Roubalheira nas Forças Especiais: Militares exigem comissão de inquérito na Escola de Formação
O Comandante em exercício da Escola de Formação das Forças Especiais (EFFE), Coronel Marcão, é acusado pelos efectivos daquela instituição das Forças Armadas Angolanas (FAA), de estar enveredar por "práticas danosas", como tráfico e desvio de recursos, que crescem e se desenvolvem em Cabo Ledo.
Por: Lito Dias
A situação é tida como preocupante e até mesmo alarmante que pedem uma Comissão de Inquérito para identificar e sanar todas as falcatruas que estão na ordem do dia.
Segundo fontes do NA MIRA DO CRIME, desde a sua indicação para comandar os destinos daquele "prestigiado Estabelecimento de Ensino Militar", em finais de 2021, o Coronel Marcão, transformou a EFFE numa espécie de "unidade de garimpo", onde executa os desvios dos bens da unidade, à luz do dia e, sob o olhar das tropas, com a óbvia cumplicidade de alguns oficiais do Comando e Estado-Maior de sua estrita confiança; o que tem apoquentado os efectivos.
"Os oficiais, sargentos e praças daquela instituição manifestam-se, profundamente indignados e preocupados com a situação", disse.
O mau ambiente de trabalho foi gerado sobretudo pela má liderança já que o coronel em referência é apontado como tendo optado por um modelo de liderança "autoritária e exploratória", caracterizado pela "intimidação, abuso de autoridade e exploração dos seus subordinados, em total desrespeito ao código disciplinar militar".
A relação com a tropa, segundo a fonte, degrada-se dia após dia, em razão do crescente abuso de autoridade, inclusive com os principais chefes e membros do Comando e Estado-Maior, por sinal, seus auxiliares directos, com excepção daqueles que constituem o grupo de sua conveniência que beneficiam de um tratamento diferenciado.
"Os efectivos consideram-no arrogante, pouco comunicativo, pouco transparente e assertivo na abordagem e solução dos problemas, por conta do défice de auscultação dos seus auxiliares mais directo e das tropas em geral”, informou, considerando que o ambiente de trabalho vigente na unidade, em termos gerais, caracteriza-se como deplorável e desmotivador, face ao mau exemplo de liderança e comunicação deficiente com a tropa em geral e falta de espírito de equipa e camaradagem.
Desvio da alimentação
O comandante da EFFE, refere a nossa fonte, montou um esquema de desvio sistemático da alimentação da tropa.
"O esquema é operacionalizado pelo Major Cuba, chefe adjunto da Secção de Logística e seu braço direito, a quem deu o estatuto de "chefe importante", com direito a todas as regalias logísticas equiparadas a do seu chefe imediato da secção, em detrimento de outros oficiais, chefes do Estado-Maior e de todos aqueles de maior graduação pertencentes a outras subunidades.
O mais repugnante, referem, é que o esquema em questão está a permitir a distribuição de dotação alimentar aos amigos e outras pessoas estranhas à instituição, em detrimento das tropas, no quadro do apoio social, porque, frequentemente, observa-se o transporte de produtos diversos dos armazéns do quartel para outros destinos.
"A tropa reclama desesperadamente sobre a privação e desvio sistemático de produtos diversos existentes em armazém, mas que, estranhamente, não chegam ao consumo das tropas, mesmo com o conhecimento destes através dos manifestos dos Planos de Abastecimento procedentes da Base Central de Logística", denunciaram.
"O Sr Major Cuba, por exemplo, por conta dos poderes e privilégios de que goza, abriu recentemente uma cantina junto a sua casa, localizada no bairro adjacente ao quartel, onde comercializa produtos diversos (alimentícios) desviados ou subtraídos dos armazéns da unidade sob o olhar pávido e sereno dos órgãos de inteligência militar local e outros vocacionados para garantir a segurança e asseguramento logístico das tropas", ilustraram.
Em consequência, os efectivos reivindicam nos bastidores a crescente redução da norma das refeições distribuídas diariamente quer pela quantidade quanto pela qualidade, fundamentalmente, a refeição do jantar.
"Pois, tornou-se regra o confeccionamento do jantar, à base de conserva de carne em lata e, as quantidades dificilmente corresponderem ao efectivo planificado, tudo porque a responsabilidade do confeccionamento é confiada aos manipuladores dos refeitórios e cozinhas que, por sua vez, subtraem parte dos produtos planificados", denunciam, acrescentando que o desvio da comida assenta em um esquema hierarquizado desde o topo aos manipuladores das cozinhas. Observaram que os principais chefes fazem apenas a refeição do almoço com as tropas.
As restantes fazem-nas em suas próprias residências, mas com os alimentos retirados, por esquemas, dos armazéns do quartel.
Venda de água potável destinada às tropas
Dizem que o Comandante da EFFE desenvolveu, à semelhança da alimentação, um esquema de venda da água potável destinada às tropas, transportada desde Luanda, e água bruta desde o rio Longa, através das cisternas da unidade.
