Há três casos de “raptos” por esclarecer: Comandante da PNA no Cuanza Norte garante que situação operativa na província é estável
Na Mira do Crime trabalhou durante alguns dias na província do Cuanza Norte, tendo destacado o município do Cazengo, propriamente na cidade de Ndalatando, onde a equipa de reportagem entrou no interior dos seus bairros e apurou que o índice de criminalidade tende a crescer, principalmente nas zonas fora do casco urbano, sobretudo nos bairros da Kipata, Kilamba, 11 de Novembro, Dom Bosco, Camungo, bairro Miradouro e Mesquitas, com a complexidade do acesso a muitos destes locais condicionar o desdobramento das forças.
Por: Osvaldo de Nascimento e Cambundo Caholua (CN)
No interior destes bairros, quem dita às regras em termos de delinquência são os grupos de rixas denominados "Os Fineiras", "Os Mil 100", "Os 300", "Os Tiras Pratos" e "Os Onças das Montanhas", que a qualquer hora do dia realizam lutas na via pública, assaltos em residências e na via pública, com recurso a armas brancas, colocando a vida dos munícipes em risco.
Cambambe é o segundo município considerado crítico e assolado por grupos de bandidos, e só perde pelo Cazengo, no entanto, as autoridades garantem ter tudo sob controlo e ‘debaixo dos olhos’.

Durante a nossa estadia, notamos a falta de cuidado por parte dos moto-taxistas, que na maior parte circulam pelo centro da cidade sem capacetes, e num total desrespeito pelos sinais de trânsito, colocando em risco a vida de transeuntes e passageiros.
Recentemente, durante uma operação da polícia para reordenar estes males, soube este jornal, os moto-taxistas uniram-se e manifestaram-se pela cidade, e nos dias seguintes recusavam transportar agentes da polícia.
No bairro Dom Bosco, contam os citadinos, os bandidos refugiam-se para lá por causa do cemitério, que a torna numa zona isolada.
“É aí onde os meios são divididos depois da realização de um assalto”, descobriram.
"Aqui no Dom Bosco, eles lutam com garrafas, pedras e catanas, ferem os inocentes, roubam na rua e fogem no cemitério", disse o senhor Justo, morador.

Procura-se “Caixa Baixa”, o mais temido da cidade
Este jornal apurou que um dos marginais mais temidos na cidade de Ndalatando é conhecido no mundo do crime como "Caixa Baixa", “sempre que é detido é posto de imediato em liberdade, devido as duas feridas que estão nas suas duas pernas, soltam-no devido o cheiro”, atirou um morador, acrescentando que isto dá a ele um ar de impunidade.
Desaparecimento de cidadãos preocupa moradores
Outra situação que preocupa a população, e que tem sido motivo de conversas na capital desta província nortenha, é o desaparecimento de três pessoas, que foram levadas por elementos ainda não identificados.
Uma das visadas é a menina Sílvia Domingos Francisco, de 10 anos de idade, residente na antiga rua do Comércio, que foi dada como desaparecida no dia 17 de Junho, depois de ter saído da escola.
A criança foi levada há mais de um mês em parte incerta, por elementos ainda não identificados, a família materna da menina aponta letargia à polícia, mas os homens da farda azul garantem que tudo fazem para esclarecer o caso.

