, refere o comunicado do Governo angolano.
Militares nigerinos anunciaram, quarta-feira (26) à noite, o derrube do Presidente Mohamed Bazoum, democraticamente eleito em 2021.
A junta militar golpista apresentou-se como Conselho Nacional para a Salvaguarda da Pátria (CNSP). O Presidente deposto, Mohamed Bazoum, continuava refém com a sua família na residência oficial, em Niamey, mas está de boa saúde, de acordo com pessoas que lhe são próximas.
A CEDEAO expressou, na quarta-feira, em comunicado, "espanto e consternação” com "a tentativa de tomar o poder pela força” e condenou-a "nos termos mais fortes”. General Tchiani assume o poder
O general Tchiani, chefe da Guarda Presidencial, anunciou nesta sexta-feira, 28 de Julho, em rede nacional, que assumiu a chefia do Conselho Nacional de Salvaguarda da Pátria (CNSP), que derrubou o Presidente Mohamed Bazoum dois dias antes.
O general Abdourahamane Tchiani apresentou-se como presidente do Conselho Nacional de Salvaguarda da Pátria (CNSP), junta que alegou ter deposto o Presidente Mohamed Bazoum dois dias antes, e justificou o golpe pela "deterioração da situação de segurança" no país.
"Meus queridos compatriotas, obviamente as autoridades depostas estão empenhadas em criar algum tipo de milícia para seu único interesse", disse o general de Brigada de duas estrelas.
O líder dos golpistas, o general Tchiani, ainda não havia-se pronunciado publicamente. Até então, era o coronel Amadou Abdramane quem falava em nome do CNSP.
Apelando à serenidade, calma, vigilância e ao desabafo patriótico para "enfrentar os desafios securitários, económicos e sociais", o general Tchiani insistiu em reafirmar a vontade do CNSP de "respeitar todos os compromissos internacionais assumidos pelo Níger”.
Para justificar a tomada do poder pela força, o general Tchiani explicou que queria lutar contra "o desvio de fundos públicos, contra a impunidade, a corrupção em todas as suas formas e o nepotismo", face ao que, segundo o comandante da guarda presidencial, "o governo caído mostrou os seus limites".
“Finalmente, o CNSP, através de mim, pede aos parceiros e amigos do Níger, nesta fase crucial da vida do nosso país, que confiem nas nossas forças de defesa e segurança, que garantem a unidade nacional, a integridade do território e os interesses superiores da nossa Nação", concluiu o general Abdourahamane Tchiani.
Por seu lado, o Presidente Mohamed Bazoum, que continua retido pelos militares golpistas em Niamey, ainda não renunciou formalmente.
Enquanto isso, a opinião pública questiona que papel terá desempenhado o antigo Presidente Mahamadou Issoufou no golpe de Estado no Níger, que ofereceu os seus serviços para tentar encontrar uma solução para a crise que abala aquele país desde 26 de Julho.
Desde o início do golpe, iniciado na madrugada de 26 de Julho, Mahamadou Issoufou vive quase recluso em casa, sob vigilância de elementos da guarda presidencial.
Estes últimos, que têm assegurado Issoufou desde que deixou o poder em Abril de 2021, costumam ficar a cerca de trinta metros à volta da sua residência.
Um cordão de controlo também barra a rua que dá acesso à casa. Sua esposa, Lalla Malika Issoufou, também foi impedida de sair na manhã do dia 27 de Julho.
O homem que se diz estar por trás do motim contra o Presidente nigerino, então comandante da Guarda Presidencial, é uma figura polémica no exército.
À frente da guarda presidencial desde 2011, Abdourahmane Tchiani é um polémico general do exército nigerino. Oriundo das fileiras do exército, foi promovido à presidência de Mahamadou Issoufou, de quem seria um “fiel entre os fiéis”, asseguram exímios conhecedores do aparelho de segurança nigerino.
Quando Issoufou estava no poder, a Guarda Presidencial era "particularmente mimada", diz uma fonte bem informada, acrescentando: “para precaver-se de qualquer tentativa de golpe num país que já viveu quatro desde a sua independência em 1960.
Actualmente conta com cerca de 700 homens bem equipados e treinados, bem como cerca de vinte blindados”.
CEDEAO e comunidade internacional condenam
Depois de Mohamed Bazoum ter sido derrubado pelo general Tchiani no Níger, a primeira tentativa de mediação da CEDEAO parece ter falhado.
Espera-se que o Presidente nigeriano, Bola Tinubu, à frente da organização regional, afirmou: “Declaro inequivocamente que a Nigéria apoia fortemente o governo eleito do Níger”.
Apenas 17 dias depois de ser nomeado presidente da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), o chefe de Estado nigeriano, Bola Tinubu, foi testado contra os amotinados que derrubaram o poder em Niamey.
“Não hesitaremos em defender e preservar a ordem constitucional”, declarou em 26 de Julho.
Num comunicado de imprensa publicado no processo, a CEDEAO declarou ter tomado conhecimento "com espanto e consternação" do que então só foi qualificado como uma "tentativa" de golpe contra Mohamed Bazoum, antes de "condená-lo da forma mais enérgica” e exortar "os autores deste acto a libertarem imediata e incondicionalmente o Presidente da República eleito democraticamente".
O Presidente Bola Tinubu, confirmou, quinta-feira, que o homólogo do Benin, Patrice Talon, estava a caminho do Níger como mediador da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), após o golpe de Estado que o país sofreu.
Igualmente, o golpe de Estado no Níger foi condenado pela comunidade internacional.
A União Africana, França, EUA e a União Europeia condenaram a acção e apelaram à libertação do Presidente e da família.
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, também “condenou firmemente a mudança anticonstitucional do governo".
Golpistas advertem
Enquanto isso, os golpistas advertiram nesta sexta-feira (28) contra "qualquer intervenção militar estrangeira", numa declaração transmitida pela televisão nacional.
"Certos antigos dignitários, escondidos nas chancelarias em colaboração com estes últimos, pretendem entrar em confronto", segundo o comunicado lido perante as câmaras, denunciando uma "atitude belicosa, perigosa que não terá outro resultado senão o massacre da população nigerina e o caos".
A junta militar, que se intitula Conselho Nacional para a Salvaguarda da Pátria (CNSP) "apela portanto à opinião pública nacional e internacional para que testemunhe as consequências de qualquer intervenção militar estrangeira", conclui.
O comunicado foi lido após o general Abdourahmane Tchiani se ter apresentado, na televisão estatal do Níger, como o líder da junta militar.
Depois do Mali e do Burkina Faso, o Níger, até agora aliado dos países ocidentais, torna-se o terceiro país do Sahel, minado pelos ataques de movimentos extremista ligados ao grupo fundamentalista Estado Islâmico e à Al-Qaida, a sofrer um golpe de Estado desde 2020.
A França, antiga potência colonial do Níger, anunciou ainda nesta sexta-feira, que não reconhece a autoridade do general Abdourahmane Tchiani.