"A água potável é comercializada, sobretudo, na comunidade de Cabo-Ledo, assim como nas demais povoações localizadas ao longo da estrada nacional nº 100, isto é, no corredor rio Longa - rio Kwanza", revelaram, informando que, sistematicamente, o plano de abastecimento de água potável é interrompido, em razão deste esquema, obrigando as tropas, como consequência, ao consumo da água não tratada proveniente do rio Longa, expondo-os ao contágio de doenças graves daí derivadas como o paludismo, a febre tifóide, hemorroides, hematúrias, entre outras.
O esquema é operacionalizado por sargentos e praças selecionados e alimenta "exclusivamente o Comandante e os seus principais colaboradores, com o pretexto de reverter os lucros para a solução de problemas pontuais da unidade".
Desvio de viaturas
Recentemente, o Coronel Marcão terá se apoderado de duas viaturas do tipo Unimog (uma de cor azul e outra de cor verde) que se encontravam, supostamente, escondidas algures no interior do parque da Quissama para evitar o seu controlo pela comissão de inspecção da Direcção Principal de Armamento e Técnica do Estado Maior General das FAA, aquando de uma visita realizada a unidade, em 2021.
As viaturas que apresentavam apenas problemas da bomba de combustível, neste momento, estão operacionais e a concluírem os trabalhos de manutenção, sob a responsabilidade da secção de Armamento e técnica da unidade.
"Também temos registado a mobilização de viaturas do tipo Toyota Land-Cruiser, por um lado, para a compra clandestina de gado na província da Huíla e Kuanza-Sul, com a cumplicidade do seu Sargento Maior. Consta-nos que, neste momento, o comandante já é detentor de um curral de animais, algures na província do Kuanza Sul, criado supostamente a custa desse esquema", frisou.
Desvio do combustível e lubrificantes
Outro caso de que é acusado o coronel Marcão prende-se com o tráfico do combustível.
À semelhança da água potável, o destino deste tem sido os comerciantes da comunidade de Cabo-Ledo; suportado pelo plano de abastecimento de combustível e lubrificantes procedente do comando superior.
"Raras são as vezes que se planifica a distribuição natural aos efectivos da unidade utentes de viaturas como foi concebido", observaram, precisando que, quando ocorre, usa-se de todas as engenharias possíveis para privar o direito aos mais fracos e comercializar para o seu próprio benefício com o argumento de reverter os lucros para a resolução de problemas pontuais da unidade.
O caso mais recente, contam, ocorreu em Dezembro de 2021, aquando do cumprimento da prevenção durante a quadra festiva.
"Em virtude de um desentendimento resultante da distribuição do bacalhau sem a anuência do Comandante em Exercício por parte do Comandante Adjunto para Educação Patriótica, Marcão terá privado, até hoje, o combustível planificado para os militares utentes de viaturas escalados no primeiro turno da prevenção, beneficiando apenas os do segundo turno, como uma autêntica demonstração de forças", lembraram.
Destrato da classe docente
Ainda tem mais: o comandante da EFFE, segundo os militares da sua unidade, demonstra falta de empatia com a classe de docentes. Ou seja, desde que assumiu o comando da unidade nunca auscultou a classe para conhecer os reais e prementes problemas que enfrentam.
"A Direcção de Instrução e Ensino, enquanto órgão de tutela da actividade de instrução e principal órgão da estrutura da unidade, está a ser dirigida como uma subunidade meramente operacional", aperceberam-se, facto que tem causado um grande descontentamento no seio da classe e, consequentemente, na fuga de quadros em virtude do mau emprego destes.
Dizem ainda que, recorrentemente, os instrutores, independentemente do escalão, têm sido empenhados em massa nas campanhas de capina no âmbito da manutenção da unidade.
Actualmente, a falta de estratégias para a manutenção da actividade docente é notória, pois, os docentes reivindicam um tratamento mais digno, honrado, responsável e profissional por parte do Comandante em Exercício da unidade.
Dentre as inúmeras dificuldades que atravessam, destacam a necessidade de melhoria das condições básicas de trabalho (respeito à classe, liderança exemplar, comunicação transparente e aberta, foco no desenvolvimento, reconhecimento pelo árduo trabalho, espírito de grupo); melhoria das condições de habitabilidade; melhoramento da comunicação entre a classe e o comando; formação contínua dos docentes; influenciar o mando superior para a criação do estatuto do docente militar; criação de uma biblioteca; criação de uma sala de informática; melhoria da estrutura de saneamento da unidade; apetrechamento das casernas; melhoria da alimentação, entre outras.
Entretanto, para se pôr cobro a esta situação e salvaguardar o interesse da instituição em particular e das FAA em geral, apelam a intervenção dos órgãos de direito, pois o escândalo concernente aos desvios de recursos que atravessa actualmente a EFFE, deveria viabilizar comissões de inquérito aos chefes e adjuntos das áreas aqui citadas, considerando que a unidade está a ser utilizada com o doloso propósito de enriquecer o (s) seu (s) comandante (s).
A EFFE é uma unidade de docência vocacionada, principalmente, para a formação de oficiais, sargentos e praças das Forças Especiais. Tem dependência hierárquica do Estado-Maior General, funcional, da Direcção Principal de Preparação de Tropas e Ensino, e Técnica, da Direcção de Forças Especiais.