Na mesma localidade, ou seja, na mesma cidade, semanas depois, seguiu-se um outro desaparecimento. Desta vez foi a vez do jovem Estevão Ngolome, de 21 anos de idade, residente no bairro Miradouro.
Segundo familiares, o mesmo foi raptado por volta das 17 horas do dia 5 do mês em curso, quando comercializava cartão de saldo no centro da cidade, “elementos não identificados apareceram e o levaram em parte incerta”, denunciaram.
O terceiro caso faz menção a um ancião que foi para sua lavra e não mais regressou. Este caso o leitor vai ter os dados com mais detalhes na entrevista feita a mais alta entidade do Ministério do Interior neste território (mais a baixo).
A população diz que só na cidade de Ndalatando, durante o ano em curso, sete pessoas desapareceram de forma misteriosa, mas, para além das famílias encontradas por este jornal, há dificuldades em se encontrar os dados dos supostos desaparecidos, ou dos seus familiares.
Entrevista exclusiva com o Comandante Provincial da Polícia Nacional no Cuanza Norte, e Delegado do Ministério do Interior, Comissário José Fernandes.
A pouco mais de seis meses, o Oficial Superior da Polícia Nacional exerce a função de Comandante Provincial na província do Cuanza Norte.
Natural da província de Benguela, município do Lobito, o destacado Comandante começou por imprimir uma nova dinâmica no seio da corporação.
Sempre aberto ao diálogo, recebeu a nossa equipa de reportagem de braços abertos, e respondeu todas as perguntas colocadas.
NMC - Comandante, vamos começar, primeiro, por compreender a complexidade que a polícia encontra em termos de operatividade em cada município, sabendo que o casco urbano está circundado por casas que estão em montanhas, queremos saber como é que a polícia se desdobra para chegar a esses pontos quando há um pedido de socorro?
CP – A Polícia não tem tido dificuldades, vai para estes locais, não digo com tanta facilidade, mas chega lá através do patrulhamento apeado, o policiamento de proximidade e, quando há pedidos de socorro, as viaturas vão até onde podem e dali para adiante vai uma componente policial apeado, para fazer o trabalho, que é prestar socorro que é solicitado. Portanto, não temos tido dificuldade em relação a isso, tirando o período chuvoso, por causa do relevo do nosso território, mas apesar disso a gente cumpre com a nossa missão, que é chegar até o local e dar a devida resposta.

NMC - Quantos efectivos tem a província do Kwanza Norte, este número é suficiente para acudir a demanda populacional?
Falar de números dos efectivos é bastante complexo, mas de uma forma geral, estamos com 3 mil e 113 efectivos aproximadamente, só para o Comando da Província da Polícia. Desses 3 mil efectivos que temos, o deficit é muito grande. Precisamos de muito mais, aí pelo menos mais de 2 mil, para total cobertura policial. Veja, por exemplo, que o rácio actual é de 410 habitantes por polícia. Portanto, o normal seria de 250 por polícia. Precisamos de mais efectivos. Essa situação é sentida nos 10 municípios. Nas visitas que fomos fazendo, os munícipes também reclamam disso, porque na verdade estão bastante participativos com o trabalho da polícia. É fruto daquilo que falei há bem pouco tempo, do policiamento de proximidade.
Quantas esquadras de polícia tem a província do Cuanza Norte?
CP- São quatro esquadras, e cerca de 18 postos policiais… A nível dos dez municípios…
NMC- Qual é o mais crítico?
CP- É o município do Cazengo, e segue-se o município de Cambambe.
NMC- Quantos crimes são registados semanalmente?
CP- Por semana estamos a falar entre 35 a 40 crimes, essa é a média.
NMC-Qual é a tipicidade dos crimes e os mais frequentes?
CP- Olha, com sinceridade, aquilo que temos, não digo com preocupação, mas com frequência, são os furtos, os furtos de telemóveis e os casos de ofensas graves à integridade física, esses são permanentes, é raro receber uma situação de 24 horas sem haver um caso de furto, sem haver caso de ofensa à integridade física.

