Tortura e cárcere privado: Turma de vigilância atormenta moradores do bairro Paraíso com armas de guerra
Os moradores do bairro Paraíso, Distrito Urbano dos Mulenvos de Baixo dizem estar a ser alvos de maus tratos por parte de uma turma de vigilância comunitária criada para combater a delinquência, mas que tem aplicado a tortura e o cárcere privado como medidas de punição a todos aqueles que não cumpram com as regras por eles estabelecidas.
Por: Alfredo dos Santos Talamaku
Os moradores disseram a nossa reportagem que a turma usa armas de fogo, catanas e outros objectos contundentes, durante as suas acções.
As pessoas são proibidas de circular a partir das 23 horas até às 4 horas da manhã, caso contrário, o indivíduo é levado e submetido a tortura.
"A turma de vigilância é formada por bandidos, agentes da Polícia e das Forças Armadas Angolanas (FAA), esses é que fornecem as armas, nós conhecemos muito bem quem são; um dos militares, o Dionísio, vive ao lado da pracinha dos Mulenvos", acusaram.
Os moradores contaram ainda que são obrigados a contribuir com 200 Kwanzas por dia, para a logística da turma, caso não, a pessoa é conotada.
"Às vezes não temos dinheiro para pagar, mas eles não entendem, guardam ressentimento, as coisas não podem continuar assim", repudiaram.
Francisco António Joaquim, foi uma das vítimas, que acabou torturado no passado sábado, 23, por volta das 23 horas, quando se encontrava a conviver com amigos e familiares.
"Eles apareceram a dizer que já era tarde e que tínhamos que sair do local onde estávamos a beber o vinho, nos recusamos, então eles tentaram nos agredir, mas não conseguiram, porque eram apenas três”; no entanto, conta, “o grupo pediu reforço a partir da 'canfora' e apareceram os outros elementos da turma, com armas de fogo."
“O Dionísio estava com uma arma do tipo AKM, e os outros estavam com pistolas, catanas e ferros; fui arrastado até a direcção deles, onde fui algemado e fui torturado, ao ponto de perder um dos dentes”, lamentou, sublinhando que foi muita surra.
“O corpo todo está com ferimentos, por um pouco eu teria morrido", disse.
O jovem José, que no mesmo dia, sábado, 23, também foi vítima de agressões por parte da mesma turma de vigilância, conta que tudo começou porque o seu irmão de 12 anos de idade, havia sido levado por ter cometido, e estava a ser coagido no sentido de entregar valores monetários para a soltura do irmão.
"Neguei e eles ficaram chateados, um deles lançou uma garrafa de cerveja e me acertou na cabeça, um dos meus irmão que tentou apaziguar também foi agredido, a cara ficou toda inflamada, e teve que ser rapidamente levado a um posto de saúde, eles estavam com armas e ferros, fizeram muitos tiros na rua", recordou.
Segundo os moradores, uma das armas de fogo utilizada naquele dia, pertence ao ex-militar das Forças Armadas Angolanas (FAA), conhecido por Dionísio.
“O Dionísio, o Telex, o Genildo e o Prata fizeram muitos tiros e exigiam que as pessoas fossem dormir", denunciaram.
Um dos responsáveis da turma de vigilância, conhecido por Savimbi, admitiu que trabalham com armas de fogo, e a comissão de moradores tem conhecimento.
"Na nossa turma tem agentes da Polícia e das FAA, as armas servem apenas de protecção, caso apareça um bandido armado, o comandante Bigodinho, da esquadra do Paraíso tem elogiado o nosso trabalho", sublinhou.
Os lesados disseram que a situação já é do conhecimento das autoridades polícias.
"Ontem o Serviço de Investigação Criminal (SIC) já esteve no bairro, fecharam a cânfora e alguns elementos da turma foram detidos, inclusive o coordenador do bairro, que falsificou um documento que indica que a referida turma de vigilância é legalizada", disseram.








