Esteticista "Leonice" fica em prisão preventiva após morte de paciente submetida a alegado procedimento de hidrolipo em Luanda
Uma cidadã nacional que, em vida, atendia pelo nome de Fofa, de 37 anos de idade, residente em Portugal, mãe de quatro filhos e trabalhadora por conta própria, morreu depois de permanecer vários dias internada em estado crítico na Clínica General Katondo, em Luanda, na sequência de um alegado procedimento de hidrolipo realizado numa clínica de estética de nome "Nice da Luz".
A proprietária da clínica, Leonice, conhecida por “Nice”, que havia sido ouvida pelo Ministério Público no dia 9 de Julho, viu posteriormente ser-lhe aplicada a medida de coacção mais gravosa, prisão preventiva, após a confirmação da morte da paciente.
Por: Débora Manuel
Segundo a irmã da malograda, Cidalina da Silva, Fofa regressou recentemente de Portugal para Angola com o objectivo de participar na cerimónia de licenciatura da irmã e celebrar, em família, o seu aniversário e o aniversário da avó.
Durante a estadia no país, decidiu submeter-se a um alegado procedimento de hidrolipo na clínica acima referenciada, acreditando que se tratava de um procedimento seguro. A familiar contou que, no dia marcado para a intervenção, a vítima deslocou-se à clínica acompanhada por dois primos. Contudo, uma das familiares estranhou as condições do espaço e chegou a desencorajá-la de avançar com o procedimento.
“Ela disse que não tinha confiança no local e pediu à minha irmã para desistir, mas ela decidiu continuar”, relatou. Segundo Cidalina, após a assinatura do termo de responsabilidade, os familiares foram orientados a aguardar no exterior da clínica, sem qualquer informação sobre o decorrer do procedimento.
Horas depois, preocupados com a demora e sem conseguirem contactar a paciente, decidiram regressar ao estabelecimento.
Nessa altura, foram informados de que a mesma já havia sido transportada para a Clínica General Katondo. “A minha irmã já tinha dado entrada no hospital e ninguém da clínica avisou a família.
Só soubemos porque começámos a procurá-la”, afirmou. De acordo com a entrevistada, a responsável da clínica alegou posteriormente que aguardava pela estabilização do estado clínico da paciente antes de informar os familiares.
Durante o período de internamento, a família acompanhou diariamente a evolução do quadro clínico. Segundo Cidalina da Silva, os médicos explicaram que a paciente sofreu uma paragem cardiorrespiratória prolongada, situação que provocou edema cerebral devido ao período em que permaneceu sem oxigenação.
A família afirmou ainda que parte do cérebro ficou comprometido, assim como os rins e o fígado, tendo posteriormente surgido um quadro de pneumonia. Na entrevista concedida ao Jornal Na Mira do Crime, antes da confirmação do óbito, Cidalina revelou que a irmã permanecia ligada aos aparelhos de suporte de vida, enquanto os médicos aguardavam alguma reacção neurológica.
“Nós nunca perdemos a esperança. Todos os dias acreditávamos que ela pudesse reagir”, contou na ocasião. A familiar afirmou igualmente que a clínica de estética nunca explicou, de forma clara, o que aconteceu durante o procedimento.
Segundo o relato, a responsável limitou-se a informar que a paciente teria sofrido uma alegada crise de pânico antes da intervenção, versão contestada pela família. Cidalina sustenta que uma prima chegou a falar com a vítima pouco antes do agravamento do quadro clínico e que, nessa conversa, a paciente apenas referiu sentir muitas dores após a administração da anestesia.
A família questiona ainda o facto de a paciente ter sido orientada a alimentar-se antes do procedimento, alegando que essa orientação contraria os cuidados normalmente observados em intervenções desta natureza. Outro aspecto apontado prende-se com a ausência de esclarecimentos sobre os alegados exames realizados antes do procedimento, uma vez que, segundo os familiares, nunca lhes foram apresentados quaisquer resultados.
Ao longo da entrevista, Cidalina apelou para que as autoridades reforcem a fiscalização das clínicas de estética que realizam procedimentos invasivos e alertou outras mulheres para investigarem cuidadosamente os estabelecimentos antes de se submeterem a intervenções semelhantes.
“Não queremos que outras famílias passem pela mesma dor que estamos a viver”, afirmou. Entretanto, a paciente acabou por não resistir e o óbito foi confirmado. Na sequência da evolução do caso, cumprindo um mandado de detenção, Leonice, foi detida por efectivos do Departamento de Investigação de Ilícitos Penais (DIIP), e apresentada às autoridades judiciais.
Depois de ter sido ouvida pelo Ministério Público no dia 9 de Julho, foi-lhe aplicada a medida de coacção mais gravosa, prisão preventiva, enquanto prosseguem as investigações. O processo continua sob tutela das autoridades, para apurar as circunstâncias em que o alegado procedimento foi realizado, a legalidade do funcionamento da clínica, as qualificações da responsável e eventuais responsabilidades criminais.







