Investigação Na Mira do Crime descobre seita onde pastores mantêm fiéis em cárcere-privado, violam crianças e enterram-nas sem documentação do Estado
Sob olhar impávido das autoridades, dois irmãos identificados como “Avó Moisés” e “avó Moxico”, supostos pastores de uma seita religiosa de nome “Igreja Rio Jordão” localizada no bairro dos Mulenvos de Baixo, município de Cacuaco, têm cometido várias atrocidades contra os fiéis que cultuam naquele espaço.
Por: Kihunga Bessa
Na manhã de sábado, 10, uma equipa do Jornal Na Mira do Crime, depois de receber a denúncia, ouviu vários fiéis da denominada agremiação religiosa, descrevendo várias atrocidades praticadas num quintal onde para além dos cultos, há a venda de liamba e gás butano.
Para começar, encontramos o local numa zona clandestina, as paredes da seita, sem letreiros, dá a impressão que não há nenhuma actividade no interior. No entanto, é naquele espaço onde crianças são remetidas ao cárcere privado, são violadas, chicoteadas e, quando perecem são enterradas em locais desconhecidos.
Revoltados pelas práticas desumanas a que são submetidos, cerca de 30 fiéis recorreram ao Na Mira do Crime na manhã de sábado, 10, para denunciar as práticas criminosas, protagonizadas pelos supostos pastores, que são também os donos da referida seita.
No interior do quintal, encontramos mais de 20 crianças “cativas”.
Zéca Alberto Filipe, um dos crentes, conta que pertencia a seita Rio Jordão, por intermédio da sua mãe que aí fazia tratamentos, no entanto, diz que ao longo do tempo que aí permaneceu via coisas estranhas.
“Um certo dia, do nada, o pastor acusou a minha esposa e alguns membros da minha família de serem feiticeiros, de seguida obrigou que me separasse da minha mulher, caso contrário estaria morto”, explicou, acrescentando que, não teve outra opção, senão separar-se da mulher, e cada um ficou a cuidar de um dos filhos.
Zéca, conta que seguida o pastor Moxico acusou os seus progenitores de serem o motivo da sua desgraça, e para que esta mesma desgraça não chegasse aos seus filhos, tinha que deixar as crianças na igreja.
“Só mais tarde percebi que o próprio pastor usa magias contra as crianças, eles matam as crianças e depois acusam os pais, o mais agrave é que são eles mesmos que tratam da documentação do funeral, enterram as crianças sem consentimento da família e documentação do Estado”, acusou.
Delmira Baptista diz que professa a mesma seita há mais de 15 anos, explicou que no mês de Dezembro de 2022, foi acusada de feiticeira, e com chicotes foi obrigada a mostrar onde estava o feitiço.
“Eles agridem os fiéis durante as suas cerimónias”, admirou, ressaltando que, durante o tratamento do “feitiço”, os pastores mantiveram-na sob cárcere juntamente com os seus cinco filhos com as idades entre 14 e 3 anos de idade.
“Fui obrigada a jejuar durante duas semanas, fiquei duas semanas sem comer porque eles diziam que era para desfazer o feitiço”, lamentou.
Delmira conta que depois de duas semanas em jejum, foi expulsa da igreja e obrigada a deixar os 4 filhos sob cuidado dos pastores.
Facto é que no último domingo, 04, morreu um dos seus filhos que estava na referida igreja, e foi enterrado na terça-feira, 06, sem o consentimento da família.
“Não sei onde enterram o meu filho, tudo porque fui impedida pelos pastores de participar do óbito, porque eles me acusam de ter matado o meu próprio filho”, chorou.
Filhos resgatados à força pela família
Delmira explica que, depois de tomar conhecimento da morte do filho, sem saber as causas e onde foi sepultado, recorreu à sua família para ´libertar as outras crianças’.
“A liberdade dos meus filhos só foi possível por causa da minha família que foi obrigada a usar a força para entrar na igreja”, recordou, alertando que, o mais preocupante é que os pastores fazem das menores suas mulheres.
Quem também falou para o jornal NA MIRA DO CRIME é Suzana Manuel, de acordo com a nossa entrevistada, os pastores acima citados terão acusado o seu pai de “bruxaria”, tendo o separado dos próprios filhos.
Criança de 2 e 6 meses abrigadas a jejuar
Suzana, que também foi membro da referida seita, diz que quando engravidou e teve os seus dois filhos, também foi acusada de feitiçaria e obrigada a internar para jejuar durante quatro dias.
“Fiquei sem comer nem beber junto dos seus filhos de dois e seis meses, que não aguentando, eles próprios, pastores, orientaram que se fizesse uma comida “mal feita” para as crianças”. No final do jejum, conta, também foi expulsa e obrigado a deixar os meninos na igreja.
"Quando nos acusam de feitiçaria nos batem com vara e nos obrigam a mostrar o feitiço que nem sabemos o que é ou onde está", revelou.
Os fiéis dizem que não conseguem abandonar a seita por medo de encarnarem os males que os pastores ameaçam.
Polícia sabe, mas não nada faz
Os crentes dizem o caso é do conhecimento doa agentes da polícia da “Esquadra das Quinhentas Casas”, porém, sempre que se faça uma queixa e há detenção, por causa de dinheiro os prevaricadores são soltos como se nada tivesse acontecido.
Comandante conivente?
Como exemplo, apontam o caso que aconteceu na terça-feira, 06, depois do enterro do filho de Delmira, os familiares acorreram até a esquadra em questão para denunciar os pastores. No entanto, contam, o comandante da referida unidade de polícia orientou Delmira a se reconciliar com o esposo, que está do lado dos pastores, e obrigou-lhes a fazer fotos como se estivesse tudo bem.
Revoltados, pedem a intervenção urgente do Ministérios da Acção Social, Família e Promoção da Mulher, do Instituto Nacional da Criança, da Polícia Nacional e do Serviço de Investigação Criminal para o resgate das crianças.








