Negócio na transição para polícia - Oficiais envolvidos desafiam militares lesados a apresentarem queixa ao Presidente da República
"Podem queixar-se ao Presidente João Lourenço; nós mandamos aqui": é desta forma que os oficiais da Polícia Nacional e das Forças Armadas reagem às reclamações daqueles militares que, por lei, transitaram das FAA para a polícia, mas não conseguem fazê-lo, porque o processo está eivado de vícios.
Por: Laurentino Tchatuvela
Os militares que serviram com dedicação as Forças Armadas Angolanas (FAA) por mais de oito anos vieram a público expressar a sua profunda insatisfação e desespero diante do abandono a que alegam estar sujeitos desde que foram desmobilizados.
"Durante o processo de licenciamento, muitos de nós fizeram-nos reprovar em exames sob a alegação de sofrermos doenças que nunca tivemos. Essa situação injusta não apenas prejudicou nossas carreiras, como também afectou seriamente nossas vidas e dificultou a reintegração na sociedade”, afirmaram.
Segundo esses ex-militares, muitos vivem momentos de angústia, depressão e desespero.
“Sentimo-nos perdidos e sem perspectivas, lutando diariamente para encontrar o nosso lugar numa sociedade que parece ter nos esquecido", lamentou, afirmando mais adiante que já não conseguem enquadrar-se num mundo que se move rapidamente, enquanto eles permanecem estagnados.
Apelam, por isso, ao governo angolano e às autoridades competentes para que voltem os olhos a esta camada que afirma ter sido excluída de um processo que, por direito, lhes pertencia. “Não queremos ser vistos como um fardo, mas sim como cidadãos que merecem dignidade e oportunidades", alertaram.
De acordo ainda com esses ex-militares licenciados à reserva, quando foram desmobilizados em 2023, o Decreto Presidencial previa que todos que tivessem cumprido o serviço militar obrigatório deveriam passar por um processo de transição das FAA para a Polícia Nacional. “Cumprimos o serviço militar, mas o processo de transição transformou-se, na prática, num concurso público. No Grafanil-Bar, houve favorecimentos, onde filhos, namoradas, enteados e amigos de oficiais foram enquadrados, enquanto cobravam até um milhão de kwanzas a civis para ocuparem vagas destinadas a militares”, revelaram.
Alguns explicam que estavam num processo paralelo ao de recrutamento para o SINSE, onde fizeram exames psicotécnicos no centro de selecção com mais de 600 candidatos. “Fomos surpreendidos por uma chamada do chefe do grupo, informando que houve redução de 300 candidatos, sem nenhuma explicação", denunciaram.
Posteriormente, afirmam, foram transferidos para a Polícia Nacional, onde acabaram reprovados sem qualquer justificativa: “Só eles sabem os motivos da nossa reprovação", frisaram.
De forma surpreendente, alegam, apareceram outros 300 civis com pretensões de fazer testes no centro de selecção.
Estes civis foram considerados militares; todos os comandantes das FAA responsáveis pela área tinham conhecimento, porque incluíram filhos, irmãos e outras pessoas próximas.
Havia muita desordem durante os exames, os comandantes das FAA e da PNA traziam seus filhos, faziam pedidos, e até diziam com arrogância, "podem queixar-se onde quiserem, mesmo se for ao Presidente João Lourenço, nós é que mandamos aqui".
“Encarecidamente, pedimos que se resolva a nossa situação, pedimos apenas duas coisas: que que sejamos reintegrados nas FAA ou enquadrados na Polícia Nacional. Já cumprimos o serviço militar, mas os filhos deles fazem 15 dias no centro de instrução e já saem de lá como militares", imploram.
Eles ainda lembram que, quando o processo foi liderado pelo "chefe Munito, tudo corria bem, e todos entravam para a Polícia Nacional sem impedimento”. A situação, afirmam, mudou após a entrada do chefe Cabana, que “faz e desfaz, favorecendo muitos civis sem conhecimento técnico ou experiência militar”.







