Dependendo do grau de letalidade: Minas tradicionais são vendidas a preços que vão de 50 a 500 mil Kwanzas
O país está cheio de grandes problemas que incidem directamente na vida dos cidadãos. Só que, para dissipar tais embaraços cada um arranja uma forma qualquer: nem sempre ideal, mas muitas vezes a possível.
Por: Carla Nayara
É neste segundo plano onde se assume riscos e medidas perversas. No caso concreto das províncias principalmente do centro e Sul do país, na luta pela sobrevivência, muitos cidadãos usam tudo ao seu alcance, desde a superstição aos crimes hediondos.
Nesta reportagem, elegemos o uso da superstição, onde se destacam as 'minas tradicionais', em cujas abordagens o Estado passa de lado.
E se aparece, é para subverter a verdade. Com o aparecimento da Covid—19, todo diagnóstico que implique as autoridades sanitárias é levado a preencher os dados dos testados positivo.
Falar de minas tradicionais, também conhecidas por "talas" é falar de um male pernicioso que está deixar um número considerável de órfãos, viúvas e viúvos.
Falar da 'tala' é falar de uma arma silenciosa, mas mortífera que, a qualquer altura pode bater a porta de cada cidadão, não poupando mesmo governantes.
A FORÇA DA SUPERSTIÇÃO É LETAL.
Alguns cidadãos, que se dizem civilizados, fingem que as talas não existem, argumentando que quando assunto é feitiçaria não há explicação a dar.
"Eu nasci e cresci com a ideia de que o feitiço não existe", confessou um oficial da polícia no Huambo, depois de se separar com uma troca de mimos entre familiares de um colega, que alegadamente morreu de tala e os familiares do cidadão acusado.

Só nessa província, nos primeiros dias de Janeiro do ano em curso, 15 pacientes com tala perderam a vida e outras 28 abandonaram os cuidados médicos nas mais diferentes unidades hospitalares e recorreram ao trabalho tradicional.
Outros ainda, em número não especificado pela nossa fonte, recorreram a algumas igrejas "onde fazem milagres".
Estes dados podem estar aquém da totalidade dos casos, na medida em que a pesquisa, por enquanto, foi feita apenas em alguns municípios. Na província do Bié, os problemas são os mesmos, morre—se de tala todos os meses, sob olhar sereno das autoridades que omitem todos os dados sobre a doença, convertendo—os em casos como lepra e gangrenas.
Esta invalidez, segundo o soba Afonso Sunguahanga, significa que eles consentem, já que muitos deles têm um familiar que terá morrido de feitiço.
"Aqui não escondemos nada, porque tudo isso faz parte da nossa tradição e cultura", explicou, acrescentando que, no passado, a utilidade do feitiço servia para defender as pessoas, mas hoje serve para matar, criar dor.
No âmbito da protecção que o feitiço proporciona, muitos funcionários recorrem ao tratamento tradicional feito pelos quimbandeiros para pedirem não só protecção, mas também, sorte no lar, ascensão no emprego, dentre outros casos.

O nosso interlocutor que disse ter sido consultado por "muitos chefes", afirmou que os clientes que recebe solicitam mais ascensão no emprego e, no caso de militares ou polícias, buscam aumento das patentes.
"Muitos falham, porque desrespeitam as orientações que nós damos", contou placidamente o soba
A autoridade tradicional defende o reconhecimento público do feitiço, para se desfazer o mito à volta dele.
"Chamam—nos atrasados, ignorantes e outros nomes feios, mas, na verdade, quem é atrasado e ignorante é aquele que esconde um fenómeno que está à vista de todos", sublinha, para mais adiante considerar que o mais caricato é que, lá fora, " chamam—nos esses nomes, mas quando estiverem aflitos: para não serem exonerados ou quando quiserem ter sucesso nos actos eleitorais, ou ainda quando quiserem hipnotizar os seus adversários procuram pelos nos serviços.
TALA—MÃE CUSTA 500 MIL KWANZAS
No passado, dizia —se que a mina tradicional era feita basicamente de uma composição de venenos de vários seres vivos, cujo objectivo era fazer sofrer alguém, mas nem sempre se repercutia em morte.
Hoje, a tala castiga a vítima com muita dor, e caso não houver uma intervenção urgente e sobretudo eficaz, a vítima morre.
É caso para dizer esta arma não é feita apenas de veneno. Aliás, como se de um canhão de longo alcance se tratasse, dispara—se, também, à distância, por meio de um poder supersticioso, de facto.
A depender do grau de letalidade, as minas tradicionais são vendidas a preços que vão de 50 mil a 500 mil Kwanzas.
"Por causa do Covid—19, a clientela baixou consideravelmente, vendendo 6 a 8 talas por mês", informou um fabricante desse tipo de minas, revelando que, até 2019, vendia entre 10 e 13 talas. Natural do município de Chitembo, província do Bié, Zacarias Ndala, reside actualmente na comuna de Kangoti afecta ao município do Chinguar.
Guiados por um amigo com quem a nossa equipa de reportagem travou uma dura conversa sobre a veracidade das atlas, Ndala recebeu—nos amigavelmente, afirmando que tinha pressentido a nossa curiosidade, mas que por sigilo, não nos deixaria fotografar.
Foi então que mostrou a lista dos tipos das atlas, começando pela de 50 mil que servia apenas para castigar.
Mas de 100 em diante eram para matar mesmo, umas mais lentas que as outras, sendo que a 400 mil era para matar no prazo de 24 horas.
CUBA PODE SERVIR DE EXEMPLO
Enquanto, em Angola, falar explicitamente do feitiço é "proibido", na Cuba, por sinal, um país visceral do nosso, os bruxos assumem—se publicamente e ajudam a resolver muitos problemas espirituais. Afinal, a medicina convencional, por si só, não consegue solucionar todos os problemas. A nossa reportagem sabe que muitos oficiais do exército cubano, considerados bruxos ajudam o Estado a resolver muitos problemas de saúde. Aqui mesmo em África, muitos países do Oeste, partilham conhecimentos científicos científicos e tradicionais, mas sempre no sentido do bem.







