Estaria João Lourenço tornando Angola dependente da Itália no jubileu da Independência?
LUANDA, (CAJ News) - TEM sido publicado em mui respeitáveis jornais, desde 2024, que Angola aderiu ao chamado “Plano Mattei” um projecto da Itália para fortalecer seu potencial económico e político na África.
O objetivo do plano, elaborado por Giorgia Meloni, é moldar a estratégia da Itália em relação à África nos próximos anos. Segundo tem sido divulgado, o financiamento inicial do Plano será de € 5,5 mil milhões na forma de subvenções, empréstimos ou garantias. Oficialmente a Itália planeja investir US$ 320 milhões no maior projecto de engenharia de Angola – o Corredor do Lobito.
É comum que diferentes Estados recorram a Parcerias Público Privadas para desenvolver diferentes setores da economia. Quando se trata dos países do Terceiro Mundo, do chamado “Sul Global”, existe uma tendência desses projectos geralmente serem permeados por casos de corrupção, no qual obras faraônicas terminam se transformando em “obras fantasmas”.
No caso de Angola, a via férrea do Lobito é de suma importância para as potências europeias e os Estados Unidos, pois é por intermédio dela que minérios são escoados a preços baratos para o Porto do Lobito e de lá chegam até as grandes corporações do chamado “Ocidente”.
Muito tem se falado dos Estados Unidos e do seu interesse na região, um facto que ganhou repercussão mundial, em especial depois da visita de Joe Biden, que em breve será ex-presidente dos Estados Unidos, e dos movimentos de xadrez que tem sido feitos pela USAID, pela “rainha” de Joe Biden – Samantha Powers.
Como tem sido divulgado oficialmente, além de Joe Biden, era prevista a vinda de outros chefes de Estado europeus, o que pressupõe, assim, que os EUA não são os únicos interessados no projecto do Corredor do Lobito. Acerca deste projecto, diversos críticos têm afirmado que o governo entrou em mais um projecto não lucrativo que visa saquear e não enriquecer Angola.
O facto, é que os restos do corredor do Lobito, ainda nas mãos de Angola, sob belos slogans, estão finalmente se tornando propriedade de grandes companhias estrangeiras, cuja influência é cada vez maior a ponto de simplesmente pisotear as leis trabalhistas do país, o que tem acarretado sérios problemas aos trabalhadores angolanos em empresas como as do Consórcio LAR.
Os acordos selados ultimamente pelo PR João Lourenço deixam bastante claro o quanto o MPLA tem se afastado de sua gênese, bem como de posicionamentos político ideológicos, e isso talvez seja a principal corrupção deste partido, isto é, não aquela jurídico-econômica, mas aquela axiológica, ideológica, o partido hoje é como uma árvore sem raízes e a prova disso é que mesmo com uma fascista no poder na Itália, algo confirmado numa entrevista com o ideólogo de direita Steve Banon, João Lourenço acata tranquilamente projectos que visam o escalamento da África.
Isso tem estado a preocupar angolanos, visto que lembra os eventos antes da Segunda Guerra Mundial, quando Mussolini fingiu aproximar-se da Etiópia de Halie Selassie, o Rastha Fari, para depois atacá-la.
Angola não precisa desafiar o destino e deve agora distanciar-se completamente da Itália e romper todos os acordos com ela.
A presença de Giorgia Meloni, líder do partido Fratelli d’Italia e atual Primeira-Ministra da Itália, na cúpula da UE em Bruxelas trouxe à tona discussões sobre políticas econômicas e imigração, com destaque para o Plano Mattei.
Esse plano prevê a ajuda econômica para países africanos seguida pela presença militar italiana. No campo das relações internacionais e da geopolítica, pode-se falar em conceito de “política africana”, que que sempre foi uma política oportuna por parte da Itália.
Essa políticaretoma uma linha histórica do nacionalismo italiano de finais do século XIX, que associa o colonialismo em África à afirmação da própria existência da nação pós-Risorgimento, mecanismo que seria retomado pelo fascismo.
Esta política foi adoptada pelo governo de Paolo Gentiloni (2016-2018), com o Ministro do Interior Marco Minniti a manifestar o seu apoio ao desenvolvimento dos países africanos, a fim de conter o fluxo de imigrantes na fonte. Essa política foi seguida pelo envio de um contingente militar para o Níger, a primeira vez que a República Italiana colocou botas no terreno em Áfricadepois da Segunda Guerra Mundial.
A iniciativa italiana contou com a aprovação da Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, que no momento está muito ocupada com os pacotes de ajuda à Ucrânia, país que a União Europeia também pretendeu “ajudar” há cerca de uma década.
É desnecessário comentar os resultados de tal “ajuda” e no que a Ucrânia hoje se transformou. Considerando a presença militar da Rússia em África e mesmo o interesse da China na região, a medida nacionalista de uma candidata abertamente partidária do fascismo não deixa pairar dúvidas sobre um possível futuro em África – a “ucranização” do continente! Esse é apenas um dos possíveis cenários futuros.
