Jovens angolanos que sofreram graves ferimentos enquanto trabalhavam na empresa chinesa Guangued Internacional acusam a mesma de abandoná-los a sua sorte
Dois cidadãos nacionais, que atendem pelos nomes Domingos Morais Simão, de 23 anos de idade, e Gabriel Sangala António, de 36 anos, moradores do bairro Realengo, ponto 3, município do Sequele, província de Icolo e Bengo, denunciam alegado abandono por parte da empresa Guangued Internacional Group, Lda., após terem sofrido graves acidentes de trabalho, que resultaram na amputação de três dedos do pé esquerdo, e o segundo ficou sem dedos na mão direita, deixando-os com deficiência para toda vida.
Por Kihunga Bessa
Em declarações exclusivas ao Jornal Na Mira do Crime, Domingos Morais informou que trabalhou apenas cinco meses na referida empresa, e o acidente aconteceu no dia 11 de Agosto de 2024, durante o exercício das suas funções, depois de a empresa ter decidido colocar um elemento que alegadamente não tinha experiência no manuseamento da máquina empilhadora, enquanto efectuavam mudanças de um ponto para outro.
“Tão logo nós subimos, ele, como era aprendiz, arrancou e não conseguiu controlar a máquina. Esta recuou e apertou-me o pé contra a parede. No princípio não senti nada; quando olhei para o pé dei conta do ferimento, tendo inclusive dois dedos ficado no local”, recordou.
Segundo o denunciante, o socorro demorou cerca de três horas a chegar, o que terá agravado significativamente o seu estado clínico, tendo sido posteriormente levado para o Hospital Municipal do Sequele, onde ficou sob cuidados médicos durante uma semana, sem qualquer visita da direcção da empresa.
Como consequência do acidente, Domingos Simão perdeu três dedos do pé esquerdo, ficando com limitações físicas que afectam a sua mobilidade e capacidade de trabalho.
Seis meses após o ocorrido, o trabalhador afirma que não recebe salário, foi afastado da empresa sem justa causa e não teve acesso a qualquer tipo de indemnização ou assistência médica por parte da entidade empregadora.
“Estou doente, sem salário, sem apoio e com família para sustentar. Inclusive tive de me separar da esposa, vivo em casa arrendada e fui completamente abandonado pela empresa após o acidente”, lamentou o trabalhador.
Gabriel Sangala António contou que o cidente aconteceu no mês de Junho de 2021, com uma máquina rotativa, enquanto produzia mobiliário, durante o exercício das suas funções.
Afirmou que o procedimento de socorro foi semelhante, tendo sido levado para o Hospital Municipal de Cacuaco e, consequentemente, encaminhado para o Hospital Américo Boavida, onde esteve internado durante uma semana, sem visita da direcção da empresa.
“Depois de sair do hospital, a empresa pagou os meus subsídios apenas durante um ano e seis meses. Pararam porque me obrigavam a trabalhar mesmo com a ferida ainda fresca e eu não conseguia”, relatou.
Os denunciantes apelam à intervenção urgente das entidades competentes, incluindo os órgãos de inspecção laboral, o Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, para que o caso seja investigado e os seus direitos enquanto trabalhadores sejam respeitados, conforme prevê a legislação laboral em vigor.
O Na Mira do Crime contactou a direcção da empresa para ouvir o contraditório das acusações que pesam sobre a mesma.
Otávio Nani, assessor jurídico da empresa, afirmou que às acusações são falsas e avançou que os dois trabalhadores têm os seus mandatários a representá-los. Acrescentou ainda que, no mês de Dezembro, estiveram reunidos, ocasião em que o mandatário de Gabriel Sangala António apresentou uma proposta de valores, que está a ser analisada pela direcção da empresa, podendo esta responder com uma contraproposta nos próximos dias.
Quanto ao caso de Domingos Morais, o seu mandatário prometeu remeter a respectiva proposta, o que até à presente data ainda não ocorreu, continuando a empresa a aguardar para posteriormente apresentar a sua contraproposta.
“A empresa, em nenhum momento manifestou intenção de cessar o vínculo laboral com os trabalhadores”, disse.
O jurista criticou igualmente a Junta Médica Nacional, apontando-a como, alegadamente, uma das responsáveis pela morosidade na resolução dos processos relacionados com acidentes de trabalho.
“Muitas vezes as empresas não tratam os assuntos com a celeridade que se impõe, não porque não queiram, mas porque também encontram entraves nas instituições que poderiam ser mais céleres e solidárias”, concluiu.







