SIC, Advogados e Procurador: Mais de cem milhões de kwanzas desapareceram numa investigação agora arquivada
Tudo começou na terça-feira, 9 de Julho de 2019, quando Emiliano Lameira preparava-se para mudar de residência, do Luanda Sul para o Golfo 2.
Foi contactado por Jorge Kizomba alguém que lhe foi apresentado por um seu amigo apenas identificado por Nunes.
Por: Osvaldo de Nascimento
Foram mantendo algum contacto, já que Kizomba dizia que era empresário, e fazia viagens constantes para o Dubai, “como empreendedor pensava mandar comprar alguns meios fora, por isso interessava-me estar ligado a estas pessoas”, contou.
Neste dia, 9 de Julho, lembra, ele, Kizomba, “liga a dizer que estava com uma preocupação, e precisava receber alguns valores numa conta bancária-empresa do Banco BFA. Disse que cairiam dez milhões de kwanzas de um trabalho, e que eu receberia alguma gasosa”.
“Dei o número da conta e o NIF, e disse que qualquer coisa daria um sinal. Na quinta-feira, 11, o Jorge Kizomba ligou para mim a dizer que queria estar comigo no Belas Shopping, fui para casa buscar o carimbo da empresa e documentos da conta, mas não sabia que já estava feita a transferência. Quando cheguei ao Belas Shopping, o Jorge Kizomba apresentou-me uma terceira pessoa que estava com ele, e pediu que fossemos até a um multicaixa consultar a conta”, explicou.
Milhões a fervilhar na conta
De acordo como nosso entrevistado, quando consultaram a conta, encontraram 76 milhões de kwanzas. “Fiquei assustado, O Kizomba disse apenas que não tinha problema, ele manuseava o telefone e ia recebendo informações. Saímos do Belas fomos ao lado do SIAC onde tem um BFA, e apareceu um outro carro com três pessoas, um senhor de nome Jorge Ricardo (de pele branca) disse que eu seria a dama deles, questionei do que se referia, e ele disse apenas que o dinheiro entrou e não poderia se desligar deles, até fazer os movimentos”, recordou, acrescentando que, o mesmo Jorge, pediu-lhe outra vez para confirmar quanto tinha no banco, “entrei ao banco e encontrei 135 milhões, saí e mostrei o extracto”.
De seguida, acrescenta, pediram-no para levantar um milhão no balcão e cinquenta mil no multicaixa, e que fizesse alguma transferência para outras contas.
“Saímos daí e fomos almoçar num restaurante próximo ao MAT, no Talatona, e passamos a tarde a espera de outras pessoas”.
Depois, “apareceu um senhor, bancongo, e tínhamos assim uma caravana de três carros. Seguimos para o Nova Vida e paramos próximo a empresa Telecom, onde apareceu um quarto carro e combinaram um encontro para o Luanda Sul, em Viana, a ideia era contactar um funcionário do banco BFA, amigo do Nunes, que também são sócios, e que deveria confirmar quanto poderiam levantar na sua agência situada em Alvalade”.
“Conversavam cerca de meia hora, quando o Jorge Kizomba pediu-me para ligar para casa avisar que dormiria fora, uma vez que sairíamos muito cedo no dia seguinte, sexta-feira, e não interessava estarmos distantes um do outro”.
Hotel Horizonte
“Passamos a noite no Hotel Horizonte, antes jantamos e bebemos alguns copos de finos, depois fomos dormir”. De manhã muito cedo, Lameira conta que chegou uma viatura Hiunday, modelo i10, de cor creme, e os levou ao BFA do Alvalade, “mas não conseguimos levantar muito dinheiro porque a área que autoriza elevadas somas, acima de dez milhões, estava reunida”.
“Mas já havia conversa com um funcionário do banco, de nome Veríssimo, e levantamos apenas cinco milhões, e este recebeu uma comissão. Indicou uma conta e fiz algum depósito”.
“Saímos daí e fomos a minha agência no Bairro Azul, e a informação era a mesma, não se podia levantar muito dinheiro porque o pessoal do banco que autorizava estava reunido”. O cabecilha, Kizomba, decidiu então que se fizesse transferência.
“Fiz transferências de dois milhões e 500 para várias contas, e cinco milhões para tantas outras”. Depois, recorda, foram para sua casa em busca de cheques, porque o Jorge Kizomba estava a ser muito pressionado por telefone, tinha que se deslocar ao BFA da Vila Alice.
“Fomos ao BFA da Vila Alice, e indicaram um tal de Alex que deveríamos ter com ele. Como já era depois das 15horas, este disse que, pelo valor, já não podia fazer nada, e pediu que regressássemos na segunda-feira para ser feito o levantamento. Tudo era feito sob comando de Jorge Ricardo”, sublinhou.
BFA detecta anomalia
A seguir, saíram do banco e foram reunir numa escola primária aí existente, o Jorge mandou um dos rapazes que estava connosco (Mauro) ir até a Mutamba. Minuto depois, Hemiliano Lameira recebe uma chamada do BFA, a dizer que a sua conta estava bloqueada devido alguma anomalia, mas que, qualquer dúvida, poderia passar na segunda-feira para saber mais, ou deveria se dirigir a Procuradoria Geral da República (PGR). “Chamei o Jorge Kizomba e contei da chamada, ele disse que seria apenas por causa das movimentações, uma vez que na minha conta não tinha dinheiro há algum tempo”.
Detenção
Afinal, lembra, o rapaz que foi a Mutamba foi encontrar um tal de senhor Bruno Antas (suposto dono do dinheiro) e entregar 4 milhões de kwanzas. O que ele não sabia é que o Bruno já estava com dois agentes do Serviço de Investigação Criminal (SIC).
