Angolana residente no exterior denuncia alegada burla imobiliária de sete milhões de kwanzas em projecto habitacional ligado às empresas 7 Mil e Fokita
Uma cidadã angolana residente no exterior há mais de 27 anos, denuncia ter sido vítima de uma alegada burla imobiliária envolvendo as empresas 7 Mil – Soluções e Prestação de Serviços, Lda e Fokita, Lda, num processo relacionado à promessa de aquisição de uma residência em Angola, no âmbito de um projecto habitacional apresentado em 2024.
Por: Débora Manuel
A denunciante, identificada como Ana de Fátima Marques dos Santos, afirma ter investido cerca de sete milhões de kwanzas na aquisição de um imóvel em regime de venda resolúvel, após ter sido convencida por uma funcionária da empresa 7 Mil, identificada como Laura, com quem alegadamente mantinha relações de confiança familiar.
Segundo o relato, durante uma viagem de férias a Angola, em Agosto de 2024, Ana dos Santos tomou conhecimento de um projecto habitacional promovido inicialmente pela empresa 7 Mil, localizado no Condomínio Estrela do 11. Para aderir ao projecto, a denunciante afirma ter efectuado pagamentos iniciais equivalentes a três milhões de kwanzas.
Documentos consultados pela reportagem do Na Mira do Crime, indicam transferências bancárias efectuadas nos dias 15 e 16 de Outubro de 2024, através dos bancos BAI e BFA, destinadas inicialmente à empresa 7 Mil.
Posteriormente, segundo a denunciante, o empresário Valdemiro da Fonseca apresentou-se como responsável directo pelo projecto através da empresa Fokita, alegando assumir integralmente o negócio e os valores anteriormente pagos à 7 Mil. A mudança teria motivado a anulação do primeiro contrato e a celebração de um novo acordo contratual com a empresa Fokita.
O processo passou então a ser acompanhado pelo advogado Reis Luís, constituído pela denunciante através de procuração para acompanhar a execução da obra e os trâmites legais relacionados ao imóvel.
Contudo, de acordo com a denunciante, as obras não avançaram e as promessas de entrega do imóvel deixaram de ser cumpridas a partir de Outubro de 2025.
A empresária afirma ainda que nunca recebeu qualquer apartamento nem reembolso dos valores investidos.
Mensagens trocadas entre o advogado da cliente e Valdemiro da Fonseca, às quais a reportagem teve acesso, mostram insistentes cobranças relacionadas à assinatura de um termo de compromisso para devolução dos valores pagos.
Numa das mensagens, o advogado afirma que o empresário inicialmente assumiu responsabilidade integral sobre os sete milhões de kwanzas investidos, mas posteriormente tentou limitar a responsabilidade apenas aos valores alegadamente recebidos directamente pela Fokita.
A denunciante sustenta que tanto a empresa 7 Mil quanto a Fokita actuaram de forma coordenada e acusa ambas de cumplicidade no alegado esquema.
Segundo Ana dos Santos, a irmã também terá sido incluída no mesmo projecto habitacional e afirma igualmente ter sido prejudicada após a transferência contratual da empresa 7 Mil para a Fokita.
A denunciante afirma ainda que tentou resolver o caso extrajudicialmente durante vários meses, incluindo através de contactos realizados pelo seu advogado e familiares, mas sem sucesso.
O caso encontra-se actualmente sob investigação do Serviço de Investigação Criminal (SIC), através do processo nº 2930/26-MP/MA-NB.
Contraditório
No âmbito da investigação, o Jornal na Mira do Crime procurou ouvir as partes citadas no processo, tendo inicialmente contactado a empresa 7 Mil – Soluções e Prestação de Serviços, Lda, apontada pela denunciante como a primeira intermediária do negócio imobiliário.
A equipa de reportagem foi recebida pelos responsáveis identificados como Gelson, Laura e Joana. Durante o encontro, o senhor Gelson confirmou ter conhecimento do caso envolvendo Ana de Fátima Marques dos Santos e afirmou que a situação não envolvia apenas a denunciante, mas também a irmã desta, igualmente ligada ao mesmo projecto habitacional.
Segundo Gelson, a empresa 7 Mil actuava apenas como intermediária e consultora no processo de aquisição dos imóveis, recebendo uma percentagem pelos serviços prestados, sendo os clientes posteriormente encaminhados aos promotores imobiliários responsáveis pelas obras.
Na ocasião, a reportagem solicitou contacto directo do empresário Valdemiro da Fonseca, apontado como responsável pela empresa Fokita e apresentado às clientes como proprietário do projecto habitacional.
Ainda de acordo com Gelson, a empresa comprometeu-se inicialmente a tentar uma solução amigável no prazo de três dias, tendo considerado que a hipótese de reembolso imediato estaria fora de questão, sobretudo pelo tempo já decorrido desde o início do investimento da denunciante.
Após o prazo apresentado, a equipa do Jornal na Mira do Crime voltou ao local indicado pela empresa, onde foram novamente recebidos. Segundo os responsáveis, os atrasos na conclusão das obras teriam sido motivados pelo aumento dos custos de construção, principalmente do cimento, situação que, alegadamente, afectou financeiramente o projecto imobiliário.
Durante os encontros acompanhados pelo Na Mira do Crime, Valdemiro da Fonseca teria afirmado que não pretendia devolver os valores pagos, mas sim cumprir com a entrega do imóvel prometido à denunciante.
Na tentativa de solução, foi discutida a possibilidade de celebração de um novo acordo, permitindo que Ana dos Santos assumisse directamente a continuidade das obras da residência, mediante compensação nos pagamentos futuros relacionados ao imóvel.
A reportagem acompanhou visitas ao alegado imóvel destinado à denunciante, tendo imagens e vídeos sido enviados à mesma, que se encontrava fora do país.
Entretanto, segundo a denunciante, esta não teria sido a primeira vez que imóveis distintos lhe eram apresentados como solução para o caso. Afirmou ainda que já teria recebido diferentes promessas de regularização documental sem qualquer concretização efectiva.
O jornal apurou igualmente que reuniões posteriores foram sucessivamente adiadas sob diferentes justificações, incluindo alegadas dificuldades internas da empresa e período de luto pela morte de um funcionário.
Já durante uma nova deslocação ao local, realizada esta semana, a reportagem constatou que os documentos prometidos para formalização do novo acordo não foram apresentados.
Segundo a denunciante e seus representantes, o empresário continuou a propor alternativas sem formalização documental definitiva, situação que reforçou suspeitas sobre a viabilidade real da entrega do imóvel.
Fontes ouvidas pelo Jornal na Mira do Crime afirmam ainda que o projecto imobiliário terá enfrentado litígios anteriores envolvendo antigos sócios, tendo inclusive existido alegadas restrições judiciais sobre parte das obras.
Até ao fecho desta edição, não houve apresentação de qualquer documento definitivo que comprovasse a regularização integral da situação da denunciante.








