Muitos anos de criminalidade: Na Mira do Crime entrevista “Yuri Godé”, Líder dos Cazenga Squad que há muitos anos atormentaram a cidade de Luanda
O município do Cazenga, em Luanda, já foi tido como um dos municípios com um nível acentuado de grupos de marginais bastantes perigosos. Com o passar do tempo, alguns grupos mais temidos foram desaparecendo, uns por morte dos líderes e seus integrantes, e outros por terem largado os actos criminais. Este jornal manteve uma conversa com Yuri Godé, líder dos 'Cazenga Squad', um dos grupos de bandidos mais temidos que o Cazenga já teve.
Por: Alfredo dos Santos Talamaku
NMC - Yuri Godé, sabemos que continua a ser o líder dos 'Cazenga Squad', um dos grupos de marginais tidos recentemente como dos mais perigosos que o Cazenga já conheceu. Como foi que o grupo Cazenga Squad surgiu?
Yuri Godé - O grupo Cazenga Squad não foi uma flor que se cheira, foi mesmo um grupo criado para vandalismo, roubos e assaltos, ou seja, um grupo de bandidos. Felizmente agora está virado para boas iniciativas. Foi um grupo muito perigoso. Surge no momento em que cada grupo era criado para proteger os bairros, mas este foi criado mesmo para o vandalismo. Não sou o proprietário do grupo, mas me tornei o dono.
NMC – Por quantos elementos o grupo era composto?
Yuri Godé - Não faço ideia de quantos éramos. O grupo estava expandido em toda Luanda, com representantes em todos os municípios. Cada representante dos elementos apresentava o relatório das acções realizadas semanalmente.
NMC - O grupo actuava apenas em Luanda?
Yuri Godé - Claro que sim. Actuávamos apenas em Luanda, mas em todos os municípios.
NMC - Qual foi a acção criminal que mais o marcou em todo o teu percurso como marginal?
Yuri Godé - São tantas acções que me marcaram. Eu não tinha o controlo onde e como os nossos elementos actuavam, éramos muitos. Alguns apareciam nas reuniões a dizer que também eram dos Cazenga Squad, e nos só registávamos; mas posso dizer que actuávamos mais em assaltos em residências e na via pública.
NMC- Quem convocava as reuniões?
Yuri Godé - Era convocada pelo chefe Kimbi, que no princípio era o líder, actualmente eu sou o líder. O grupo foi criado para bandidagem, mas graças à Deus, eu apareço para unir o útil e o agradável. Juntei-me ao Paiza King e o Betão, e formamos um grupo musical. Saímos do grupo de bandidagem e decidimos apenas fazer música. Os que ficaram deram continuidade ao seu trabalho, e quando eu tentava dar um conselho, diziam: cota não te metas no nosso trabalho, o vosso trabalho é aí e o nosso é aqui. Então eu respeitava aquele lado; muitos deles já não fazem parte do mundo dos vivos.
NMC - Quando é que foi criado o grupo?
Yuri Godé - Praticamente o grupo surgiu entre os anos 1999 e 2000.
NMC - Mas o grupo, como salientou no princípio, foi criado para vandalismo. Como é que saíram do Crime para a música?
Yuri Godé - Eu sou da Comissão, o grupo Cazenga Squad foi formado no Tunga. Eu entro no grupo para dar ânimo, e entramos para a música no ano de 2001. Sou produtor e escrevo músicas, vi que os miúdos tinham talento, fui persistindo com eles até dar certo. Eu também era de vandalismo, mas foi a música que me tirou do mundo do crime.
NMC- Mesmo no mundo da música continuavam a cometer crimes?
Yuri Godé – Não, já estávamos separados dos que cometiam. Eu levei alguns e os outros ficaram. Notamos que éramos bons e estávamos a elevar o nome do nosso município do Cazenga com a música, então tínhamos que parar de cometer os crimes.
NMC- Qual foi a acção criminal em que verdadeiramente correste risco de vida?
Yuri Godé - Várias... várias… corri risco de vida em vários assaltos, em todos os momentos...
NMC- Alguma vez foste apanhado pela população durante um assalto?