“A ideia era passar o final de semana no Hotel Horizonte, para que, na segunda-feira, regressássemos ao banco levantar o dinheiro. Fomos as bombas do 1º de Maio para comer alguma coisa, enquanto esperávamos o jovem que tinha ido a Mutamba, quando de repente surge um senhor que aborda o Jorge, quando tento me aproximar surgiram mais dois agentes do SIC e polícias que nos algemaram e obrigaram a subir para o carro”.
SIC-GERAL toma conta do caso
“Fomos ao SIC-Kinaxixi e eu questionava porque estava a ser detido, e nos transferiram para o SIC-Geral. Fiz duas chamadas, uma para a minha irmã e outra para o meu irmão”. Segundo o entrevistado, ficaram detidos cada um numa sela separada, ficaram sexta-feira, sábado e domingo detidos, segunda-feira foram levados para o SIC-Económico, e foram ouvidos os quatro, com a instrução processual a ser conduzida pelo instrutor Sebastião Boaventura.
“Fui ouvido pelo Procurador António Binza Quilobo e perguntou-me se conhecia o Bruno Antas, respondi que não. E o Jorge Ricardo, respondi que também não, apenas conhecia o Jorge Kizomba”. No mesmo dia, lembra, todos saíram, “menos eu e o Jorge Kizomba, fomos transferidos para a Comarca”.
Pontas soltas
De acordo com Lameira, no dia da detenção, nas bombas do 1º de Maio, o Jorge Ricardo estava a escassos metros dos agentes do SIC, que tinham tudo para prender o senhor, mas não o fizeram nada.
No dia 16 de Julho foram transferidos para a Comarca de Viana, uma semana depois, o Jorge conseguiu fazer entrar um telefone na cela e fazia os seus contactos. “Fez uns contactos e mudou de piso, isolou-se de mim”.
Advogados ‘fantasmas’ entram em cena
“Uns dias depois, fui requisitado, eram dois advogados dos Escritórios Sapiñala, que eu nem sei se saíram da onde, disseram que estavam aí em nome do procurador Beato. Disseram o que eu não devia entender o que estava a acontecer, e eles estavam aí para resolver. Disseram também que eu não pagaria nada, porque o caso do dinheiro envolvia muita gente, e que era um caso da máfia, e na máfia não se explica muito, e se eu aceitasse, iriam fazer todas as operações e devolver o dinheiro onde saiu, depois seria solto”.
“Eu disse que não assumiria nada se não fosse na presença do Jorge Kizomba que me colocou no problema”, depois, explica, contou tudo ao Jorge Kizomba, e respondeu que também não conhecia estas pessoas.
Os ditos advogados, segundo o nosso entrevistado, regressaram um outro dia, reuniram com os dois presos e deixaram os seus contactos, “mas depois perdi os números, porque afinal o Kizomba falava sempre com eles. Tanto mais é que quando a família do Jorge Kizomba disse que tinham conseguido advogados para nós, provou-se que eram do mesmo escritório. Mandei a minha esposa entregar uma cópia do meu bilhete, mas o advogado Edson dos Santos pediu o próprio bilhete e o meu telefone”.
“Obrigaram-me a assinar alguns documentos e disseram que o queixoso, o tal Bruno Antas, queria apenas reaver parte do dinheiro. Disse que o mesmo dinheiro havia sido dado ao Jorge Ricardo e era para comprar divisas no Dubai, mas este desapareceu com os valores”.
Dinheiro evaporou
De acordo com Lameira, quatro meses depois de estar enjaulado, saiu, e dia seguinte foi ao banco pedir um extracto bancário. “Todo dinheiro havia sido transferido para uma outra conta, com um documento que não sei quem escreveu, com o nome da minha empresa a autorizar a transferência”, admirou.

“Liguei para o Jorge e ele disse que o dono do dinheiro era a empresa Emaxicom e aceitou receber o que sobrou. Pedi que me apresentasse um documento que atestasse o estorno do dinheiro, uma vez que haviam bloqueado a minha conta, com a gravidade de ser preso sem nenhuma explicação e ninguém me diz absolutamente nada”, lamentou.
Emiliano diz que encontrou chamadas do BFA para o seu número, e foram atendidas não sei por quem, quando o seu telefone estava com o SIC.
Em Dezembro de 2019, o jovem empreendedor disse ter depositado 200 mil kwanzas numa conta sua do Banco Sol para pagar a renda de casa, porém, mais uma vez, viu a sua conta bloqueada e os 200 mil até hoje não consegue reaver.
Queixoso fantasma, ou foi dinheiro retirado ilegalmente do tesouro?
Emiliano Lameira diz que ele ou a sua família nunca tiveram contacto com o suposto queixoso Bruno Antas. Apenas ouviu que o dinheiro é do senhor e nada mais. Acredita que foi envolvido num esquema em que o grupo retirou ilegalmente dinheiro do tesouro, e foi arrastado para o caso estando inocente.
Assunto arquivado pelo SIC
O jovem que passou quatro meses na cadeia de Viana, disse que volta e meia desloca-se ao SIC para saber a quantas anda o caso, no entanto, há pouco mais de duas semanas, foi-lhe informado pela secretária do Gabinete do Procurador Binza, de nome Florinda, que o caso está arquivado.
“Arquivaram o caso sem me consultarem, como se eu nada tivesse a ver com o caso”. Emiliano procura justificação da sua detenção, e pede as autoridades que se reabra o caso para saber a quem pertencia o dinheiro e onde foi parar.









