Ex-Directora do Hospital Heróis do Kifangondo acusada de negligência médica que causou morte do paciente - Profissional da saúde rebate acusações e diz que a mãe da vítima recusou orientação médica
A família Casal Lopes Gigante acusa a ex-directora e funcionários do Hospital Heróis do Kifangondo de maus tratos e negligência médica, que culminou com a morte do cidadão que em vida atendia pelo nome de Marcos Casal Lopes Gigante, de 45 anos de idade, em Fevereiro de 2025.
Por: Solange Figueira
De acordo com os denunciantes, o malogrado deu entrada no hospital Heróis do Kifangondo, em Outubro de 2024, para tratar de uma tuberculose, tendo ficado internado na UTI, onde, segundo os familiares, foi "severamente maltratado pela equipa médica que o atendeu na época".
De acordo com os denunciantes, os funcionários em questão estão identificados: Doutor Bizela Mucundi, Doutora Sandra, Enfermeira Sebastiana e Enfermeiro Angelino Jesus.
A família acredita que os maus tratos começaram como forma de vingança, porque a mãe do malogrado reclamou quando o encontrou debilitado e paraplégico, porque ficou três dias sem curativo em uma ferida na coluna que o mesmo adquiriu no hospital sem ser medicado.
Segundo Sandra, mãe do malogrado, o filho era autista de primeiro grau. Em todos os hospitais por que passou, sempre levou o relatório do diagnóstico do filho. Por esta razão, os médicos permitiram que o paciente ficasse com um fone no ouvido onde continha músicas para autistas, um telemóvel e um livro.
"O Marcos sofria de pânico, pelo que a música, o livro e o telemóvel o acalmavam. Por conta das minhas reclamações, a equipa médica decidiu vingar-se, já não o limpavam, não lhe davam a medicação; no pequeno-almoço lhe davam chá preto com pão seco e, no almoço, davam-lhe carcaça de frango ou cabeça de peixe frito com massa branca.
Retiraram-lhe o telemóvel, o livro e os fones, ele entrou em pânico, ficou quatro dias consecutivos a chorar e, depois, morreu", relatou. Acrescentou que, antes disso, implorou e ajoelhou-se diante da Dra Sandra para devolverem as coisas, mas ela não aceitou.
"O Doutor Bizela Mucumbi era da UTI, a Enfermeira Sebastiana foi arrogante, me retirou de perto do meu filho aos berros, me expulsou e falou com os seguranças para não me deixar entrar mais. Um enfermeiro chamado Angelino Jesus, disse-me que se eu continuasse a reclamar já não iriam tratar bem o meu filho.
Ele estava no dia do último ataque e foi ele que chamou a Sebastiana para me expulsar", revelou. Lembra que quando falou com o Dr Bizela para não retirar o telemóvel ao seu filho, pois isso podia levá-lo a uma crise maior e prejudicar a saúde física e mental, ele negou e prometeu queixá-lo à direcção do hospital.
"Arrogantemente, disse que eu podia queixar-me onde e a quem quiser", reagiu. Diz que ele alega que ninguém o pode acusar de nada, porque quando apareceu, o paciente já tinha contraído a bactéria hospitalar, depois dos cirurgiões faltarem ao curativo por três dias.
"Meu filho ficou paraplégico no hospital, não sentia os movimentos da coluna e das pernas", reforçou a mãe do malogrado. Disse também que a directora Jovita André, no início, a atendeu muito bem, não teve razões de queixas.
"Fez o que pode, e à minha frente orientava, mas os enfermeiros quase nunca cumpriam. Só depois, passei a perceber que ela estava a proteger o lado dela e da sua equipa, chegando ao ponto de me acusar de ser culpada da morte do meu filho; isso não se diz a uma mãe; é uma acusação forte que se pode fazer à uma mãe", desabafou, desafiando a referida directora para que prove que foi ela quem matou o seu próprio filho.
A directora Jovita havia garantido que a Enfermeira Sebastiana foi afastada, mas a mãe do malogrado constatou que essa informação não passava de um embuste. Há dois meses, esteve no hospital, onde foi informada que a Directora já não trabalha lá. "A directora clínica Zenaide chamou a segurança para me retirar o telemóvel com que estive a filmar, mas como não aceitei, mandou chamar a polícia para me prender por eu tirar uma fotografia em um painel", afirmou, revelando que o seu advogado testemunhou a reacção da polícia. Marcos deixou dois filhos e uma esposa.
A equipa médica diz que ele morreu de enfarte, o que na óptica da família, "não corresponde à verdade". Insiste em dizer que ele foi maltratado e negligenciado, pelo que a equipa médica de então deve ser responsabilizada criminalmente.
A nossa reportagem foi ao Hospital Heróis do Kifangondo, falou com o novo director, Pedro da Rosa, que diz não ter conhecimento do assunto. A equipa entrou em contacto com a Ex-Directora do Hospital Heróis do Kifangondo que, hoje, ostenta o cargo de Bastonária da Ordem dos Médicos em Angola. Ela nega todas as acusações.
"Começo por mostrar a minha indignação, pois trata-se de uma vida humana, eu tenho quase ou mais de 40 anos de exercício médico, vou lhe confessar com esta luz que me ilumina que é a primeira vez que respondo por um doente e a um processo de maus tratos, não sou a melhor, mas sempre me dedico de coração com todos os meus doentes, com o Marcos não foi diferente", referiu.
A médica informou que Paula, a Mãe do Marcos, foi indicada por uma irmã da igreja, que solicitou à ministra, e lhe foi referenciado o hospital Mártires do Kifangondo, apesar de morar na Maianga e aí existirem outros hospitais. "Recebi o doente que ficou connosco no banco de urgência, em uma suite, fez os exames, ele tinha algumas doenças que tinham de ser tratadas no Setep", aclarou, salientando que apercebeu-se que era cantor.
Por isso, o convidou para cantar no aniversário do hospital quando ele ficasse bom. Entretanto, segundo a médica, Paula não aceitou que o seu filho fosse internada no Setep, nem se importou em ver as condições daquele hospital. "Ela disse que queria voltar ao nosso hospital, eu disse-lhe que não tínhamos médicos Infecciologistas, mas ela disse que devia arranjar e foi para casa.
O doente já chegou a fazer a medicação no hospital militar, mas não aceitaram internar, ela disse que queria ir ao hospital da Jovita que tem a suite dele. No entanto, porque o malogrado tinha fracturado a perna em casa, foi-lhe solicitado que fosse ao hospital do Prenda, mas a mãe reprovou a opção, segundo a médica. Voltou a internar no Kifangondo, onde a médica terá dado uma cama à mãe do paciente.
"Conversei com a equipa, a Paula transformou a enfermaria em uma casa dela: levou fogão, rádio e panelas, tendo a minha equipa começado a me acusar de ser muito permissiva. Só ela devia tocar no filho, encontramos a nora dela a cozinhar na enfermaria, cenouras e batatas espalhadas. Foi aí que tudo começou.
A Paula não deixava limpar as feridas do filho, ela mesma limpava e fazia os curativos, por esta razão a ferida infectou", observou. Ela, diz a médica, mesmo já com o filho em cuidados intensivos queria ficar lá.
"Onde já se viu alguém levar aparelhos, telemóvel e livro, aos cuidados intensivos?", questionou, considerando não fazer sentido que alguém morra porque lhe faltou um livro e telemóvel e com o Marcos não foi diferente".







