Sob orientação de um eritreu: Administração de Viana e Polícia ‘destroem’ vida de 170 famílias, jornalistas foram molestados
Num intervalo de 27 dias, 170 famílias residentes no município de Viana, distrito urbano da Vila Flor, viram as suas residências demolidas sem aviso prévio ou notificação do tribunal.
Por: Kiamukula Kanuma
Mulheres, idosos e crianças não foram poupados pelo martelo demolidor, que tinha como escudo agentes da Polícia Nacional, armados até aos dentes, comandados por Natany Machado, comandante da Esquadra da Engevia.
Várias famílias foram surpreendidas por um grupo de demolidores, por volta das 12 horas desta quarta-feira, 23, que, sob orientação de um suposto empresário eritreu, ordenava que se retirassem todas às residências daquele perímetro.
Residências construídas com muito sacrifício ao longo dos anos, levaram menos de 5 minutos para ir abaixo.
Diassonama Isabel Ndongala, diz que acordou nas primeiras horas de quarta-feira e dirigiu-se ao seu local de trabalho.
Duas horas depois, o telefone tocou, era o filho com a triste notícia “mamã estão a partir a nossa casa e todas casas do bairro, dois senhores acompanhados com a polícia”, descreveu.
Com as lágrimas a escorrerem-lhe o rosto, aos soluços, contou ao Na Mira do Crime que não acreditava no que estava a ver.
“Isso não pode ser verdade, construí esta residência com esforço próprio, sem ajuda de ninguém, sou mãe e pai de 5 filhos, foi muito gasto, levei três anos para chegar até onde cheguei”, chorou.
A senhora diz que gastou mais de 50 mil dólares para dar um teto aos filhos e, de repente, vê tudo jogado ao chão num piscar de olhos.
“Investi tudo que tinha aqui, minha casa era grande, três quartos, duas salas, dois anexos, sala e quarto, duas cozinhas e dois Wc com quintal fechado e tanque de água…”
Questionada se tem documentos do espaço, a senhora mostrou na hora a papelada. “Como pode ver, tenho aqui pedido do Direito de Superfície com data de 26.09.2022; cartão de morador; a procuração irrevogável da antiga proprietária a confirmar”, ilustrou.
Manuel de Deus outro morador que viu a sua casa demolida, explicou que, assim como a sua vizinha, recebeu o telefonema do filho por volta das 10horas, dando a conhecer a demolição da sua residência.
“Adquiri o espaço há sete anos, através da senhora Juliana Francisco Adão, antiga proprietária, ela cedeu parte do espaço aos populares, a outra é aquela onde se pode ver as mangueiras”, mostrou.
Segundo Manuel, tão logo tomou conhecimento das demolições, ligou para o advogado de Juliana Adão, e este correu até ao local.
Ao abordar um dos civis que dirigia a máquina, o homem se identificou-se como agente do eritreu, enquanto um outro alegava ser escrivão da Comarca de Luanda, 3ª secção, sem no entanto exibir algum documento.
“Procuramos saber por que o tribunal não enviou uma equipa, com uma sentença, caso houvesse algum litígio, mas eles responderam que, nestes casos não se notifica”.
Postes de energia no chão
Postes de energia colocados na zona não foram poupados pelo martelo demolidor, assim como arrancados todos os cabos eléctricos do bairro.
Michel Lindo Canjala, coordenador do bairro, diz a zona tem uma população estimada em cerca de 397 munícipes.
“Vivo aqui desde 2014, tudo era quinta, como bairro, existe desde 2015, altura que apareceu a administração e fez o registo dos populares e tornou-se Distrito da Vila Flor”, explicou, acrescentando que, sempre colaborou com administração do Distrito. “Em momento nenhum recebemos advertência ou aviso que estamos ilegais, ou que viriam aqui homens partir as nossas casa”, lamentou.
Segundo o coordenador, ouviram falar de um cidadão eritreu apenas ontem, justamente na boca do cidadão que dizia que o espaço era pertença do patrão dele, que também é o novo dono da quinta localizada a 50 metros do bairro.
“A senhora Juliana Adão ainda está viva e tem documentos, se houvesse interesse em resolver os problemas do povo, a Administração devia chamar a senhora e clarificar, onde limita o terreno cedido ao eritreu e não vir partir as nossas casas”.
Jornalistas molestados
Durante as demolições, duas jornalistas da Rádio Despertar que faziam a cobertura das demolições, foram molestadas por efectivos da Polícia Nacional, que receberam os meios de trabalho das profissionais de comunicação social, ameaçando-as com arma de fogo.







