“Preso” do 2º Comandante Provincial do Cuanza Sul morre 48 horas depois da detenção
O 2º Comandante Provincial da Polícia Nacional (PN), na província do Cuanza Sul, Subcomissário Pedro Januário Pedro, está a ser acusado de ter protagonizado um acto de abuso de autoridade que culminou com a morte de um segurança na cidade do Sumbe.
Por: Na Mira do Crime
O oficial superior da Polícia, a ser acusado de ter mandado deter, arbitrariamente, na passada sexta-feira, 26 de Maio, cerca das 17H30, o cidadão que em vida atendia pelo nome de Kassoneca João Necas, funcionário da empresa de Segurança “Segu Service”, quando se encontrava de serviço à entrada do Hospital provincial “17 de Setembro”.
De acordo com Armando Caetano, director provincial da referida empresa de Segurança, que prestou a informação ao Na Mira do Crime, naquele dia, o 2º Comandante Pedro Januário Pedro, trajando roupa civil, foi ao hospital para visitar um colega hospitalizado naquela unidade, o comandante municipal do Seles, fora da hora normal de visitas.
Como o pessoal da segurança é orientado a obedecer estritamente aos horários estabelecidos pela unidade hospitalar para os diversos serviços, incluindo o de visitas, o segurança Kassoneca João Necas, que não terá reconhecido a pessoa trajando a civil que pretendia entrar no hospital fora do horário, como sendo o 2º Comandante provincial da Polícia Nacional, impediu a sua entrada.
Apesar dos argumentos proferidos por Pedro Januário, o segurança manteve a sua posição e não permitiu que entrasse.
Armando Caetano explica que, insatisfeito, o 2º Comandante foi à sua casa, fardou-se, foi à unidade e acompanhado por um patrulheiro, voltou ao hospital e mandou prender Kassoneka João Necas.
O segurança permaneceu detido de sexta-feira, 26 de Maio, até segunda-feira (29), ao fim da manhã, quando ele, na qualidade de director local da empresa, estava a fazer demarches no sentido de conhecer a causa real da sua detenção o encontrou desfalecido na cela com sinais de espancamento.
O director provincial da empresa “Segu Service” conta que ao contactar o oficial do Serviço de Investigação Criminal (SIC) em piquete na unidade, soube que não havia nada escrito, e aquele lhe respondeu que o segurança estava detido por “ordens superiores” do 2º Comandante provincial.
Igualmente, contactou o comandante municipal do Sumbe e também reiterou que o elemento estava detido por ordens do 2º Comandante e só ele poderia explicar o motivo da sua detenção, mas que já havia sido orientado para o libertar.
Ante o estado crítico em que se encontrava, evidenciando um brutal espancamento, Kassoneca foi encaminhado para o hospital por volta das 14 horas de segunda-feira, 29 de Maio, acabando por falecer ao anoitecer de quinta-feira, dia 01 de Junho.
O director provincial da empresa de Segurança “Segu Service” no Cuanza Sul, Armando Caetano, lamenta o infausto acontecimento e apela a quem de direito para que se faça justiça, e atitudes arbitrárias e de abuso de autoridade como esta que levou à morte um cidadão, chefe de família, cessem.
“Ninguém foi espancado, isso é mentira!”, defende-se 2º Comandante
Em busca do contraditório, o Na Mira do Crime contactou via telefone, por volta das 12 horas desta sexta-feira (02), o 2º Comandante provincial da Polícia Nacional na província do Cuanza Sul, Pedro Januário Pedro, para saber a sua versão dos factos.
O oficial, que disse estar em Luanda, nega tudo e apresenta outra versão, afirmando que ninguém espancou o segurança, nem quando da detenção, nem durante a sua permanência na cela.
Como disse, naquela sexta-feira, 26 de Maio, foi de facto ao hospital “17 de Setembro”, para visitar alguém internado.
Estava devidamente fardado e fazia-se acompanhar de um médico da corporação e subordinados.
Ao chegar em frente à unidade hospitalar, deparou-se com um cenário deveras desagradável, em meio a algazarra e venda de produtos vários, causada por familiares de pessoas ali internadas e que “acampam” defronte do hospital, com anuência dos seguranças em serviço, que até guardam no interior do recinto hospitalar os produtos que são vendidos ali.
Diante de tal cenário, “como também é incumbência da Polícia Nacional controlar e orientar esses elementos da segurança privada”, disse, de imediato chamou três elementos que estavam em serviço e orientou-os no sentido de que afastassem as pessoas da entrada e pusessem uma certa ordem.
Os seguranças acataram a ordem e enquanto iam tentando ordenar a situação, um outro elemento da mesma empresa, que se encontrava numa janela, uma espécie de guarita onde estava de guarda, começou a proferir injúrias contra si, faltando ao respeito, mesmo vendo de quem se tratava.
“Não tinha como enganar-se, eu estava fardado, visível e não tinha como não ver que era o Sub-comissário e 2º Comandante da Polícia que estava ali”, elucidou.
“O indivíduo foi extremamente desrespeitoso, mesmo depois de lhe chamarmos a atenção, não se importou e continuou com as injúrias, faltando-me respeito diante de todos e dos meus subordinados, até parecia um indivíduo desequilibrado”, alegou.
Pedro Januário disse ainda que o cenário de desordem e vandalismo diante do hospital provincial no Sumbe é uma situação que já vem de trás e a direcção do hospital já rescindiu contratos com várias empresas de segurança, por não saberem fazer devidamente o seu trabalho.
“Ao que parece, esta que só está há três meses, como disse o próprio director do hospital, também é a mesma coisa e poderá ter o contrato rescindido. Aliás, quando o segurança estava a faltar-me respeito e a injuriar, estava presente um supervisor da mesma empresa e chamei-lhe atenção para a atitude do segurança e perguntei-lhe o que é que ele supervisionava afinal ao ver aquela atitude do seu colega”, assinalou.
O oficial disse então que ligou para o comandante municipal para que enviasse um patrulheiro e, quando chegou, detiveram o homem e levaram-no para a unidade.
“Mas ninguém lhe tocou, não houve nenhum espancamento, nem no patrulheiro, nem na cela, que aliás continha outros prisioneiros. Ninguém o espancou e na segunda-feira orientei para que o soltassem, apenas isso”.
Em jeito de conclusão disse que teve conhecimento de que o homem falecera na manhã de sexta-feira (02), em Luanda, e, ao que sabia, pelo que lhe foi informado pelo director do hospital, o indivíduo morreu de AVC.
“Contactem os vossos colaboradores no Sumbe, contactem o comandante municipal e o director do hospital. Ninguém espancou ninguém. Ele morreu de AVC, talvez já não estivesse bem, porque denotou uma atitude muito estranha quando me injuriava”.