Yuri Godé - Nunca. Apenas me pinavam (detinham) no cubico (casa). O que eu fazia não dava estrilho (problemas), sei comer muito bem e limpar a boca; mas quem fosse apanhado no terreno larava (denunciava), que o Godé também estava no mambo.
NMC - Há quanto tempo o Yuri Godé está fora do Crime?
Yuri Godé - Larguei o crime em 2008, quando saí da cadeia de Calomboloca; foi a cadeia que me fez mudar de consciência. Calomboloca é uma cadeia dura, muito difícil. Estive preso lá durante três anos e alguns meses. Vi muita coisa, foi lá onde mataram os meus boys (amigos), tentaram simular arrogância, e para fugir da back (cadeia), um dos meus amigos dos HDA, que neste momento não me recordo o nome, lhe estenderam (mataram) naquela cadeia. Tentou fazer rebelião para fugir, mas acertaram no camarada; essa parte me tocou muito, então decidi largar o crime e largar a vida errada que eu estava a seguir.
NMC - Já foi alguma vez alvejado com arma de fogo?
Yuri Godé - Várias vezes...na cabeça, na perna e nas costas…
NMC- Em que região da cabeça?
Yuri Godé - Aqui atrás, na nuca... se eu virar consegues ver a cicatriz.
NMC - Quem fez os disparos?
Yuri Godé - Quando fui atingido na cabeça, saíamos de uma festa, e nos deparamos com a polícia. Foram elementos da polícia quem fizeram os disparos.
NMC- Tinhas algum segredo para que a bala não entrasse no corpo?
Yuri Godé - A bala entrou, só que bateu na parede e veio sem pressão. Até neste momento tenho a bala guardada, foi retirada no hospital.
NMC - Onde é que aconteceu tudo isso?
Yuri Godé - Aconteceu em 2006, no beco da rua 10, é um beco prolongado que começa da rua 10 até à rua 13 do Tunga. Eram 22 horas, vínhamos de uma festa na casa da tia do Betão King. Na altura, ainda roubávamos, mas não saíamos de um roubo ou assalto. Nos deparamos com a polícia, sabes que quem rouba, quando se depara com a polícia assusta. Tentamos correr e eles dispararam. Foram três disparos, um que me atingiu a cabeça e o outro atingiu à nádega de um dos meus amigos, o Zamba 1, até hoje está deficiente, actualmente vive na rua 2 do Tunga.
NMC- Quando é que os teus amigos, nomeadamente o Farofa, o Matacavalo e o Babipolícia tiveram influência nas lides criminais que mexeram com o município do Cazenga?
Yuri Godé - Para bem dizer, eu já lhes encontrei no grupo, também fui convidado pelo Guci, para tornar-me Cazenga Squad. Ele era do Cazenga, mas fazia parte do grupo Os Alameda Squad. Ele viu que eu era sábio e era bom de arte. Mais tarde me tornei o líder.
NMC- Falando em violência, quem era o mais violento do grupo?
Yuri Godé - Não consigo definir. Todos éramos violentos, todos queríamos demonstrar o que aprendíamos, só para mostrar bravura nas pessoas, podíamos até mesmo enforcar alguém ao vivo para mostrar que éramos maus, todo mundo queria aparecer.
NMC- Onde é que conseguiam às armas de fogo?
Yuri Godé – Tínhamos um sítio, chamávamos de cazerna, nos caminhos-de-ferro. Na altura havia muito lixo, e muitas armas apareciam ali. Sempre que a charrua aparecesse nós sempre estávamos lá presentes, às armas vinham mesmo do lixo. Quando o camião aparecesse para recolha do lixo, avisávamos para não tocar em certas partes, o homem já sabia que alguma coisa estava ali. Era um tempo em que o país estava desorientado e muitas armas apareciam no lixo.
NMC- Já tiveram confronto com a polícia em troca de tiros?
Yuri Godé - Sim... Não tínhamos noção da realidade. Pensávamos que eram filmes, na realidade eram mesmo balas reais, aquilo era guerra com a polícia. Estive nesta vida durante muito tempo, mas não vi nada de bom. Agora é que estou a pensar que temos que lutar de forma justa para alimentar as nossas famílias. Por isso aconselho os rapazes nesta vida a largarem, ali não tem nada, apenas é buscar a morte.