NMC- Mas essas acções (furtos) são feitas em residências ou na via pública?
CP- A maior parte delas em residências, porque sabemos que a nossa população dedica-se ao cultivo, e no período em que vão para as áreas de lavoura, e aqueles que não se fazem ao trabalho, e não são pessoas ligadas ao bem, aproveitam-se da ausência dos donos da residência para apossarem-se das coisas alheias.
NMC- Em termos de tráfico de drogas a província tem registado números consideráveis?
CP- A cidade não é muito polémica em relação a esta questão. A não ser os pequenos tráficos, aqueles tráficos de estupefacientes, mas eles estão sob o controlo dos agentes da ordem pública. O nosso SIC também está em cima, vai buscar dados na profundidade para que a prevenção seja feita a tempo e hora.
Sabe-se que na maioria das províncias onde a população é dedicada a lavoura, muitos são incentivados ao cultivo de liamba, será este o caso do Cuanza Norte?
Eu não vou falar com tanta propriedade sobre o cultivo, mas naquilo que é tráfico, naquilo que tem sido o nosso dia-a-dia, este fenómeno não é frequente nesta província.
NMC- No caso de desminagem, já que a província também foi assolada pela guerra, como é que está a situação de desminagem neste território?
CP- Estamos bem! Tivemos um registo, há coisa de um mês, em que apareceram engenhos explosivos na localidade de Danjamenha, mas foram dias consecutivos, ou melhor, numa semana apareceram cerca de 5 ou 6 seis engenhos, e na outra semana apareceu um cidadão que trouxe duas granadas também encontradas na localidade de Danjamenha. Portanto, aqui a situação está estável, tirando estes dois casos.
NMC- Registamos queixas de algumas senhoras que se dedicam a lavoura, acusando que marginais furtam os seus produtos e noutros casos mais graves, abusam sexualmente as senhoras, e quando fazem queixa à polícia, não há resultado, o que tem a dizer sobre isso?
CP- Lamento dizer que não tenho esse registo, o único caso que tivemos neste semestre é de uma senhora que foi à zona de lavoura e foi seguido por alguém que já tinha essa prática.
A dado momento, confrontou-se com ele, percebendo que a senhora o conhecia, matou a senhora, e jogou o corpo para o rio, mas este caso foi devidamente investigado e esclarecido. O autor do crime encontra-se preso até hoje. Não sei se já foi julgado, mas já foi apresentado ao Ministério Público, este é o único caso que temos anotado. Agora, existem outras coisas que certamente estão a ocorrer em zonas mais recuadas e que não nos chegam ao conhecimento, mas a polícia nunca se manifestou incapaz de fazer o enfrentamento.
Tivemos um outro caso, já agora, de uma senhora que na verdade foi violada. Ela apareceu morta na área de lavoura, até hoje ainda não esclarecemos, mas está ser feito um trabalho profundo, e será esclarecido. Só para frisar, temos ainda dados de 25 crimes de abuso sexual a menores, entre 14 e 16 anos. Eu acho que é um estado doentio das pessoas adultas envolverem-se com crianças.
Muitos desses crimes ocorrem no seio da família, esse registo de 25 casos é o que temos, mas na verdade, numa conversa com o INAC e outros órgãos, o número é muito mais elevado, mas são crimes que ocorrem no seio da família e são ocultados ali.
As famílias devem colaborar com a polícia, porque a denúncia da ocorrência de um ato criminoso é muito importante para que o criminoso não se sinta impune, uma vez que a impunidade gera um grande mal.
NMC- Como estamos em termos de números da população carcerária?
CP- Em termos de número, estamos com uma superlotação de aproximadamente 258 reclusos. É uma situação que nos preocupa bastante, ela já foi exposta a nível da nossa superestrutura e acredito que nos próximos meses haverá transferência de alguns presos para outros presídios, porque manifestamos isso com muita preocupação.
A infra-estrutura da própria Comarca já clama por obras, também já manifestamos isso. Já manifestamos também a necessidade de um outro estabelecimento com mais capacidade porque, como sabe, o crime é um fenómeno que acompanha o desenvolvimento da própria sociedade, e no Cuanza Norte, às pessoas quase que não se apercebem, mas tem estado a crescer e a desenvolver-se bastante, daí também o registo de alguns crimes um bocadinho fora do período passado, porque a vida é dinâmica, quanto mais desenvolvimento, maior é o número de crimes.
NMC- Quanto a meios rolantes, como é que a polícia se encontra neste quesito?
CP- Não estamos tão mal, mas precisamos de mais. Precisamos de mais porque o número que temos, a maior parte delas já está de baixa.
Hoje é feita a mobilidade, mas não como gostaríamos que fosse, visto que as áreas estão separadas, e a nossa província é de relevo. Estamos hoje com cerca de três viaturas no município de Ndalatando, Isso é uma gota no oceano, precisamos mais, e essa questão foi colocada tempestivamente à direcção do Comando Geral, que também tudo faz para resolver o problema. Aliás, o problema de transporte é um problema conjuntural.

