NOTA POSITIVA: Acabar a venda desorganizada deve ser acompanhada por sensibilização e pedagogia
O anúncio do combate à venda desordenada em Luanda, feito pelo governador provincial, Manuel Homem, motivou acesos debates, críticas e fez com que centenas de vendedoras saíssem às ruas da cidade, na segunda-feira (22), para manifestar o seu descontentamento contra a medida. Enquanto uma franja da sociedade repudia, outra aplaude. Um assunto que marcou a semana, mas a decisão de fazer para melhorar merece Nota Positiva.
Por: Na Mira do Crime
Vezes sem conta se disse que o “cartão postal” de Luanda era o lixo; actualmente o “cartão postal” passou a ser a venda desordenada, geralmente, em meio ao lixo e águas putrefactas.
O fenómeno não se vive só em Luanda; qual vírus, alastrou-se por todas as cidades e demais localidades do país.
Luanda, a capital de Angola, a maior e mais importante cidade, com um elevado número de habitantes, pelo seu estatuto, chama mais a atenção, tendo em conta também que é onde o fenómeno tem maior impacto.
Nos últimos tempos, toda a província de Luanda, com destaque para a cidade, transformou-se num “enorme mercado”.
Em qualquer sítio, nas bermas das estradas, no meio das ruas, nos largos, rotundas, triângulos e passeios, em todos os cantos, nas pedonais, na linha dos caminhos-de-ferro, à porta de instituições, parques de estacionamento, paragens de táxis e autocarros, etc, há uma praça, pracinha, um aglomerado de pessoas a vender de tudo um pouco, até cozinhas se instalam.
Em alguns lugares a situação é insustentável, como tem sido o caso do São Paulo, onde os moradores têm sido vítimas, há anos, de um ambiente infernal, pelo barulho, agitação, sujeira, as suas viaturas sofrem danos e, ainda por cima, à volta dos edifícios, nas entradas, por baixo das escadas, corredores e qualquer canto, tem servido para alívio fisiológico, ou seja, defeca-se e urina-se ali, sem constrangimento nenhum, e quem paga as consequências são os moradores que há muito gritam por socorro, pedem a intervenção das autoridades, os anos passam, trocam-se os dirigentes, a nível provincial, municipal e distrital, mas o cenário mantem-se.
É caso para dizer, se a tal venda desordenada é benéfica para uns, também é prejudicial para outros.
Em várias ruas e bermas de estradas, onde as vendedoras fecham o acesso, o trânsito fica complicado, causa acidentes, atropelamentos, algumas vezes são as próprias vendedoras as vítimas da situação caótica por elas mesmas criada, sem contar com a delinquência que prolifera por esses locais, atacando vendedores e compradores, conforme a ocasião.
Entretanto, há a realçar que a expressão kimbundu “zunga” ou “zungar” verbo popularmente adaptado para o português, significa andar, deambular; daí dizer “zungueira”, vendedora ambulante.
Ora, quem é ambulante, não se senta num lugar, não se fixa num ponto. Pode parar para descansar um pouco, hidratar-se, e continua a sua “zunga”, andança, apregoando os seus produtos.
Assim como em outras partes do mundo, incluindo nos países mais desenvolvidos, vendedoras ou vendedores ambulantes (zungueiras/zungueiros) sempre existiram em Angola, com os seus pregões que marcaram a infância de muitos de nós.
Não é em vão que renomados escritores e músicos os imortalizaram. Mas a venda ambulante não causava lixo, tumultos, caos no trânsito, entre outras inconveniências.
Tem que se reconhecer que a miséria em que grande parte das famílias está mergulhada, o elevado índice de desemprego, obriga a que muita gente, principalmente as mulheres, tenham que optar por vender alguma coisa para ajudar no sustento da família e essa situação vai piorando a cada dia e precisa de ser regularizada com urgência.
O anúncio do Governo Provincial de Luanda (GPL) de combate à venda desordenada e uma suposta decisão das autoridades de manter os armazéns do mercado do São Paulo encerrados por 90 dias, ou seja, por três meses, por serem os locais onde as vendedoras mais adquirem produtos para venda, assim como o impedimento de aglomerados de vendedoras em determinados largos da cidade, como o do Camama, estão a ser motivos de críticas aos mais variados níveis.
Algumas dessas críticas, embora pareçam ser a favor das vendedoras, são fruto de aproveitamentos em benefício de interesses obscuros para mergulhar o país em situações tenebrosas.
Na segunda-feira (22) as manifestantes dirigiram-se ao Governo Provincial de Luanda (GPL) e ao Palácio da Justiça com intenção de chegar à Presidência da República.
