Espancado na manifestação – Polícia no Kilamba Kiaxi acusada de perseguir activista que denunciou troca de seringa no Hospital Geral de Luanda
Um activista cívico, de nome Hernâni João Rufino, foi espancado no dia 12, tendo sido ferido nos membros superiores e inferiores por seguranças, alegadamente a mando do director do Hospital Geral de Luanda, após denunciar a troca de seringa feita por uma enfermeira. O incidente ocorreu quando ele saía de uma manifestação e dirigiu-se ao hospital por sentir-se mal. Segundo o activista, a polícia no Kilamba Kiaxi é conivente da acção, e está a sua procura para detê-lo “de forma arbitrária”.
Por: Laurentino Tchatuvela
Em declarações ao Na Mira do Crime, Rufino explicou que, após a manifestação, sentiu-se mal devido ao gás lacrimogéneo utilizado pela polícia para dispersar os manifestantes. “Daí, procurei, então, ajuda médica no Centro Materno-Infantil, mas, devido à gravidade do meu estado, fui transferido para o Hospital Geral de Luanda, porque apresentava dificuldades respiratórias, tonturas intensas e fortes dores de cabeça”, narrou.
Ao chegar ao hospital, Hernâni afirmou ter sido inicialmente bem-recebido e encaminhado para a sala de tratamento. No entanto, deparou-se com uma situação preocupante: a enfermeira responsável pelo seu atendimento teria preparado uma seringa com medicação, mas foi chamada por um médico e ausentou-se da sala. Disse que quando retornou, já não conseguia identificar qual era a seringa correcta, visto que havia várias espalhadas, muitas delas usadas e sem tampas de proteção.
Ao alertar a enfermeira para que substituísse a seringa, recebeu como resposta: “Se não quiseres essa, não temos outra, já sabemos que é activista e saiu de uma manifestação”. Diante disso, Hernâni decidiu gravar um vídeo, mostrando o estado da sala e das seringas.
Depois foi abordado por seguranças do hospital, que lhe retiraram o telefone à força e eliminaram o vídeo, tendo estranhamente, um dos seguranças acedido ao aplicativo Multicaixa Express. Posteriormente, por ordem de um responsável da equipa do hospital, o telefone foi-lhe devolvido.
Ao retomar a gravação e manifestar a sua indignação, foi novamente interpelado, agredido e expulso de forma violenta pelos mesmos seguranças. Além das agressões físicas, teve os óculos danificados e o dinheiro que trazia consigo retirado pelos seguranças do Hospital Geral de Luanda.
Depois da agressão, os seguranças gritavam: “gatuno!”, provocando a chegada de populares, que também o agrediram.
Algumas senhoras que presenciaram a situação intervieram em sua defesa, esclarecendo que o jovem estava doente e havia procurado atendimento no hospital. No entanto, quando a população percebeu a verdade, Hernâni já havia sido brutalmente espancado.
A polícia interveio e levou-o até à esquadra protocolar próxima ao hospital. Após prestar declarações, o agente responsável pela escuta decidiu que era necessário formalizar uma participação junto às autoridades policiais.
No entanto, pouco depois, outro agente que teria recebido uma chamada do director do hospital, ordenou a sua retenção, enviando uma viatura da patrulha para o conduzir ao Comando Municipal do Kilamba Kiaxi.
No comando, Hernâni voltou a ser agredido por efectivos da polícia, durante a madrugada e o seu estado de saúde agravou-se. Na troca de turno, já no domingo, um agente do SIC, sensibilizado com a situação, decidiu libertá-lo para que pudesse procurar atendimento médico, temendo que o activista viesse a falecer nas celas.
Às 17h20 de domingo, Hernâni recebeu uma chamada do Comando Municipal do Kilamba Kiaxi, informando que, caso não comparecesse, o agente do SIC que o libertou seria responsabilizado, por empatia, o activista explicou ao efectivo que, por ser fora do horário de expediente, não poderia apresentar-se naquele momento.
“No dia seguinte, já na segunda-feira, recebi mais de 20 ligações, informando que eu estaria a recusar-me a comparecer no Comando Municipal do Kilamba Kiaxi. A partir daí, comecei a receber ameaças por parte de alguns agentes do SIC do mesmo comando, dizendo que caso eu não comparecesse, seria emitido um mandado de detenção e que a situação poderia agravar-se ainda mais”, revelou.
Para escapar da perseguição, por enquanto, encontra-se trancado numa residência, fora da minha própria casa.
Contactados pelo Na Mira do Crime, o director do Hospital Geral de Luanda, Francisco Adolfo Manuel Quintino, e o comandante municipal da Polícia Nacional no Kilamba Kiaxi, Salvador Bernardo, mostraram-se indisponíveis, mas garantem pronunciar-se a qualquer momento.