NMC- Boa parte dos teus amigos já não fazem parte do mundo dos vivos…
Yuri Godé - Quando falam dos meus amigos me deixam sem forças. Eu tive muitos, hoje em dia conto nos dedos os que ficaram. Este mundo do crime só acabou connosco.
NMC- O Degulungo foi um dos elementos mais temido no vosso grupo, pelos vistos também já não faz parte do mundo dos vivos, como foi que perdeu a vida?
Yuri Godé -Na verdade não sei... naquele momento me encontrava preso na Comarca Central de Luanda (CCL). Recebi a notícia na cadeia, mas eu tinha consciência de que fazíamos coisas não agradáveis, e um dia algo haveria de nos acontecer; não me assustei, mas de princípio perdi as forças. Dizem que ele foi apanhado num táxi, foi morto com uma injecção, e foram lhe deitar na rua 8. Na verdade ele era terrível, não tinha medo de enfrentar ninguém, ainda que fosse um general.
NMC- E os outros elementos do grupo?
Yuri Godé - O Babipolícia foi enforcado na rua 13 do Tunga. Até lhe fatigaram (danificaram) o órgão genital. O Farofa desapareceu misteriosamente, até agora não sei como explicar. O Betão King também desapareceu, foi levado pela polícia. Estava muito drogado e fez muita confusão com um dos vizinhos, que também era polícia. A confusão era grande, acudimos por muito tempo, mais tarde agredimos também o polícia. Saímos do local, mas sem nos apercebermos que ele tinha regressado para continuar com a confusão. Na altura, o senhor já era um dos chefes da polícia, chamou um patrulheiro e levaram o Betão, até agora ninguém sabe para onde o levaram. A vida é assim, quem faz o mal, o mal também o encontra. Mas o polícia já é também falecido, morreu de doença. Graças a Deus nunca lhe fizemos nada por vingança.
NMC- Quanto ao famoso Matacavalo onde é que se encontra?
Yuri Godé - Morreu de doença. Também já havia largado o crime, e estava na mesma linha comigo. Tornou-se gerente de um contentor congelador de peixe no mercado do Asa Branca. Era muito fixe, que Deus o tenha!
NMC-Depois de quase todos desaparecerem, como foi que o líder conseguiu sobreviver?
Yuri Godé - Mais do que tudo, dou graças a Deus! Quando estou em casa dobro os joelhos e agradeço, quando chego em casa volto a agradecer a Deus. Eu olho para trás e noto que o mundo do crime não favorece a ninguém; se não fossem eles, então teria sido eu a morrer. Digo que Deus é maravilhoso e tem um propósito para minha vida.
NMC- Os Cazengas Squad tinham grupos rivais, dentre eles Os Centenas, Os Granadas e outros. Actualmente, qual tem sido a reacção quando se depara na rua com um seu ex-inimigo?
Yuri Godé: É só alegria... eles até me admiram, dizem: líder, é sempre bom te ver, nunca pensamos que serias tu a estar aqui. Você só nos dá forças de viver. Por isso criaram placas de táxi e largamos o mundo do crime. Este país tem mais desempregados do que outra coisa. Com uma família já formada e não ter nada para comer é complicado, por vezes não passou na escola e nem tem pelo menos uma profissão. Quando não temos dinheiro é complicado, por isso muitos se tornam gangstar (bandido).
NMC- Como membro de um dos grupos criminais mais temidos que o Cazenga conheceu, na sua visão, o que deve a polícia fazer para ajudar os jovens a largar o crime?
Yuri Godé - A polícia tem que trabalhar muito. Por exemplo, ao interpelar alguém, deve ter uma conversa com o cidadã, e só depois é que deve fazer o seu trabalho. A polícia quando vai para rua não usa o que aprende na escola, mas tenho que agradecer pelo trabalho que têm feito, e têm que aconselhar mais a juventude.
NMC - Qual é o teu estado civil, vive maritalmente?
