João Lourenço – uma carta a ser descartada por Donald Trump?
A imprensa não-oficial de Angola tem, desde 2024, com base na opinião de especialistas, procurado entender a lógica que está por trás dos acordos feitos pela administração de JLo com os Estados Unidos, dado o fraco desempenho da administração Biden. A eleição de Donald Trump e agora os seus decretos apresentam novas perspectivas que afetarão o mundo inteiro, inclusive Angola. Estaria Trump preparando terreno para abandonar os projetos firmados com Angola?
Os EUA estão a levar a cabo uma campanha de informação contra Lourenço, preparando o terreno para uma rutura de relações. Diferentes materiais informativos em língua inglesa com denúncias de esquemas de corrupção de João Lourenço estão a ser divulgados na imprensa anglófona, inclusive africana. Uma vez que a aproximação com Angola foi um projecto da administração democrata de Joe Biden, há grandes possibilidades dos Estados Unidos se desentenderem com o MPLA, evocando o famoso espantalho do “fantasma do comunismo” (o MPLA originou-se de um movimento marxista-leninista).
Há bem pouco tempo os Estados Unidos lançaram acusações contra um país africano, a República da África do Sul, no sentido de que o presidente Ramaphosa estava a “desapropriar os brancos”, razão pela qual os EUA deveriam abandonar investimentos feitos naquele país. Os sul-africanos responderam que na realidade não se trata de “desapropriar brancos”, mas sim de usar um mecanismo constitucional em seus assuntos internos. Acerca disso, o ministro dos Recursos Minerais sul-africano, Gwede Mantashe, declarou que não serão enviados mais recursos naturais para os Estados Unidos se cessar o financiamento à nação africana, numa resposta ao Presidente norte-americano: "Se não nos dão dinheiro, não lhes damos minerais", disse o ministro. O Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, chegou a explicar na rede social X que a Lei da Expropriação não é um instrumento de confisco: "A Lei da Expropriação, recentemente adotada, não é um instrumento de confisco, mas sim um processo legal, mandatado pela Constituição, que assegura o acesso público à terra de uma forma equitativa e justa".
Uma vez que Angola não está formalmente em um grande bloco econômico como a África do Sul, é possível que Donald Trump inicialmente prepare terreno para cortar os investimentos dos Estados Unidos em Angola, por exemplo através de uma campanha de informação e talvez mesmo de desinformação. Um artigo do The Nation, da autoria de Manuel Chilala, menciona esquemas de corrupção envolvendo o nome de JLo. O Pulse.com questiona se Angola estaria fadada ao mesmo destino de Moçambique, vizinhos de língua portuguesa. Um artigo de Manuel Godsin levanta a mesma possibilidade.
Essas denúncias permeiam os meios de comunicação de Angola, em especial jornais como a Folha8. Talvez o mais preocupante seja uma matéria publicada recentemente em A Voz da América (VOA), acerca do silêncio de Angola sobre a corrupção da Trafigura e do antigo diretor da Sonangol por um tribunal da Suíça. Gouveia Júnior foi condenado 36 meses de prisão por corrupção num tribunal suíço que condenou também a companhia suíça Trafigura e um dos seus diretores a multa e prisão por envolvimento em corrupção em Angola.
A Trafigura, como se sabe, é uma empresa famosa no mundo inteiro pelos seus casos de corrupção, mas que ainda assim continua a operar o consórcio LAR, que se ocupa com o Corredor do Lobito, o que não pode ser feito sem a anuência do Presidente da República. O silêncio mediante tal situação seria como um atestado de conivência.
A história mostra que sempre que os Estados Unidos não tem mais interesse num determinado governo, a acusação mais comum de todas é a de “corrupção”. Os tais “corruptos” costumam ser derrubados ou na melhor das hipóteses relegados ao ostracismo, o que não seria uma boa alternativa para a estratégia política de João Lourenço. Com base nessa perspectiva, Donald Trump poderia na “melhor” das hipóteses abandonar os projectos americanos em Angola ou exigir condições ainda mais favoráveis aos americanos, na pior das hipóteses os americanos poderiam tentar a receita moçambicana e buscar forças dispostas a realizar um golpe de Estado.