Durante a caminhada entoavam canções e gritavam críticas contra os governantes, contra a Polícia e a Fiscalização, cujos agentes têm sido, ao longo dos tempos, os grandes algozes das “zungueiras” e não só, chegando ao ponto de espancá-las, prendê-las, só para roubar o seu negócio.
Infelizmente, uma realidade que não pode ser ignorada. Porém, a intenção das manifestantes não se concretizou devido à intervenção da Polícia.
Como tem sido a justificação das vendedoras em geral, algumas mães solteiras, defendem que é por meio dessas vendas que sustentam as suas famílias, pagam a renda de casa e a escola dos filhos, e resolvem outras preocupações domésticas.
Mas enquanto uns contestam, outros são a favor da medida do GPL de acabar com a venda desordenada nas ruas. Contudo, também defendem que a mesma tem que ser acompanhada com um trabalho de sensibilização pedagógica nesta primeira fase da implementação da orientação.
Assim sendo, o primeiro período deve ser de sensibilização, de muita pedagogia. Deve-se ensinar as pessoas que podem encontrar no mercado o ponto principal de venda e não nas vias públicas, conforme tem-se assistido.
Olhar apenas para a questão de prejudicar as famílias não resolve o problema, pelo contrário vai perpetuá-lo!
É preciso evitar que continuem expostas à brutalidade dos fiscais e outros, de correr de um lado para o outro, e ficarem concentradas em mercados, o que vai ajudar a organizar as famílias do ponto de vista económico e passem a viver com mais dignidade, com uma economia formalizada, em que as famílias tenham o cartão de segurança social e estejam cadastradas, tenham uma conta bancária, um apoio de microcrédito.
Estando num mercado, ajuda mais estas famílias, estes vendedore(a)s, que poderão posteriormente formalizar os seus negócios e terão maior segurança em depositar os recursos obtidos das vendas numa instituição bancária e, por fim, procurar uma instituição de microcrédito para os alavancar.
Enquanto isso, o GPL apela aos comerciantes e público em geral, à compreensão, colaboração e obediência das orientações da fiscalização presente nas avenidas Cónego Manuel das Neves, Ngola Kiluanji e outros lugares.
De acordo com o GPL “as acções do Plano de Reordenamento do Comércio têm vindo a ser implementadas nos municípios de Belas, Viana, Cacuaco e Talatona, sendo os ganhos visíveis em toda a extensão da avenida Fidel de Castro Ruz e arredores”.
Na sequência do cronograma, findo o processo de sensibilização e cadastramento, os municípios de Luanda e do Cazenga iniciaram, no domingo (21), a implementação do plano aprovado ao longo das avenidas Cónego Manuel das Neves e Ngola Kiluanji, bem como das ruas Rei Mandume e da Gajajeira, nos distritos urbanos do Sambizanga e do Rangel.
Apesar dos 60 mil lugares disponíveis nos mercados para atender as vendedoras que exercem a actividade em locais impróprios, conforme anunciou em conferência de imprensa a porta-voz do processo, Nádia Neto, defende-se que novos espaços devem ser organizados e disponibilizados em todos municípios de Luanda, para satisfazer a demanda e facilitar a deslocação das vendedoras.
Analistas concordam que deve criar-se mais mercados, que não fiquem distantes dos locais de maior concentração populacional.
Com esta medida, o Governo Provincial de Luanda vai ajudar o Estado no processo da reconversão da economia informal em curso no país.
Nádia Neto explicou que o Plano de Reordenamento do Comércio na província de Luanda não visa o combate à “zunga”, mas sim à venda em locais não autorizados, entre os quais as ruas, os passeios e outros locais impróprios.
A responsável disse ainda que as vendedoras podem escolher os mercados onde queiram exercer a sua actividade.
Recorde-se que há cerca de um ano, num fórum realizado em Luanda sobre a Mulher Zungueira, a vice-presidente do MPLA, Luísa Damião, enalteceu as vendedoras ambulantes e considerou-as como “exemplos de determinação, guerreiras e batalhadoras por excelência”, por isso, disse, “merecem o respeito de toda a sociedade”.
A dirigente partidária disse ainda que tanto o seu partido como o seu líder estão atentos à mulher zungueira e pretendem criar mecanismos de protecção, através de uma linha de SOS, inscrição na Segurança Social para uma reforma condigna, bem como elaborar estudos profundos para a formalização dos seus negócios em todos os sectores.
Os primeiros dias não serão fáceis para quem já se habituou a vender na rua. Mas com o trabalho de todos, as coisas vão melhorar.
Igualmente é preciso que o Estado envolva outras forças vivas da sociedade para encontrar a melhor via para pôr termo a esta situação.
A sociedade angolana deve primar pelo respeito e pela valorização da "mulher zungueira", mas a sociedade também precisa ser respeitada e valorizada!







