Réus do 'caso Laurindo Viera' acusam SIC de ameaças de morte e coacção para assumir autoria do crime
O 'caso Laurindo Viera' já está em tribunal, depois de pouco mais de oito meses, em que foi morto, no município de Talatona, bairro Patriota, o renomado sociólogo, Laurindo Vieira, após fazer levamento de cerca de 1 milhão de kwanzas, numa dependência bancária do BIC. No entanto, a rapidez com que o SIC se desdobrou para apresentar os supostos autores do crime bárbaro de uma pessoa bastante conhecida e mediatizada da arena política nacional, fez com que vários segmentos questionassem os dados da investigação.
Por: Telson Mateus
Tal como o NA MIRA DO CRIME noticiou, há sensivelmente duas semanas, o caso já está em tribunal (julgamento começou na terça-feira, 06), cujos réus são acusados de tirarem a vida de um homem que além de docente, emprestava o seu conhecimento na análise de factos políticos do País.
Todavia, dois dos réus, segundo apurou este jornal, acusados de terem participado da morte do professor Laurindo Vieira, em Janeiro do corrente ano, declararam em tribunal terem sofrido fortes coacções e ameaças de morte por parte dos agentes do SIC, tendo estas acções contribuído para que estes assumissem o ónus do crime.
“Estava a almoçar num restaurante, no Zango 8.000, quando fui surpreendido pelos agentes do SIC-Luanda que me mandaram colocar as mãos ao ar. Tão logo levantei as mãos, fizeram um disparo que me atingiu o braço esquerdo. Não entendi nada, me levaram, sob espancamento, colocaram uma pistola na minha cabeça e fui ameaçado de morte”, denunciou o arguido Hélder de Carvalho, também conhecido por 'Pambala', de 23 anos, acusado de ter sido o autor do disparo mortal que vitimou o professor Laurindo.
Em tribunal, no mesmo diapasão seguiu o réu Adriano Júnior, mais conhecido por 'Mula', de 33 anos, que acusou os agentes do SIC de o terem agredido com brutalidade com cabos de vassoura nas costas no sentido deste cidadão assumir a culpa, tanto diante dos holofotes da imprensa, como no tribunal.
"Chegaram a fazer vários disparos de arma de fogo, em frente da minha família e, sem mandado de captura, fui retirado do seio da minha família sem saber as razões da minha detenção. Fui levado a um lugar que parece ser secreto, na Centralidade do Kilamba, que eles chamam de Floresta, onde me acusaram de ter matado o professor e disseram que iria morrer por envenenamento”, acusou.
'Porcos' que viraram 'cabritos' num abrir e fechar de olhos
Durante as alegações, tendo denunciado todo o tipo de sevícias de que foram alvos, em gesto de confirmação se foram os mesmos cidadãos detidos, o juiz chamou os réus para confirmarem as assinaturas que constam das suas declarações do acto de instrução preparatória, tendo os mesmos afirmado que eram os signatários das respectivas assinaturas.
"Mas fomos obrigados a aceitar aquela história sob fortes ameaças de morte. Caso não aceitássemos seriamos mortos porque além da surra as ameaças eram muito fortes e duras", acusaram.
Reconstituição do crime
Tal como já chegou a ser abordado nestas páginas, no passado dia 11 de Janeiro de 2024, por volta das 9 horas, Raúl Gayeta, de 36 anos de idade, motorista de uma viatura com aplicativo da transportadora UGO, foi contactado pelo seu amigo e prófugo Ivan “Camaro”, que pediu que fosse à sua busca em Cacuaco.
Dali rumaram ao Talatona, onde pegaram Adriano 'Mula' e Hélder 'Pambala'.
'Camaro' engendrou o plano, alegando que estava 'fraco', e convenceu os amigos a se dirigirem ao Morro Bento, na zona do Banco Atlântico, nas imediações do Kero, para protagonizarem alguns assaltos, mas não foram bem-sucedidos, por não terem identificado uma vítima a levantar dinheiro.
Dali, direccionaram as suas baterias para a zona do Patriota, mas antes, Ivan convidou José Pedro, também conhecido por 'Caboba', de 33 anos de idade, para fazer parte do grupo.
