Administração do Dande ordena a demolição de casas e deixa mais de 500 famílias ao relento
Os moradores do bairro Bucula, município do Dande, província do Bengo, estão a passar momentos difíceis, enfrentado frio e mosquito, depois verem às suas residências demolidas, no sábado, 27 de Maio, por ordem da Administração local.
Por:Alfredo dos Santos Talamaku
No acto das demolições foram observados conflitos entre a Polícia e os moradores que tudo faziam para defender as suas residências.
Segundo Zeca Domingos Vemba, Sargento das Forças Armadas Angolanas (FAA), que não foi poupado das agressões e tortura por parte dos agentes da Polícia Nacional, o bairro é legalizado, pois, o espaço foi cedido pela própria Administração do Dande aos ex-militares, no ano de 2009, para a criação de uma cooperativa agrícola.
"O bairro é legalizado, várias entidades governamentais cá estiveram em visita, hoje porque estão a construir uma centralidade frente às nossas casas têm vergonha e dizem que construímos ilegalmente na calada da noite, é uma pura mentira", explicou.
"Fui torturado, perdi os sentidos e levaram-me com os meus pertences militares para o Comando Municipal e até agora não me devolveram", denunciou.
Quem também não foi poupada das agressões, foi uma mulher em estado de gestação, de gémeos, que diz que foi torturada quando tentava socorrer o esposo, estudante da Escola Superior Pedagógica do Bengo.
“Ele já estava ferido e inconsciente, mas a polícia continuava a bater no eu marido”, lamentou, acrescentando que também não foi poupada quando socorria o esposo.
Madalena, de 31 anos de idade, que também viu a sua casa transformada em escombros, disse que a Administração agiu de má-fé, e envergonha-se de não ter feito antes um estudo para a construção da Centralidade próximo às residências.
"Agiram de má-fé, porque se envergonham de colocar uma Centralidade em frente às casas dos pobres. Nos nossos Bilhetes de Identidade constam a certificação que não somos ilegais no bairro Bucula, o administrador deve pegar os nossos documentos pessoais e ver que somos deste bairro", contou, ressaltando que dorme ao relento com o marido e três filhos.
A nossa entrevistada, disse ainda que durante uma visita aquela localidade, a então Governadora da província, Mara Quiosa deu as devidas garantias e incentivado à construção das casas, tendo deixado um tractor para a cooperativa desenvolver actividades agrícola.
As Detenções constituíram, por sua vez, parte do "episódio" vivido durante as demolições, sendo que 14 cidadãos foram detidos e ficaram cinco dias na cadeia, conforme declara o activista Jaime MC.
"Por falta de provas de agressões aos agentes da autoridade, foram postos em liberdade, o Tribunal em Caxito recusou-se a pegar no caso por erros e falta de provas, a Procuradoria-Geral da República (PGR) viabilizou, quarta-feira, 31, a libertação dos cidadãos sob pagamento de uma caução de 15 mil kwanzas", explicou.
Simão José, um dos cidadãos detidos, diz que na prisão viu sua vida em perigo devido às agressões que sofreu.
"Fomos maltratados, as agressões eram demais, eu precisava de assistência médica, mas não permitiram", contou.
De acordo com os visados, os direitos das crianças foram totalmente violados, as máquinas foram dirigidas até em residências em que se encontravam menores de idade e recém-nascidos a dormir, colocando a vida deles em risco.
O ano lectivo das crianças também está comprometido, a força das máquinas não poupou as salas de uma Escola Pública que albergava alunos do Ensino Primário, e que servia de salas de estágios curriculares dos estudantes da Escola Superior Pedagógica do Bengo.
Ana, uma adolescente se sentiu-se comovida com a presença da equipe do Na Mira do Crime, aproveitou o momento para deixar um apelo às autoridades.
"Aqui já não estamos a estudar, os meus primos em Caxito farão provas esta semana, destruíram a nossa escola e os professores foram embora, também queremos fazer as provas para passar de classe", rogou.
Este jornal sabe que o advogado de defesa dos populares, Zola Bambi, promete processar o Estado pelos danos causados à população.
"Destruíram bens pessoais e, com os danos morais causados, haverá uma acção competente; além disso, vamos instruir um processo para responsabilizar os agentes policiais pelas agressões que muitos sofreram", informou uma fonte.
O estado em que se encontram "atiradas" as famílias é de extrema preocupação, e carece de intervenção urgente das autoridades, pelo facto de as famílias desalojadas encontrarem-se em péssimas condições de habitabilidade, dormem ao ar livre, expostas a mosquitos e outros vectores, assim como o perigo de serem atacados por cobras.
Alguns moradores carecem de assistência médica e medicamentosa, por conta dos problemas de saúde causados durante a destruição das suas moradias, como é o caso de uma viúva, mãe de Isabel Gaspar, que no momento teve um AVC.
Paludismo, doenças gastrointestinais e infecções respiratórias, fazem parte das doenças que mais assolam a população daquela zona, devido à exposição aos mosquitos, consumo de água imprópria e a falta de abrigo.
Crianças e idosos fazem parte das vítimas, o que pode levar a resultados desagradáveis.
"Não sabemos o que fazer, precisamos das nossas casas, já ouvimos que a Administração vai nos dar chapas, queremos casas, gastamos muito dinheiro para a construção e não vamos aceitar que o senhor Fonseca Canga, administrador do Dande, nos engane, queremos a intervenção do Presidente da República", pediram.