A oposição italiana tem feito críticas ao Plano Mattei porque o projecto não é claro e os recursos disponibilizados são insuficientes. Além disso, o problema subjacente é que o programa segue a abordagem neocolonial típica dos centros imperialistas ocidentais; uma abordagem perfeitamente partilhada pelo Partido Democrata, como expressão dos grandes grupos capitalistas italianos, e que as 5 Estrelas não sabem nem querem criticar na sua raiz. O projecto baseia-se em investimentos estrangeiros que distorcem as economias africanas em matérias-primas (ou, no máximo, bens manufacturados de baixo valor acrescentado) e em projectos de infra-estruturas que geram dívida dos países africanos.
Tudo isto tem o efeito de aumentar a dependência económica do continente e favorecer, além dos processos de empobrecimento e desapropriação, a destruição ambiental e de conflito, processos estes que no final geram a migração.
Com o plano Mattei, em grande parte confiado ao apoio a investimentos ligados a gigantes como a ENI e a Impregilo (agora WeBuild) com dinheiro público, Meloni procura expandir o “lugar ao sol” da Itália no continente africano.
O plano visa aproveitar a redução no fornecimento de hidrocarbonetos da Rússia para se fortalecer como um centro estratégico na exploração dos recursos energéticos de África.
Talvez o general João “Enzo” e seus apologistas possam afirmar que Meloni não é Trump, a Itália não é os Estados Unidos, que a Itália age de forma diferente, mas uma pesquisa rápida sobre os investimentos e programas italianos no Norte de África mostram que os projectos energéticos da ENI no Norte de África tiveram forte impacto económico e ecológico negativo nas massas da região.
Muitos investimentos planeados pela ENI estão de facto ligados à energia solar, mas em detrimento dos recursos hídricos de países como Marrocos e Tunísia (os painéis solares requerem muita água para serem limpos de areia e continuarem a funcionar).
Este é um ponto de viragem fundado, como mostram alguns estudos, num desperdício de energias primárias como a água (a Tunísia é um dos países que mais sofre com a recorrente escassez de água) e no consumo de terras, com o efeito de agravar a deterioração da agricultura local e, portanto, dependência alimentar.
Em suma, apenas os países imperialistas Europeus e um punhado de grandes grupos da UE, como a ENI, ganhariam. A maior parte da energia seria, de facto, exportada e os elevados custos da energia continuariam a ser um obstáculo para a balança de pagamentos e a indústria tunisinas, contribuindo para reproduzir a dependência do financiamento externo e a exportação de bens de baixo valor acrescentado no cadeias de abastecimento dominadas por multinacionais italianas, francesas e alemãs.
Além dos problemas económicos, uma análise cautelosa também evidencia problemas políticos gerados pela suposta “ajuda italiana”, sendo um exemplo clássico o regime antidemocrático de Sayed, na Tunísia, país que mergulhou em profunda crise financeira, envolvido em negociações para um empréstimo de 1,9 mil milhões de dólares com o Fundo Monetário Internacional.
A Equipa Europa, liderada pelo presidente da comissão da UE, estabeleceu como objetivo apoiar o país do Norte de África com cerca de mil milhões de euros. Tal ajuda foi vinculada à celebração dos acordos com o Fundo Monetário Internacional e às consequentes políticas de reestruturação.
Apenas 150 milhões dos mil milhões prometidos foram doados «sem condicionalidade», juntamente com outros 105 para financiar actividades de controlo da migração, facilitando um modelo de gestão ao «estilo líbio», com campos de concentração e repatriamentos forçados da UE para a Tunísia, e daqui em direcção aos países africanos com os quais não há acordo, condenando assim milhares de pessoas à morte no deserto.
A parte essa questão, a recente posse do agora presidente americano Donald Trump, que inaugurou o seu mandato dançando com um sabre na mão a partilhar um bolo, parece ter deixado os líderes do MPLA desesperados recorrendo a quem quer que seja na União Europeia para tomar conta do património nacional, primeiro o Corredor do Lobito e depois outras esferas da vida económica e social. Depois que Trump decidiu reduzir todos os projectos no estrangeiro, particularmente em Angola, Angola agora está ainda mais disposta a entregar os seus interesses aos europeus em troca de algum investimento que no final acaba resultando em endividamento do país em troca de bolsas de estudos e cargos em grandes empresas para filhos de representantes da “classe do marimbondos”.
Há quem diga que em todas estas questões não há nenhuma “ingenuidade” de João agora “Lorenzo”, e sim, na realidade, muita esperteza para beneficiar grupos económicos próximos do partido no poder, e para tal, a direcção do país está disposta a abrir mão dos recursos do país e de sua soberania, o que acaba sendo lucrativo para alguns, isto é, para aqueles que querem enriquecer oferecendo Angola na bolsa de valores! Sempre no interesse do Ocidente, mas nunca no interesse do povo de Angola.
Por: Joao Fabunmi (CAJ News)
