Comem fuba com larvas - Trabalhadores angolanos passam mal nas obras da futura Cidade do Século
A adjudicação de parte da parcela da Zona Económica Especial Luanda-Bengo (ZEE) ao consórcio chinês e aos vários subempreiteiros que estão a construir a Cidade do Século, na Avenida Fidel de Castro, mostra tão somente a forma como são espezinhadas as empresas angolanas, quando concorrem com as estrangeiras. O pior é que as empresas chinesas que ganham essas obras maltratam a mão-de-obra angolana, sob o olhar impávido das autoridades.
Por: Kiamukula Kanuma
Este jornal foi aos meandros do que se passa nas obras da futura Cidade do Século que, por sinal, é parte de Luanda, para perceber melhor, importa referir que os trabalhadores sedentos, na sua maioria, são provenientes das províncias do Lubango, Huambo e Benguela.
Nas empresas onde labutam, as condições de vida não são recomendáveis; falta assistência médica e medicamentosa, alimentação condigna, água potável, energia eléctrica e há muitos mosquitos nos estaleiros.
A fuba que consomem, além de ter larvas é malcheirosa. Joaquim Fernando trabalha como carpinteiro na empresa China Thor, e disse que foi recrutado na cidade do Lubango.
"O chinês foi lá nos buscar, em Maio, para trabalhar nesta obra, onde ganhamos mil Kwanzas por dia, ou seja, 30 mil por mês; se porventura faltares por algum motivo, como doença, és descontado esse dia, e se ficares mais de três dias doente és imediatamente despedido", relatou.
Encontramos Joaquim Afonso deitado num dos contentores que servem de dormitórios.
As camas são estruturas de ferro montado em contraplacados para dar mais altura, porque no tempo chuvoso tudo fica inundado.
"Estou há três dias com febre forte, mas sem qualquer assistência médica, tenho medo de perder o emprego se até amanhã não me levantar; serei descontado, e se reclamar o chinês vai correr comigo", revelou.
Manuel António disse que o patrão prefere trabalhadores das províncias do interior, pois os de Luanda, em seu entender, são muito complicados.
"Somos qualquer coisa como 200 trabalhadores vindos da Huíla e Huambo, maioritária empregues na área de marcenaria e carpintaria", precisou.
Todos lamentam as condições em que estão alojados. "Dormimos no contentor, faça calor ou faça frio", atestou, salientando que os outros improvisaram barracas de chapas.
A situação da alimentação é outro problema. "O patrão chinês dá-nos arroz, feijão e fuba de milho, esta em estado avançado de deterioração, pois já tem larvas. O feijão precisa de 07 horas de cozedura. Os molhos para acompanhar o funge são da nossa conta e, com o pouco dinheiro que ganhamos, é um calvário", queixou-se António, que lamenta também o facto de estarem a tomar banho com água retirada de um charco.
Trabalhadores eventuais Outros
Trabalhadores contactados pela nossa reportagem dizem ser eventuais.
"Ganhamos dois mil por dia, entramos às 06 horas e 30 e saímos às 17 horas e 30; temos 02 horas para descanso, onde aproveitamos comer alguma coisa", contam, sublinhando que não estabeleceram contratos escritos, “apenas chegaram ai e inscreveram-se", disse Jones Antunes, para quem o país está mal, é a razão de estarem aí a remediar, para não roubar e ser queimado ou parar nas cadeias.
De salientar que o trabalhador eventual é de Luanda, come nas barracas montadas próximo do local do emprego, ao preço de 600 Kwanzas.
Mais o táxi e água para beber, dos dois mil Kwanzas fica com algo insignificante.
Diante dessas dificuldades, clamam a presença de Instituições fiscalizadoras.
"Nós também somos angolanos, logo o governo não devia nos abandonar a Deus dará, mesmo sendo trabalhadores eventuais, não podemos ser escravizados; precisamos de alguma dignidade", reclamam.
Há um mês, contam, um colega caiu dos andaimes para um ferro pontiagudo que cortou parte dos seus testículos, e o patrão não quis assumir o tratamento.
Tiveram que recorrer à polícia que o obrigou a assumir os custos da cura.
De lá para cá, ninguém sabe mais nada sobre o colega.
Este jornal sabe que o pessoal desalojado destas áreas onde se constrói a Cidade do Século aguardam por uma indemnização há seis meses, no quintal de uma Igreja no bairro Muxima Moxi.
Algumas famílias continuam nos seus terrenos suportando a poeira que já está a provocar muita "tosse de sangue".








