Do campo militar para rua - Mais de 110 jovens despedidos sem aviso prévio esperam por reenquadramento nas FAA
No ano de 2023, mais de 110 jovens que nasceram em 2001, abandonaram suas famílias com o objectivo de servir a pátria, nas Forças Armadas Angolanas (FAA). Ficaram aquartelados por três meses, sem comunicação, na província do Bengo, mais precisamente no Centro de Instrução Militar, donde foram retirados e mandados de volta para casa, sem explicação ou aviso prévio, apesar de possuírem os Números de Identificação Permanente (NIP) que confirmam seus enquadramentos. Pior ainda, nesse universo apenas 19 jovens ganham salários de soldado, até aos dias de hoje, para o desagrado da maioria.
Por: Solange Figueira
Receber treino militar durante 03 meses e depois serem devolvidos às suas famílias é um cenário que não entra na cabeça dos mais de 110 jovens que alegam terem informado a situação a várias instituições militares, incluindo ao Ministro da Defesa Nacional e Veteranos da Pátria, ao Comando do Exército e ao Estado Maior General das FAA, mas não receberam respostas. São militares que, com esta situação, passam a adensar as já constrangedoras unidades que apostam no crime, para sobreviverem, pelo menos é o que conjecturam.
Os jovens dizem que foram vítimas de corrupção e nepotismo por parte de altas patentes das FAA, que, alegadamente, estariam a beneficiar-se dos salários da maioria do pessoal do grupo. Eles relatam que alguns dos seus colegas morreram de depressão.
Inconformados, dizem que explicaram o problema, mostrando todas as provas documentais das cartas que já haviam enviado, mas não passou disso. Depois de alguns dias, várias pessoas do grupo remeteram uma carta, pedindo o reenquadramento na Secretaria do Chefe do Estado Maior General, Altino Carlos José dos Santos, mas também não tiveram respostas.
Por causa do silêncio da Secretaria do Estado Maior General, foram novamente remeter uma outra carta de reenquadramento à Secretaria do Ministro da Defesa Nacional e Veteranos da Pátria. A documentação foi recebida e seguiu os trâmites legais, mas apenas lhes é prometido voltar no dia seguinte. “É o que prometem todos os dias”, enfatizam, acrescentado que ficaram apoquentados quando souberam, da mesma secretaria, que, afinal, as cartas não foram entregues. Porquê? A resposta tarda a chegar e até hoje desconhecem se todas as cartas não chegaram ou chegaram algumas, de tantas enviadas.
O que os tranquiliza é o facto de terem nomes das entidades que têm conhecimento do caso e supostamente nada fazem para resolvê-lo, ao longo de quase 2 anos: Coronel Vito, Tenente Coronel Martino (ambos do Serviço de Inteligência e Segurança Militar do Ministério da Defesa); Tenente Coronel Correia (actual chefe da Segurança do Estado Maior General - DOME); Tenente Coronel Alfredo (Chefe do Departamento de Recrutamento Nacional); Sub-Sargento Calili (Comando do Exército); Capitão Virgílio (CCSL - Centro de Classificação e Seleção de Luanda); e o Coronel Virgílio (Comandante do CCSL).
Essas entidades referenciadas dominam todos os detalhes do caso e sabem como resolvê-lo, mas “infelizmente, não ajudam, porque são impedidas pelo mando superior, ávido de comer o nosso dinheiro”.
Segundo Martins Rafael, acusador, um dos seus colegas, Osmar Mafuta, acabou por se suicidar devido às dívidas que adquiriu para manter-se no centro. "Os familiares do meu colega venderam tudo que tinham para o ajudar a entrar nas FAA, depois de três meses quando fomos retirados à força da província do Bengo, ele se matou por não ter dinheiro para pagar as dívidas".
Os denunciantes pedem ajuda ao Presidente João Lourenço para intervir e resolver o caso. Eles querem ser enquadrados nas FAA porque na óptica deles, foram treinados para defender a pátria e não para ficar em casa.
Hilário de Jesus, nome fictício de um dos líderes do grupo, diz que perdeu todas as esperanças de algum dia fazer parte da Polícia Militar. “Estamos revoltados, clamamos por ajuda, não sabemos mais para onde recorrer”, suplicou.
Os jovens relatam que cumpriram com todas as exigências, mas enfrentam muitos obstáculos e estão desesperados. “Somos filhos de camponeses, passamos muita fome no centro. Acordávamos às 4 horas da manhã e voltávamos às 19 horas para obtermos os NIP. Enfrentamos muitos obstáculos. Queremos apenas a solução do caso", exigem.







