Morte misteriosa de crianças na Lunda Norte aponta para o tráfico de órgãos humanos
Quatro crianças foram encontradas mortas de forma misteriosa no município do Cuango, na província angolana da Lunda Norte, apenas neste mês de Janeiro. Especialistas consideram que o fenómeno pode estar ligado ao tráfico de seres e órgãos humanos
Por: NA MIRA DO CRIME
Segundo especialistas, a morte estranha das crianças, cujos cadáveres aparecem mutilados e queimados pode ter a ver com o tráfico de órgãos humanos.
Para o activista de direitos humanos, Jordam Muacambiza, citado pela Voz da América, as mortes acontecem normalmente "com rapto de crianças que dias depois aparecem sem vida e muitas delas queimadas".
Tem-se registado o “desaparecimento de várias crianças com idades compreendidas entre três a 14 anos”, afirma o activista que pede "às autoridades que esclareçam estas mortes”.
As autoridades não se pronunciam sobre o assunto, apesar de o porta-voz da delegação do Ministério do Interior na Lunda Norte, Rodrigues Zeca, ter prometido à comunicação social que iria fazê-lo a qualquer momento, o que ainda não aconteceu.
De um tempo a esta parte, tal fenómeno tem-se registado em algumas localidades de províncias fronteiriças, tal como o Cunene, Cuando Cubango, Moxico, Uíge e Zaíre. Nestas regiões os populares lançaram, em tempos, um grito de socorro, porque diversas crianças desapareciam e os corpos de algumas delas eram dias depois encontados mutilados e queimados.
Muitas dessas crianças desaparecem definitivamente, quiçá, levadas para lá das fronteiras para um destino desconhecido. Actualmente, o desaparecimento de crianças, adolescentes e até de adultos tem-se acentuado em várias localidades, com destaque para Luanda.
De acordo com um relatório do Departamento de Estado norte-americano sobre tráfico de seres humano, divulgado anteriormente, em Angola, jovens e crianças, de ambos os sexos, são explorados por traficantes no seu próprio país e fora dele.
"Os traficantes exploram angolanos, incluindo jovens de 12 anos e pouco mais, em trabalhos forçados, no fabrico de tijolos, no serviço doméstico, construção, agricultura, pescas, exploração artesanal de diamantes e outros sectores de mineração", refere o relatório, acrescentando que meninas angolanas com 13 anos são vítimas de tráfico sexual e trabalho doméstico em casas particulares.
"Adultos angolanos usam crianças menores de 12 anos em actividades criminosas forçadas, porque as crianças não podem ser processadas judicialmente", descreve ainda o documento, sublinhando que com a pandemia de Covid-19 os "manipuladores" angariaram mais crianças pobres de Luanda para trabalharem na rua a mendigar, engraxar sapatos, a lavar carros e a ajudar a estacionar viaturas.
O documento salienta que as províncias de Luanda, Benguela e a fronteira das províncias do Cunene, Lunda Norte, Namibe, Uíje e Zaire são as "áreas de maior ameaça para a actividade de tráfico de seres humanos".
No Cunene, por exemplo, segundo o relatório, devido à seca algumas aldeias obrigam as crianças a abandonar a escola para ir buscar água, cavar poços e levar o gado a pastar.
"Os traficantes transnacionais tiram partido das inúmeras passagens de fronteira não seguras, informais e muito utilizadas e levam meninos angolanos para a Namíbia para trabalhos forçados", refere o relatório.
Os traficantes, segundo o documento, também exploram mulheres e crianças angolanas em trabalhos forçados em serviço doméstico e tráfico sexual na África do Sul, Namíbia e alguns países europeus, incluindo Portugal e Holanda.
A este propósito, as autoridades angolanas reconhecem que é preciso mais esforços no combate ao tráfico de seres humanos, aludindo que o país ainda não atingiu a primeira posição dos padrões para eliminar esse tipo de tráfico, mas está a esforçar-se para atingir o ponto de excelência.
Contudo a sociedade civil angolana exige maior empenho e acção das autoridades, sobretudo, policiais, porque o fenómeno é alarmante e está a alastrar-se a diversos pontos do país.
Consta que Angola não está a cumprir o mínimo dos padrões para eliminar o fenómeno, apesar de demonstrar vontade, mas isso só não basta. É urgente que se acabe com o tráfico de seres humanos dentro do país e nas fronteiras, para estar totalmente livres deste mal.








