Caso Boica: Irmãos dizem que o Polícia foi alvejado pelas costas, mulher aponta o dedo acusador aos colegas
O caso do polícia Ventura Manuel Vieira “Boica”, de 31 anos de idade, casado há 10 anos com Luzia Castro Vieira, pai de cinco filhos, tem novos contornos. Este jornal ouviu familiares do malogrado nesta sexta-feira, 22, dia da autópsia, e as evidências, segundo os entrevistados, ilibam o marginal “Quim Preto” e colocam os colegas da vítima na mira do crime
Por: Isaac dos Anjos e Ngunza Chipenda
Na manhã desta sexta-feira, 22, escalamos a 17ª Esquadra, situada no município do Cazenga para saber onde estava localizado o óbito do efectivo da Polícia assassinado em dia trabalho com dois tiros no peito, numa suposta missão que visava capturar o marginal “Quim Preto”, e ninguém aceitou indicar o local do óbito, aliás, já lá estávamos um dia antes e ninguém se prontificou a dar uma explicação do sucedido, nem indicar o local onde a família estava reunida.
Após uma investigação breve, localizamos a casa dos familiares de Boica, no município de Viana, arredores do bairro Seis.
Aí, encontramos a esposa do malogrado, visivelmente abatida, e depois de umas breves palavras, pediu que aguardássemos os responsáveis da família, que estavam na Morgue Central de Luanda a tratar da autópsia.
Depois de algumas horas, chegou o irmão de Boica, Roque, a lamentar o que viu e ouviu do passamento físico do efectivo.
“É lamentável o que eu vi ouvi sobre a morte do meu irmão… ser polícia é assim? só se valoriza quando estamos em vida?, porque desde que o meu irmão morreu, nenhum polícia apareceu nem na casa do óbito, nem na Morgue Central para ver o corpo do colega, e mais, só depois da autópsia é que conseguimos colocar o corpo do nosso irmão num local mais digno de conservação, ele estava em serviço, então pergunto, onde está o corpo da polícia que cuida disso?”, questionou.
Segundo o irmão, os próprios efectivos do SIC que levaram o corpo do Boica até a morgue, nunca aparecem.
“Já basta a volta que o Comandante Dino, da Esquadra onde trabalhava o meu irmão está a dar, desde que chegamos para se inteirar da morte do nosso irmão”, disse.
Segundo o nosso entrevistado, as provas que os especialistas apresentaram mostraram que o polícia não foi assassinado por um bandido, “supostamente houve um sequestro, e pelo batimento da cabeça e o golpe de faca que o meu irmão sofreu, apontam outra coisa”.
Roque acredita que há mais coisas por se explicar na morte do polícia pois, mesmo antes da família tomar contacto com o corpo, “os médicos já tinham mexido no cadáver, é um erro, só podiam mexer com acompanhamento da família”, observou.
Osvaldo Boica, outro irmão do malogrado, diz que a família está enlutada e não há consolo que os possa abraçar, contudo, lamenta a forma como o comandante do malogrado está a tratar o caso.
“Depois de tomar conhecimento que o meu irmão tinha sido alvejado, isso já por volta das 10horas, fui até a esquadra onde ele trabalhava e, quando cheguei junto do Comandante, perguntei como isso aconteceu? Ele olhou-me nos olhos, procurando palavras para justificar, e disse que delegou uma operação sobre um telefonema que haviam recebido de meliantes que queriam assaltar uma cantina”.
Osvaldo conta que o comandante explicou que a operação foi um sucesso, detiveram os meliantes e apreenderam duas armas, e quando regressavam para a unidade, receberam um outro telefonema a dizer que alguém conhecia a casa do mentor do assalto, então a equipa foi para lá.
“No local, segundo o comandante, o Chefe Boica (malogrado) foi pela parte de trás enquanto os outros estavam na parte de frente, deram o primeiro bico, segundo e no terceiro conseguiram arrombar a porta, mais algo chamou-me a atenção”, reflectiu, “se é uma equipa, quantos foram? e com quem o meu irmão estava na parte traseira?”, indagou-se.
De acordo com o irmão do malogrado, o comandante respondeu que o Chefe Boica não estava sozinho no lado de trás da casa.
“Perguntei saber a que horas isso aconteceu, primeiro disse que esperaram clarear, depois começou a se contradizer, dizendo que era de madrugada, e quando os colegas entraram na casa do meliante, apenas ouviram tiros no lado de fora, e quando saíram viram o Boica a se arrastar nas paredes a dizer fui alvejado, o que me chama atenção é que, sendo uma equipa, por que não foram direito no local onde saía os tiros?”, questionou.
“Segundo a informação que vem do comandante, quando o Boica foi alvejado, as senhoras do bairro já estavam a chorar, perguntamos qual bairro, só disse Terra Vermelha, se contradizendo outra vez”.
O familiar diz ainda que quando chegou a esquadra, lhe foi entregue a carteira e o telefone do irmão, “como sei a palavra passe, fui verificando o telefone, e vi que as mensagens de áudio foram todas apagadas, as normais, algumas foram eliminadas, incluindo o histórico todo de mensagens, eu queria saber quem foi a última pessoa a ligar para o meu irmão para ter alguma prova, mais tudo foi eliminado, e eu sei que o telefone do meu irmão tem um gravador de chamada”, disse.
