Detidos ou desaparecidos: Polícia e familiares divergem sobre paradeiro de três cidadãos acusados de ocuparem ilegalmente terrenos no bairro Floresta no Calumbo
A ocupação ilegal e a consequente venda de terrenos, no Bairro Floresta, município do Calumbo, transformou-se no principal motivo de desentendimento na comunidade, havendo relatos de agressões e registo de cidadãos desaparecidos.
Por: Solange Figueira
O Bairro Floresta está situado no município do Calumbo, província do Icolo e Bengo, nas proximidades do condomínio da polícia.
Desde o ano passado, este Jornal tem reportado sobre a vida no referido bairro, por conta da invasão de terrenos e os maus tratos a que são submetidos os moradores, supostamente pela polícia aeroportuária, que tenta, a todo momento, tomar de assalto o bairro, que fica no perímetro do novo aeroporto, alegando ser reserva fundiária do Estado.
De acordo com os moradores, todas as pessoas que constroem no bairro têm licenças e documentos legalizados pela administração, e apontam como invasores os antigos coordenadores do bairro que têm a intenção de vender o bairro.
Alegam que esses ocupantes têm pagado à polícia aeroportuária para litigar com a população.
Os denunciantes identificam o comandante João Coxi, comandante da Polícia Aeroportuária, como líder dos agentes que agrediram a cidadã gestante de quatro meses que, neste momento, se encontra em estado crítico.
Segundo testemunhas, a cidadã em causa foi acudir o seu marido, o seu cunhado e a sua sogra que estavam a ser severamente espancados pela polícia, que, seguidamente, os prendeu, desconhecendo-se, até agora, o seu paradeiro.
Segundo Kiembo Alexandre, esposo de Isabel Luneko, os seus familiares foram brutalmente espancados pelos agentes que os prenderam.
"Os agentes encontraram os meus filhos a construir, eles são pedreiros, levaram os materiais de construção e começaram logo a agredi-los. A minha mulher, vendo a situação, pôs-se a frente para acudir os filhos e a nora grávida. Os agentes viram que ela estava grávida, mesmo assim, espancaram-nas", contou, submundo que o comandante Coxi presenciou tudo; foi ele quem deu as ordens para prendê-los.
No dia seguinte do sucedido, foi até ao aeroporto saber se eles estavam detidos lá, mas mandaram-lhe ir para o comando provincial de Luanda.
"Não entendi por que é que estamos na província do Icolo e Bengo, mas foram detidos em Luanda", questionou.
A coisa ficou complicada quando se dirigiram à província de Luanda e não encontraram os seus ente-queridos, tendo sido encaminhados para o Serviço de Investigação Criminal de Cacuaco.
"Deram-me uma lista com nomes, mas os deles não constavam. Também procuramos nas celas, neste momento, eles estão desaparecidos, não sabemos onde estão. A minha família não é de criminosos, apenas estavam a se defender das agressões. Quero respostas, meus filhos e minha esposa têm que aparecer, preciso de ajuda", suplicou.
Suzana Biuca, a cidadã que está grávida de 4 meses, disse que aquilo parecia uma "verdadeira guerra".
"Deram-me vários ponta-pés na barriga e atiraram-me para dentro do carro da polícia. Fui socorrida pela população que se revoltou. Neste momento, sinto muitas dores na bexiga e na coluna vertebral", apontou.
Malaquias Caxala, ancião e morador do bairro há vários anos, diz que o bairro existe desde 1973, porém as invasões começaram em 2023.
"Este bairro não faz fronteira com o aeroporto, estamos muito distante. A primeira vez que começaram a invadir, fomos para o comando do aeroporto, nos mostraram um mapa, vimos que o bairro que está no perímetro do aeroporto é o bairro Santa Paciência, e não o nosso bairro", ilustrou, acusando a polícia de estar a fazer deste bairro "um negócio, ninguém pode construir, quem resistir, eles partem as obras e levam todos os materiais e vendem e não os recuperamos mais".
Nessa confusão, o negócio flui. Ou seja, quem quiser construir sem a intervenção da polícia tem que pagar um valor de 40 a 50 mil kwanzas.
Depois do sucedido na sexta-feira, foram para a esquadra do Capapinha, que é a da jurisdição do bairro, fizeram uma participação, e os agentes estiveram no local onde aconteceu o problema, foram embora de seguida, não fizeram nada para ajudar os moradores.
"Estamos cansados de ser invadidos, daqui a pouco vamos pegar nas nossas catanas e vamos fazer justiça por mãos próprias", uma alternativa condenável.
A nossa equipa de reportagem entrou em contacto com o comandante João Coxi, mas este nega as acusações.
"Os moradores partiram o vidro do carro da polícia, por isso estão presos. Meu mandato já terminou, no dia do ocorrido eu estava presente, porque estava a mostrar o bairro ao novo comandante. A população daquele bairro é muito complicada, ela invadiu a reserva fundiária do Estado, toda aquela zona está no decreto presidencial, 12/6 e 74/19. Eles não gostam de ver a presença da polícia, eu fiz um ano e um mês a trabalhar aí, o grupo que entrou estava a tomar posse, eles insurgiram-se contra a polícia", explicou.
Quanto à senhora gestante, disse que caiu por não ter comido nada. A unidade chamou o INEMA e foi socorrida. "Se ela foi agredida, eu não tenho conhecimento, eu já não faço parte desta unidade, terminei a minha missão", asseverou.