Yuri Godé - Vivo com esposa e filhos, por isso é que tenho batalhado na placa para o sustento da família. Muito antes de constituir família, já havia largado o crime, dei um basta, o crime não compensa. Por isso aconselho a juventude a não insistir em praticar o crime; que deixem, não há boa vida no crime e não leva a lado nenhum, apenas prejudica a família.
NMC- Depende apenas da placa de táxi para conseguir rendimento de sustento à família?
Yuri Gode - Trabalho na minha placa com os meus amigos, mas também faço alguns biscatos, porque entendo de pintura.
NMC - Chegou o momento de passar a tua experiência positiva para os mais novos. Tens algum projecto para ajudar os jovens a largar o mundo do crime?
Yuri Godé - Claro que tenho. O projecto denomina-se Delinquência Zero Fora das Ruas. Todos aqueles que queiram deixar a prática da criminalidade podem se juntar a nós, no Marco Histórico do Cazenga. Estamos lá a receber qualquer um, além de conselhos fornecemos também formação profissional.
NMC- Estar na cadeia não parece ser uma boa coisa, como foi a sua vida na cadeia?
Yuri Godé - Já passei em várias cadeias. Estive na Comarca Central de Luanda (CCL), depois estive também na cadeia de Viana, mais tarde na cadeia de Calomboloca. Passei mais tempo na cadeia de Viana. Foram praticamente seis anos do tempo que passei nas cadeias, a vida aí é dura e não aconselho a ninguém a ficar na cadeia. Por exemplo, vou lhe contar uma história que parece que não vais acreditar. Um amigo meu, do Rangel, já falecido, esteve comigo preso, mais tarde o pai dele também foi parar na mesma cadeia. Um dia, a mãe dele levou comida na cadeia, mas a comida gerou uma luta entre pai e filho. Ele dizia que a comida era dele porque foi a mãe dele que levou lá, e o pai dizia que a comida era dele porque foi a mulher dele que levou. Foi uma luta grande. Na cadeia acontecem coisas muito tristes, muitos são abusados sexualmente via anal só para ter alguma coisa para comer, na cadeia é onde o papá fica nené. Eu vi coisas tristes, acreditas que eu vi mais velhos carecas mas com piolhos…? Os piolhos ficam na boxa a sugar o sangue pelos órgãos genitais… Outra coisa menos boa são as lutas de grupos rivais, um problema que começou fora e pode ir acabar dentro da cadeia.
NMC- E quanto a alimentação interna?
Yuri Godé - A água da cadeia, mano, dá medo. Precisas ter espírito para beber. Só se come uma vez, e se na comida vai óleo, então não vai sal; e se vai sal, não vai óleo. O arroz você vê que é apenas com água, sem sal, nem óleo. Aquilo é para sentires que estás na cadeia e não é na tua casa.
NMC - Qual é tratamento dado aos doentes?
Yuri Godé - Por mim, o Calomboloca presta uma boa assistência médica aos doentes, até tem psicólogos, para ver se estás a bater bem da cabeça, o que não entendo… eles sabem que não te dão comida, e ainda te mandam psicólogo. Mas como é que a pessoa vai bater bem se não tens nada para comer? Por isso é que muitas pessoas saem dali bem loucos, e ainda acho que os malucos são mesmo eles que controlam as cadeias.. Então, te mandam um psicólogo e te dão comida sem sal, eles é que são malucos… (risos)
NMC- Quais são as tuas últimas considerações?
Yuri Godé - Quero deixar um conselho a todos os que insistem na prática do crime. O crime não compensa, este caminho só leva à desgraça. Ainda há tempo de mudar de vida. Sei agora que o tempo que perdi na vida, praticando o crime, teria sido para fazer outras coisas que hoje talvez podiam-me ajudar na vida. Tudo é possível, basta acreditar que podes. Todos os que pretendem sair, ou saíram do mundo do crime podem nos procurar para receber treinamento da vida, porque no crime você só espera entrar na cadeia ou perder a tua vida…
Att: A entrevista estará disponível nos nossos canais do Tik Tok e Youtube







