Revelação: Conheça o dia-a-dia e o namoro à distância dos reclusos da comarca de Viana
Uma realidade desconhecida da maioria dos cidadãos, é contada, na primeira pessoa, por Francisco Xavier, um ex-recluso de 47 anos, com passagens na Cadeia Central de Luanda, vulgo CCL, onde esteve internado na caserna N.º 5 e também na cadeia de Viana por quatro anos, acusado pelo crime de abuso de confiança com uma moldura penal de 2/4 anos de prisão.
Por: Matias Miguel
Ao Na Mira do Crime, Francisco Xavier revela como é a relação entre reclusos de ambos os sexos, ou seja, homens e mulheres.
Segundo confidenciou, embora de forma virtual, existe sim namoro nas cadeias, facto que tem contribuído para muitos reclusos cumprirem as suas penas.
“Só a imaginar que alguém do outro lado troca mensagens e bilhetinhos, um acenar de mãos, um beijinho à distância, vê-la a passar para pegar o saco de comida, enfim, é diferente de não ter ninguém que pensa em você”, começou por explicar, garantindo que o contacto físico entre reclusos de ambos os sexos não é permitido.
“Para aqueles reclusos que exercem actividades dentro da cadeia e alguns são mesmo autorizados a sair, estes têm mais possibilidades, os que vão fora da cadeia conseguem o contacto pessoal. Os demais, aqui dentro isso não passa de uma imaginação”.
Segundo disse, o único contacto que um recluso tem com uma reclusa é a distância com trocas de olhares e depois as fantasias.
“Ela passa a te enviar bilhetes, a cueca com a qual ela passou a noite para sentires o seu cheiro e criares algumas fantasias eróticas e te fazer criar contos de fadas”, explicou, para depois dizer que nisso surgem as cartinhas de amor com insinuações de que sonhou contigo a noite toda.
“Nas cartas elas também são ousadas e dizem mesmo que nos sonhos eles fazem muitas coisas, que acordou excitada e que te deseja”, sustentou, para mais adiante referir que, tal como na liberdade – forma usada para falar de quem não está preso – as reclusas também aproveitam-se da fragilidade sentimental dos homens para depois entregarem a lista de necessidades.
“Dizem que precisam de óleo de cabelo, creme disso e daquilo, postiço, dinheiro, enfim”, contou, sublinhando que, na maior das vezes são as próprias reclusas que tomam iniciativas nos relacionamentos.
“Olha que algumas delas chegam a ser mesmo agressivas… recordo-me de uma vez na enfermaria uma reclusa chegou mesmo a atacar um recluso na presença da agente que as acompanhava. A miúda queria beijar o rapaz à força em asta pública”, sublinhou, recordando mais adiante que, neste quesito, as reclusas passam pior que os reclusos.
Francisco Xavier realçou, por outro lado, que é proibido a entrada de sabão na cadeia feminina e caso seja permitido tem de ser cortado em pedaços pequenos.
“Também é proibido entrar chouriço, banana inteira, porque elas pegam nestas coisas elaboram um desenho de pénis e vão introduzindo nos órgãos genitais com ajuda de uma embalagem.
Questionado se existe, nas cadeias, quartos ou casas convencionais onde os reclusos podem ter relações sexuais com os seus parceiros, esse ex-recluso diz que nunca ouviu. “Mas se existe, para se ter acesso a esses locais, deve ser com esquemas muito fortes”, sustenta.
Vida de reclusa é mais difícil
De acordo com Suzana António, uma reclusa detida depois de ter sido induzida por um primo para enveredar no mundo do crime, enquanto trabalhava como secretária, as reclusas passam mais dificuldades nas cadeias em relação aos reclusos.
Segundo conta, muitas das reclusas acabam detidas em função de terem sido aliciadas por primos ou amigos, para lhes fornecer pistas sobre os patrões ou chefes, “e quando o esquema é descoberto, na maior parte das vezes os bandidos fogem com toda a massa elas acabam presas”.
Em relação a assistência dos familiares, a ex-secretária contou que é péssima, sendo que nessa fase da pandemia, com as restrições e suspensão de visitas, num universo de 300 reclusas apenas 50 recebem visita ou assistência dos seus familiares.
“Mesmo depois de soltas continuamos a ser discriminadas e a descriminação pende mais do lado do nosso lado, enquanto reclusas do que do lado dos homens”, contou Suzana António, ex-secretária induzida por um primo para passar a pista de um roubo que ocorreu algures na Maianga, cujo mentor nunca foi apanhado. Após dois anos de reclusão acabou solta.
Na cadeia, principalmente na Comarca, também existem insultos entre reclusos e reclusas.
“Os rapazes gostam de chamar as reclusas de bandidas, matadoras de maridos e nós respondemos chamando-os de violadores, gatunos e as vezes é só para provoca-los ou provar que estão sendo ouvidas”, explicou, sublinhando que essa interacção é boa e salutar.
Em relação as reclusas estrangeiras, segundo disse, maior parte delas são acusadas de crimes de falsificação, burlas e roubos.
“Poucas são aquelas que mataram numa relação. Mas é importante dizer que, nas cadeias também nascem crianças, porque muitas reclusas entram gravidas e também aparecem reclusas gravidas”, lançou.