Ninguém apareceu na casa do óbito
De acordo com a família, desde quarta-feira, 20, que o Vieira morreu, nenhum efectivo da Polícia apareceu na casa do óbito. (pelo menos até ontem, sexta-feira, 22)
“E hoje (ontem) dia da autópsia, quando chegamos a morgue, sem nos identificarmos, o homem do SIC depois de perceber que éramos família do polícia, começou a ter um comportamento estranho, primeiro disseram que eu não podia ficar a assistir a autópsia, mas eu disse que era irmão, e vivo ou morto ia ficar presente, porque já vi coisas piores”.
Segundo o irmão, os médicos não se importavam com a parte esquerda da vítima, onde havia levado um tiro no peito e no ombro, mexiam mais no lado direito, quando o homem do SIC falou qualquer coisa no ouvido do médico, notou que as duas munições que retiram do peito e do ombro do seu irmão saíram da parte de trás.
De acordo com o nosso entrevistado, em conversa mantida com o médico, este afirmou que o seu irmão havia sido sim assassinado, “foi possivelmente um rapto, ele tentou lutar e foi esfaqueado, e também houve tiroteios, o próprio médico tentou ocultar informações, então pedi para fecharem o corpo do meu irmão para sairmos da sala, porque já estava a ficar irritado com a informação, queriam tirar-me da sala sem fechar o corpo do meu irmão, mas não aceitei até lhe colocarem na caixa onde ele deveria estar”, lamentou.
A família lembra que o malogrado era bem conhecido e recebido no bairro Antenov onde trabalhava, “não havia quem não falava bem dele no Cazenga, todos elogiavam o trabalho dele, não é por ser meu irmão, há provas e serão mostradas dentro em breve, eu só quero que o comandante nos mostra a equipa que estava com o meu irmão no dia da morte dele, porque foi ele quem delegou a suposta operação, ele tem que justificar o que aconteceu, aonde estão esses homens, pertencem a que unidade, por que não saíram com carros da patrulha e sim com carros eléctricos”, exigiu.
Luzia Cardos de Castro Viera, esposa do malogrado, lembra que um dia antes do infortúnio recebeu uma ligação do marido, a dizer que estava com calafrios, mau pressentimento e dor de cabeça.
“Eu disse para voltar para casa, para cuidarmos disso, às 19 horas liguei a perguntar porquê não voltou, ele disse que já estava mais ou menos, apenas doía a cabeça, mais deveria ser do sono”.
Conta que o marido segredou que os homens do SIC haviam lhe pedido para fazer um trabalho de madrugada, mas que da manhã muito cedo estaria em casa.
“Já não voltamos a falar, até que na quarta-feira, às 10 horas, recebi a chamada de um agente de primeira, chamado Palito, a informar que o meu marido morreu em missão de serviço, tinha apanhado um tiro e estava a ser removido”, chorou, acrescentando que, entrou em choque.
“O mesmo polícia enviou-me o número do comandante da esquadra onde trabalha o meu marido, atenção que quem ligou para mim é um agente da esquadra do Malueka, e o meu marido era da esquadra do Cazenga, até hoje, eu como esposa, o comandante do Cazenga não me disse absolutamente nada, então esperei em casa a chorar”.
Segundo a esposa, no mesmo dia rumaram até a 17ª Esquadra para falar com o comandante “Dino”.
“Quando lá chegamos o comandante disse apenas que tínhamos que ir ao SIC-Cazenga para nos darem informação, insatisfeita e chateada, fomos até o comando do Cazenga, onde fomos recebidos pelo OSA, que nos disse que o comandante Dino só nos mandou aí para receber alimentação para o óbito”.
Daí, conta, rumaram até ao Comando Provincial, onde foram bem recebidos.
“Notificaram o comandante do Cazenga que apareceu lá e foi ouvido, eu tive o privilégio de fazer perguntas ao mesmo, a informação que rola nas redes sociais é que o meu marido levou um tiro, foi levado a Somague, de lá para o hospital dos Cajueiros onde sucumbiu, ele não tem nenhum documento da Somague, não tem nenhum documento dos Cajueiros, disse que vai entregar, mas ele também não sabe dizer o que aconteceu com o seu próprio agente, perguntei se teve contacto com corpo do meu marido e ele respondeu que sim, perguntei quantos tiros apanhou? Disse dois, provavelmente três, e mais umas arranhaduras que o meu cunhado lhe mostrou, eu lhe disse que são três tiros, e uma facada na região entre pescoço e cabeça”, explicou.
De acordo com a esposa, os polícias que estavam com o seu marido ainda não foram ouvidos, “o que sabemos é que, na operação, onde estavam quatro efectivos do SIC, o meu marido era o único ordem pública, o admirável é que nenhum deles sofreu algum arranhão, apenas o meu marido foi morto, e hoje, na perícia que se faz, está a provar outra coisa, e sem medo de errar, e podem me prender, sei que o meu marido foi assassinado, eu quero justiça”, pediu.
Os familiares dizem que a autópsia mostra que o polícia antes de ser alvejado foi espancado, e houve inclusive o uso de objecto contundente.
“Presumimos que os tiros terão sido efectuados depois dele estar morto, ninguém diz com precisão onde isso exactamente aconteceu, se na rua ou num beco… e estamos a ver a rapidez como estão a nos despachar, dizem apenas que já estão a ver isso”, lamentaram.
Vale recordar que o malogrado deixa viúva e cinco filhos, e vai a enterrar neste domingo, 24.








