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ANIESA fecha os olhos: Jovens angolanos ‘escravizados’ por chineses numa fábrica que adultera produtos alimentares

ANIESA fecha os olhos: Jovens angolanos ‘escravizados’ por chineses numa fábrica que adultera produtos alimentares


Uma equipa multissectorial encabeçada pela direcção do Comércio do município de Viana, da direcção de Saúde de Viana, do SINSE, SIC, Bombeiros e a ANIESA deslocou-se na manhã de quarta-feira, 25, a indústria Huaxiang, Internacional, situada no distrito urbano da Caop, em Viana, para constatar denúncia de violação dos direitos humanos, adulteração de rótulos e fabricação de produtos alimentares de forma não adequadas.

Por: Matias Miguel

Uma equipa de reportagem do NA MIRA DO CRIME esteve no local e acompanhou a par e passo a visita que durou perto de 5 horas, numa extensão de 5 hectares onde funcionam duas naves da mesma empresa, sendo uma fábrica de produtos alimentares como sumos, leite, yogurt e uma linha de montagem de lâmpadas led, e uma outra fábrica de chinelas.

No local, chamou-nos atenção a ‘imundice’ e a forma improvisada em que foi feito o laboratório.

Deparamo-nos com três jovens que, mesmo sem saber a fórmula do que faziam, misturavam seis produtos com rótulos chineses, que dariam como produto final sumos, leite e yogurt. Questionados sobre que produtos realmente eram aqueles, os jovens angolanos apenas responderam que o chinês mandou misturar.

Adulteração de rótulos

Na nave de montagem de equipamento de lâmpadas led, a equipa multissectorial surpreendeu a adulteração de rótulos nas lâmpadas, colocavam rótulos de 40 watts em lâmpadas de 20 watts, de 60 em 40 watts, no local, decretou-se a detenção imediata ao responsável chinês que dirigia o acto.

De surpresas não é tudo, porta adentro, entrou um jovem de pele clara, que aparenta ter 28 anos a falar ao telefone, do outro lado da linha recebia ordens, começou por perguntar em tom arrogante, quem é o senhor que esta a dirigir a operação. Não obtendo resposta, proibiu os funcionários de abrirem a boca, sob pena de serem sancionados. Durante a nossa presença na empresa, o jovem reportava por telefone o que observava.

Cárcere privado

Funcionários que falaram ao NA MIRA, foram unanimes em denunciar as péssimas condições em que vivem e os magros salários que auferem.

Segundo eles, a alimentação não passa de arroz com uma postinha de peixe Lambula, “E somos obrigados a cozinhar na lenha,  dormimos em pavilhões onde nem sequer um aparelho de televisão ou rádio temos”, explicaram.

Deny Tchuca Munhanguela de 23 anos, natural da Huíla vive e trabalha na Indústria Huaxiang há dois anos, tem um salários de 27 mil kwanzas e diz que, desde que chegou a empresa, foi dispensado apenas uma vez  para passar o domingo em casa.

 “O patrão nos deixa irmos para casa aos domingos nem feriados, não temos folga, não podemos nos ausentar daqui“, denunciaram.

Maria Antónia, de 20 anos de idade, natural de Benguela, a semelhança dos 102 funcionários que trabalham e residem na empresa, são maioritariamente provenientes das províncias da Huíla e Benguela, e viram na nossa presença  uma luz no fundo do túnel, que visa por fim a ´escravidão e cárcere  privado que vivem’.

“Temos recolher obrigatório a partir das 18h00, nesta altura é proibido circular no quintal,  estou aqui há um ano, fui dispensado dispensada apenas três vezes, também queremos levar uma vida normal, de trabalhar e voltar para casa, aqui é diferente, se te dispensam  num domingo de tarde, segunda-feira tens que estar aqui às 07h00, se atrasares, encontras as tuas coisas no portão dão-te o teu salários e recrutam outra pessoa para o teu lugar”, apontou um dos entrevistados.

Director do Comércio de Viana pondera encerrar a unidade fabril

Dorivaldo Adão, director do Comércio do município de Viana em entrevista a este Portal, disse que a visita inspectiva veio pelo facto de receberem muitas denúncias de funcionários que trabalham naquele local em condições não aceitáveis.

“Daquilo que constatamos, os produtos não têm rótulos em língua portuguesa, existem muitos requisitos que podem culminar com o encerramento temporário ou definitivo, isso se aplica sempre que uma empresa estiver desalinhada com a lei em vigor no país”.

Segundo o responsável do comércio, as administrações municipais, por força da lei não determinam o encerramento de uma instituição, “este quesito cabe apenas a ANIESA, logo vamos esperar deles se se vai encerrar a fábrica ou não”, disse, acrescentando que o seu departamento se propõe a  fazer propostas de acordo com a lei e de acordo com tudo que se verificou e o que os funcionários disseram.

ANIESA não encerra nada e deixa tudo para amanhã

Jeremias Malembe, Inspector Superior da ANIESA, disse que feita às constatações, “a impressão apresentada não são boas, são péssimas, na área dos sumos vamos notificar o laboratório amanhã (quinta-feira, 26) com mais calma, vamos recolher amostras do laboratório e levar para análises, já na fábrica de chinelas também só vamos intervir amanhã”, calculou.

“Hoje não vamos encerrar nada, apesar de a lei industrial dizer que pode se fazer o encerramento ainda hoje, mas não estamos preparados para isso”. Jeremias Malembe, afirmou categoricamente que a Indústria Huaxiang não será encerrada apesar das anomalias que apresenta, admitiu que as condições em que vivem e trabalham os funcionários serem péssimas, mais que tudo passa por um trabalho conjunto para determinar a finalidade do trabalho.

“Nós ANIESA, vamos dar 10 dias para que a empresa melhore, se assim acontecer não iremos encerra-la, prometemos voltar nos próximos dias e observar se cumpriram com as exigências recomendadas, detectamos a falta de higiene, arrumação, um laboratório a altura das exigências, temos isso tudo apontado”, e, continuou, como os resultados laboratoriais ainda não estão feitos, os produtos vão continuar a serem produzidos de forma   normal, até se apurar se é irregular ou não.

ANIESA perde uma soberana oportunidade de mostrar trabalho

De acordo com um dos especialista que integrava a comissão, a ANIESA perdeu uma soberana oportunidade de mostrar que levam a sério aquilo que são os objectivos a que se propõe a instituição.

“Tinham tudo para encerrar a Indústria Hauxiang por variadas irregulariadades encontradas, desde o tratamento desumano que são submetidos os nacionais, a integração de menores no sector produtivo, a falta de um laboratório a altura para a fabricação dos sumos, leite e yogurt que nós consumidores colocamos à mesa”, apontou.

No entanto, o NA MIRA DO CRIME vai seguir o caso milimetricamente.

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