Pandemónio na Morgue Central: Desde o maqueiro ao homem do SIC, todos mixam na desgraça alheia
A Morgue Central de Luanda mostra-se insuficiente para albergar a demanda de corpos que ali chegam diariamente, constituindo um sério problema de saúde pública e transtornos para os cidadãos.
Por: Matias Miguel
A situação da Morgue Central é deveras melindrosa. Só para se ter uma ideia, dois contentores de 40 pés, improvisados, com 4 extensas prateleiras de cada lado, estão completamente abarrotadas, havendo ainda vários corpos no chão a tomarem já o tom de putrefacção, exalando um cheiro nauseabundo.
Tal é o cenário a que estão sujeitos os nossos ente-queridos que são ali depositados aguardando os procedimentos para serem dignamente sepultados, bem como os maqueiros, funcionários de limpeza e os familiares que recorrem aquela morgue.
No caso Euclides José Paulo “Da Nike”, moto-taxista arrancado da Placa e morto duas horas depois no município do Cazenga, o Na Mira do Crime que segue o caso ‘milimetricamente´, apurou quão difícil é sepultar uma pessoa em Angola, em particular em Luanda.
Narrando a história toda: Ao depositar ou identificar um corpo na morgue, preenche-se um formulário contra o pagamento de dois mil e quinhentos Kwanzas por dia, depois de ter a guia de recepção em posse, para retirar o corpo da câmara em que estiver, os maqueiros cobram de cinco mil a sete mil Kwanzas.
Assim é permitido transferir o corpo para um outro contentor apelidado por “gavetas”, o que não muda absolutamente nada.
Caso se tenha enganado ao reconhecer o corpo, o pagamento é a dobrar. Com a guia de depósito, no dia seguinte, de preferência às 03 horas da madrugada, deve-se comparecer porque o atendimento é por ordem de chegada (vamos falar disso mais adiante), os maqueiros incumbidos de retirar os corpos das “gavetas” cobram sete mil Kwanzas para depositarem na pedra, a fim de ser autopsiado.
Caso o seu ente-querido, tenha furos de bala no corpo, para soturar tem que se pagar dois mil Kwanzas por cada furo; a certidão de óbito custa cinco mil Kwanzas.
Na recepção dos corpos de madrugada, o Na Mira do Crime, no desafio que se impôs, escalou a Morgue Central às 03 horas da madrugada de sexta-feira (04).
De princípio aquilo parecia que estava-se perante o frenesim que se assiste na praia da Mabunda para aquisição de peixe; é muita gente num “salve-se quem poder”, para retirar o corpo das “gavetas”.
Os maqueiros (feitos reis com o peixe na barriga) de um lado, e os familiares, resignados pelos valores a pagar corriam atrás deles.
Sinceramente, aquilo que se assistiu ali é uma autêntica balbúrdia, pior que a “feira da ladra”!
Todos integrantes na assistência de cadáveres são coniventes. Desde os maqueiros que dão a cara à equipa do SIC e os ditos “médicos”; também existe o esquema, que consiste no amiguismo, ou seja, quem tiver um amigo ou familiar entre os funcionários, é-lhe reservado o direito de ser atendido em primeiro lugar.
Maqueiros e efectivos do SIC facturam
O Na Mira do Crime sabe que o fenómeno “gasosa”, nas morgues do país, não é novidade.
Todos os hospitais funcionam da mesma forma; o depósito de um corpo numa morgue em Angola, e em particular em Luanda, para além do pagamento dos serviços administrativos, ainda tem que se desembolsar valores extras, acima do estabelecido, para os maqueiros e os demais.
A nossa equipa, disfarçadamente, indagou a equipa do SIC em serviço dando-lhe a conhecer a ilicitude praticada pelos maqueiros.
Para espanto dos repórteres, o mesmo respondeu: “eu não tenho nada a ver com isso”!
Para retirar o corpo da viatura e colocá-lo nas gavetas, os funcionários em serviço para esse fim, alegam sempre não terem pessoal (maqueiros) para o fazer, apesar de os estatutos dos enfermeiros/maqueiros referir que “na ausência do maqueiro o enfermeiro deve assumir o serviço”, só para dar uma ajudinha.
Enterrar pode ficar entre AKz 400 mil e um milhão
Em jeito de conclusão, para enterrar um defunto em Luanda, os custos rondam entre quatrocentos mil e um milhão de Kwanzas, de acordo com os desejos e as limitações de cada família, apurou o Na Mira do Crime.
Encargos administrativos: morgue e guia de depósito Kz 5 mil; certidão Kz 5 mil; conservação Kz 2,500 por dia, Kz 14 mil retirar das “gavetas” e levar para a pedra; Kz 10 mil.
Para tapar furos de balas 2 mil/por cada furo, no mínimo; escavação do buraco varia de 10 a 15 mil Kz.
O total fica entre 51 e 75 mil Kz. A urna, alimentação a seu gosto e possibilidades, pode rondar dos Kz duzentos mil para famílias humildes a um milhão para gente da classe média. É caso para dizer: “Quo vadis Angola”?