Após terem o grupo composto, era mais fácil identificar possíveis vítimas para os assaltos, sendo que, já no Patriota, Ivan entrou à uma agência do Banco BIC e identificou o professor Laurindo Viera, que supostamente teria levantado um milhão de kwanzas, cujo valor até hoje se desconhece o seu paradeiro, informou as suas características físicas, bem como a roupa trajada, aos elementos da motorizada.
'Camaro' entregou, segundo os autos, uma pistola de marca Star, ao 'Pambala', tendo este descido da viatura para fazer o devido acompanhamento da vítima, juntamente com 'Caboba'.
Os dois perseguiram e atacaram Laurindo Vieira, pela estrada do Patriota, sentido Benfica.
Abordaram a vítima e ordenaram que desse a pasta que transportava.
A vítima não apresentou resistência, foi para o banco de trás, tirou e entregou a pasta.
Segundo o co-arguido 'Pambala', a pretexto de que a vítima portava uma arma de fogo do tipo pistola Macarov, efectuou, dois disparos, à vítima, depois subtraiu-lhe um telefone de marca Samsung, modelo A13 e a pistola e se colocou em fuga deixando a vítima a esvair-se em sangue até ao momento que foi socorrido por populares.
Toda esta história é negada pelos réus Adriano 'Mula' e Hélder 'Pambala', embora não tivessem apresentado em tribunal um álibi que lhes coloca fora do local do crime.
As declarações que apresentaram ao procurador e ao juiz de garantias são as mesmas, mas os réus foram unânimes em dizer que no primeiro foram coagidos e o medo de perder a vida fez com que seguissem a mesma linha quando foram ouvidos pelo segundo.
A história coincide: Quem dos dois tira um?
Diante das acusações apresentadas pelos réus, a digna representante do Ministério Público não se mostrou indiferente, pelo que fez questão de saber do réu Adriano 'Mula' o nome dos agentes que o ameaçaram de envenenamento e morte.
Inicialmente houve alguma resistência por parte do réu em dizer nomes, com a alegação de que não se lembrava, mas a representante do MP disse que os réus passaram muito tempo com os agentes, facto que lhes dava alguma possibilidade de terem, pelo menos, memorizado o nome de um deles.
Até que Adriano acusou um dos agentes identificado por Gilson. “Lembrei-me do nome dele por ser chará do meu irmão que também se chama Gilson”, apontou.
Enquanto guardião da legalidade, não restou alternativa ao Ministério Público senão que essas alegações, por sinal, bastante graves do ponto de vista ético para a actuação de um órgão castrense, fez questão que esses factos constassem em acta para melhor apreciação do caso na fase subsequente.
Ainda achando estranha, o MP perguntou ao réu Adriano: como é possível os outros três réus, com excepção dos co-réus Gelson Manaça e Julieta Colombo, contarem “o mesmo roteiro, com os mesmos detalhes”, cujos protagonistas são os elementos detidos?
Pelo que este respondeu que apenas fala por si. Outra história que não bate certo para o Ministério Público tem a ver com a de Hélder 'Pambala', que disse ter saído de mota, por volta das 11 horas, do Descontão do Nova Vida para pegar 'Cabobo' no Ulengo Center, e só voltou às 14 horas.
Há um período extenso de tempo que o réu não soube justificar onde estava, mas que insistiu em dizer que não esteve no Patriota.
Há imagens da viatura de Raúl na porta do banco e do prófugo 'Camaro' dentro do banco BIC-Patriota, bem como da motorizada do réu a circular na mesma zona do Patriota e, quando confrontado com isso, Hélder 'Pambala' remeteu-se ao silêncio, deixando a de que estava a faltar com a verdade, cujas ilações poderão pesar ou atenuar a sua situação no decorrer do julgamento.
Entretanto, pelo sim ou pelo não, o Serviço de Investigação Criminal (SIC) sai desta trama com a imagem beliscada pelo facto de não ter sido a primeira e, ao que tudo indica, será a última vez a ser acusado de práticas menos abonatórias para a culpabilização de indivíduos que nada têm a ver com os crimes em julgamento ou que necessitam de respostas céleres, em função da pressão da sociedade e dos órgãos de comunicação social.