NMC- A população reclama de uma onda de desaparecimento de pessoas, e recentemente foram vítimas uma menina de 10 anos e um jovem de 21 anos de idade, já há quase dois meses, o que o senhor Comandante tem a dizer sobre isso?
CP- Este caso da menor de 10 anos ocorreu no dia 17 de Junho, vinha da escola e foi levada por um motoqueiro, na Praça 1º de Maio. Existe um processo em curso no SIC, registado sob o número 527, e diligências estão a ser feitas para o devido esclarecimento. Sabemos que há um acto de chantagem envolta deste caso, a pessoa que raptou está a exigir um valor de 50 mil Kwanzas, sabemos que há o problema dos pais estarem separados em termos de relação, investigamos aturadamente para perceber se estamos de facto diante de um caso de rapto, a investigação está no bom caminho e acredito que nos próximos dias teremos esse caso trazido ao público como esclarecido.
Quanto ao outro caso a polícia não tem nenhum registo nesse período, porque não nos chegou nenhuma reclamação. São esses casos que ocorrem no seio da família e que não chegam aos órgãos de polícia. Nós temos uma base de inteligência com trabalho de profundidade para busca de dados e tratamentos, e não temos esse dado, aí já aparece a colaboração da sociedade civil em denunciar o mal.
Temos o registo, sim, do desaparecimento do Senhor Manuel Lourenço Paulo, de 74 anos de idade, na localidade do Zanga, município do Cazengo. Saiu de casa foi para a sua fazenda, para certificar uma informação que havia recebido de cidadãos que faziam o corte de madeira no seu espaço, sem o seu consentimento. Bem, não regressou e até hoje também estamos a procura-lo, já fomos para além de 30 km da estrada para dentro da mata, todo um trabalho feito não culminou ainda com o conhecimento do paradeiro deste indivíduo.
NMC- E qual é a estratégia que a polícia está a usar para evitar esse fenómeno?
CP- Estratégias são estratégias, não se divulgam porque se não deixam de ter a sua graça e, até perigam um conjunto de manobras operativas que vão sendo realizadas.
NMC- As lutas de grupos rivais também é frequente na província, o que a polícia tem feito para controlar este mal?
CP- Controlamos cerca de 26 grupos rivais, a maior parte deles são adolescentes, andam armados, mas é com armas brancas, objectos contundentes, porque a arma de fogo tivemos um único caso que já foi desmantelado. O apelo vai para os pais, sobas e seculos para avisarem os sobrinhos e netos, a não se envolverem nessas práticas porque isto cria um mau estar no seio da família.
A polícia faz a sua parte, a busca de informação na profundidade para que um trabalho de prevenção se faça, com isto, temos impedidos muitas situações aqui em Ndalatando e no município de Ambaca, principalmente.
NMC- Quais são os parceiros da polícia no combate a criminalidade?
CP- Temos a sociedade civil, às igrejas e vamos agora recorrer a própria comunicação social, que é muito importante para apelar para a estabilidade que vivemos hoje. Por exemplo, em Cambambe os grupos desmobilizaram-se e entregaram-se às autoridades e pediram inclusive emprego na primeira oportunidade que fosse. Assim como aconteceu em Cambambe, aconteceu também em Ambaca, onde muito recentemente os grupos mais temidos, cerca de quatro, entregaram-se às autoridades.
É esse trabalho que estamos a fazer, apelamos também, com concurso da igreja, porque que a vida com Deus é o melhor caminho, é este apelo que estamos a fazer, e é com os parceiros que temos a contar.
NMC- São recorrentes os crimes motivados pela crença ao feiticismo? Sem sim, quantos casos têm registado?
CP- Neste primeiro semestre, eu estou cá desde dia 16 de Janeiro de 2024, ainda não temos um único caso. Portanto, em relação a isso, estamos calmos.
NMC- Sinistralidade rodoviária, senhor Comandante, quais os números que a província regista em termos de acidentes de viação?
CP- Relativamente aos acidentes, são muitos, neste primeiro semestre temos 171 acidentes registados, de uma forma geral. O que nos preocupa em relação aos moto-taxistas é o índice de indisciplina na exploração desses serviços. Veja, por exemplo, no Cuanza Norte assiste-se a um fenómeno muito atípico em relação às demais províncias.
É estranho porque trata-se de uma cidade académica onde as pessoas são muito bem esclarecidas, e nós estamos a ver moto-taxistas andarem pela cidade sem capacetes, transportar pessoas sem capacetes, é um perigo iminente para a vida das pessoas e isso nos preocupa.

A única e primeira intervenção que tivemos culminou com uma situação pouco agradável, conversamos nesta sala com os moto-taxistas, com o delegado da associação dos moto-taxistas, nos oferecemos para um encontro mensal para trocarmos impressões, e isto tem vindo a ser feito, já aconteceram duas palestras para habilitá-los ao conhecimento do Código de Estrada, mas ainda assim assistimos no dia-a-dia moto-taxistas a circularem sem capacetes.
O número de acidente com a intervenção de motorizadas é de 113, é assustador. No primeiro semestre tivemos um resultado triste de 24 mortos e 180 feridos.







