Enquanto doação é gratuita: Hospitais de Luanda acusados de comercializar ‘balão’ de sangue a 20 mil Kwanzas
Alguns hospitais da cidade de Luanda estão a ser acusados de comercializar balões de sangue aos familiares de utentes que buscam pelo 'precioso líquido' nas urgências hospitalares. Os preços, segundo os denunciantes, variam entre 10 e 20 mil kwanzas a dadores-comerciantes ou a técnicos nas hemoterapias dos Hospitais para familiares internados.
Por: Telson Mateus
Familiares de cidadãos internados em alguns hospitais da cidade de Luanda, a capital do País, queixam-se da falta de sangue nas hemoterapias das unidades sanitárias e denunciam a comercialização deste líquido precioso para salvar vidas, por pessoas desconhecidas e alguns profissionais de saúde.
As hemoterapias visadas na denúncia de alguns familiares são as que estão no Hospital do Prenda, Hospital Geral de Luanda e as Maternidades Augusto Ngangula e Lucrécia Paim.
Fontes do NA MIRA DO CRIME, revelam que o esquema "bem montado" começa com o diagnóstico ou quando o paciente vai ser submetido a uma cirurgia que, na maior parte das vezes, exige a transfusão sanguínea para reposição do sangue.
Segundo as nossas fontes, que preferiram não ser identificadas por temerem retaliação aos seus familiares hospitalizados, a informação sobre a necessidade de sangue chega aos dadores comerciantes por meio de profissionais de saúde que sabem da existência destas pessoas no exterior das unidades sanitárias.
No Hospital Geral de Luanda, por exemplo, segundo denúncias, os dadores comerciantes cobram entre 15 e 20 mil kz por um balão de sangue.
Na hemoterapia das Maternidades Augusto Ngangula e Lucrécia Paim, por sua vez, de acordo com a fonte que não quis ser identificada, alguns técnicos de saúde dizem que não há sangue suficiente em stock, mas, se de modo discreto, os “familiares oferecerem algum valor monetário para a aquisição de bolsa, os balões com o precioso líquido aparecem”.
Madalena Namoma, familiar de um paciente internado no Hospital do Prenda, denunciou que os vendedores de sangue concentram-se, muitas vezes, em frente às unidades hospitalares onde são contactados por familiares e apresentados ao corpo clínico como parentes dos pacientes.
“O meu irmão tinha um tumor na cabeça e o diagnóstico clínico determinou que devia ser submetido a uma cirurgia para remoção. Assinámos o termo de responsabilidade e os médicos fizerem o que estava determinado. A requisição que recebemos indicava a necessidade de três bolsas de sangue, mal saímos do interior da unidade sanitária, dois jovens vieram ao nosso encontro e disseram estarem disponíveis para doar sangue, mas a 17 mil e 500 kwanzas por bolsa”, explicou a cidadã.
Entretanto, o paciente, que esperava pela doação, depois da cirurgia na cabeça, foi a óbito.
Segundo os familiares, a causa da morte não estava relacionada com a falta de sangue, mas por outras complicações.
Instituto Nacional de Sangue nega denúncias e desdramatiza o problema
A directora do Instituto Nacional de Sangue (INS), Deodeth Machado, negou a existência deste grupo de dadores comerciantes e considera que as denúncias sobre a comercialização deste líquido precioso como “simples comentários”.
“Se existe, eu nunca vi e não chega até nós. Temos feito um exercício para garantir que as pessoas que vêm doar, quando aparecem nos nossos serviços, doem no sentido de atender as outras que estão doentes”, esclarece, acrescentando que a doação de sangue não tem preço.
Deodeth Machado explicou que o sangue, depois de ser colhido, leva cerca de oito horas para estar em condições de ser utilizado e o doente não pode esperar.
Segundo a gestora, esta é uma das situações que leva os profissionais do sector a recorrem ao stock da hemoterapia. Sublinha que a doação feita serve para reposição do stock a fim de assegurar a continuidade dos trabalhos deste sector dos serviços de saúde.
“Quando dissemos que não temos sangue, estamos a falar a verdade, porque há duas situações: tenho o sangue positivo, que de alguma forma aparece com mais facilidade, e o negativo, que provém de uma população de dadores muito escassa em todo o mundo. Em função disso, vou ter mais sangue daquele grupo e posso, eventualmente, não ter de um outro grupo. Isso acontece”, sublinhou.
Deodeth Machado disse, também, que hoje os profissionais de saúde têm conseguido convencer, cada vez mais, as pessoas a doarem de modo voluntário sem esperar nada em troca e é com o sangue destes que se consegue garantir a vida de muitas utentes.
“Trabalhamos com os familiares no sentido de se fazer a reposição, porque não pode ficar sem stock sob pena de não se conseguir atender as situações mais grave. O nosso apelo é que as pessoas percebam que devem dirigir-se às hemoterapias para doerem de modo voluntário. Temos uma base de dados com cerca de 21 mil dadores fiéis e para se chegar aos 340 mil, que é o recomendado pela OMS, precisa-se da colaboração de todos”, apela a médica.








