Ossadas são queimadas a céu aberto: Jovens brincam com crânios humanos no Cemitério da Mulemba no Cazenga
O Cemitério da Mulemba está transformado num grande matagal. O mau estado de conservação do cemitério, outrora conhecido como 14, localizado no distrito urbano do 11 de Novembro, município do Cazenga, rebenta pelas costuras com amontoados de lixo e valas com restos humanos. Aliás, esta situação preocupa munícipes que recorrem ao local para ‘depositar’ os seus entes, naquele que seria o eterno descanso, torna-se num autêntico desrespeito para aqueles que conviveram connosco durante anos, e deram-nos muita alegria.
Por: Alfredo dos Santos Pedro Talamaku
É notária a falta de manutenção no cemitério municipal, com a falta de limpeza e vandalização das campas, sobretudo a exposição de ossadas, que tem criado um ambiente desagradável aos olhos de quem se faz presente naquela casa santa.
Emília, que se encontrava a acompanhar um funeral, explicou a nossa reportagem que tão logo teve acesso ao espaço, deparou-se com um local que parecia ser arrumado, mas, ao caminhar, percebeu que não era bem assim.
“A maioria das campas estão destruídas, e o mais assustador foi ver valas com ossadas enroladas em panos; fiquei arrepiada”, disse.
Os ossos dos mortos, disseram pessoas residentes próximas ao cemitério, depois de enrolados em restos de roupas e madeiras de caixões, são retiradas das covas e queimados, para o desconforto dos moradores.
“Quando queimam o capim, aproveitam colocar os ossos e os utensílios dos cadáveres, o cheiro horrível invade as nossas casas, alguns jovens que acompanham os funerais e crianças do bairro, chegam a destapar os buracos onde os coveiros escondem os ossos, e brincam, principalmente com os crânios”, descreveram.
Segundo moradores, a desordem reina naquele cemitério, sendo que; recentemente, apareceu o corpo de uma senhora, fora da campa, porque os amigos dos alheios levaram os pertences com que havia sido enterrada.
“Não sabemos o que fazem com o dinheiro pagos para os funerais, os coveiros também passam mal, porque realizam os trabalhos sem os materiais de protecção necessários.
Adão Gabriel (nome fictício), que trabalha como coveiro no Cemitério da Mulemba, foi peremptório em afirmar que o trabalho que realiza não ser fácil, e é um autêntico perigo para sua saúde e o da sua família.
“A nossa missão é difícil, trabalhamos muito e ganhamos mal. Ser coveiro é um grande risco, temos que aturar as ofensas, e o melhor é não responder os insultos, caso contrário acabas agredido fisicamente”, lamentou, acrescentando que o administrador adjunto para o Sector Económico e Financeiro do Distrito, António Luís, muito recentemente ofereceu tendas, colunas de som, púlpitos, microfones, tripés, vassouras, pás e enxadas, mas nada disso mudou a triste realidade do espaço.
Padre diz se desolado
Em entrevista a nossa reportagem, o Padre Nequetela, Vigário Geral da Diocese de Caxito, manifestou a sua desolação com o estado em que o campo santo se encontra.
Lembrou que no cosmo visão africana, o cemitério é um lugar santo, portanto, deve ser conservado, embora em quase todos os cemitérios de Luanda a realidade é quase a mesma.
“É uma desgraça, consegue-se ver a falta de sensibilidade pelos outros, isto tem implicações muito fortes nas nossas vidas, por se tratar de um lugar sagrado, com coisas sagradas não se brinca”, alertou.
“Quando morremos”, acrescentou, “terminamos a caminhada na terra, mas continuamos presentes nas memórias, por exemplo, existem curas que são realizadas nos cemitérios, onde se invocam os antepassados, não se trata de feitiço, mas sim de cultura”, avisou o sacerdote lembrando que “todos somos futuros mortos, logo, ao desenvolver esta consciência, temos de respeitar o lugar onde já repousam os nossos entes, é uma pena ver os cemitérios, em particular o da Mulemba muito mal conservado. Isso deixa muito a desejar”, deplorou.
A nossa reportagem tentou ouvir a Administração do Distrito Urbano do 11 de Novembro, que gere o Cemitério, e cobra 7 mil kwanzas por cada funeral, num universo de cerca de 40 enterros que são registados todos os dias, mas sem sucesso.








