O fracasso do Pacificador António de Carvalho
No ano 2024, Angop e a imprensa oficialista esforçou-se para construir a imagem do Presidente da República João Manuel Gonçalves Lourenço como o “génio da diplomacia africana”, imagem essa consolidada em parte devido à sua presidência da União Africana, em parte devido ao fato dele ter conseguido trazer um presidente americano a Angola.
Todavia, mais ainda se deve tal imagem, em parte hiperbolizada pela propaganda governamental, aos seus louváveis esforços de apaziguar os ânimos entre gregos e troianos, ou melhor, entre congoleses e ruandenses, mas há um erro cometido por JLo e seus conselheiros que poucos tomam em consideração – a natureza das relações com o Velho Mundo, o Norte Global.
Agora que a nova administração Trump dialoga com Vladimir Putin sobre a necessidade do fim da guerra na Ucrânia, os olhos das potências do Norte Global, em especial da União Europeia desta vez, voltam-se novamente para África.
Toda guerra é uma guerra por recursos, não importa qual seja a sua motivação, seja ela verdadeira ou não.
Neste sentido, se os europeus buscaram o controlo das reservas de importantes minérios e recursos nas terras ucranianas, o seu fracasso contra Putin leva o Velho Mundo a buscar recursos no continente que alimentou grande parte do progresso europeu – o continente africano.
Pensemos na Suíça, país internacionalmente conhecido pelos seus chocolates. Se alguém já experimentou o chocolate Lindt, que derrete na boca, certamente este fará as melhores associações. Entretanto, há um pequeno problema... na Suíça não existe cacau. A mesma analogia pode ser feita com a Nutella, cujas matérias-primas não são europeias. A matéria-prima dos europeus quase nunca vem da Europa, ela é em regra obtida por métodos violentos ou desumanos, nos quais a classe operária de países africanos e mesmo de países como a Turquia ou do Sudeste Asiático é implacavelmente explorada e em certos casos mesmo assassinada, caso não cumpram as quotas de trabalho definidas pelos seus senhores europeus. Assim ocorreu no Congo Belga no século XIX, quando o rei Leopoldo mutilou e executou milhares de nativos daquele país, enquanto dizia em conferências internacionais que estava “a proteger os povos africanos”.
Já é sabido e consabido que a República Democrática do Congo é fundamental para a “energia verde” dos europeus, posição essa que já tem sido apresentada por nomes como o professor Paulo Gamba, o analista geopolítico Osvaldo Mboco e outros nomes, entretanto, o que JLo e os seus assessores parecem desconhecer são os métodos usados pelos europeus para controlar os recursos minerais africanos, que no passado usavam tribos contra tribos, assim causando divisão e facilitando o seu controle. Os militares europeus não tem condições e nem interesse na ocupação de países africanos, pois sabem que estarão sempre em minoria e não encontrarão o conforto de suas metrópoles, mas seus políticos sabem que podem comprar líderes corruptos e guerrilheiros tribalistas que possam controlar áreas repletas de recursos estratégicos.
No caso da guerrilha M23, apoiada por Ruanda, há diversas questões que vão além da desestabilização da RDC, questões essas que remetem ao acordo de Paris que delimitou as fronteiras dos Estados africanos, bem como o facto de que na RDC, existe um grande problema relacionado com a minoria ruandense que vive no país, ruandenses que fazem parte da RDC.
A África tornou-se mais uma vez um campo de batalha para os países ocidentais em prol dos recursos africanos, restando basicamente duas opções, a subjugação e a venda de seus recursos a preços injustos ou a ameaça de guerra. Por mais que diferentes países, inclusive os Estados Unidos, falem na necessidade da paz entre RDC e Ruanda, isso é uma tentativa bonita de encobrir o plano europeu de aquisição de recursos africanos a baixos e injustos preços. Esse plano, por sua vez, põe em xeque a própria necessidade da utilização da via férrea do Lobito. O Corredor do Lobito só interessa aos europeus para escoar matérias-primas baratas, por sua vez, se essas matérias-primas não forem baratas ou não forem extraídas, o Corredor perde seu valor aos olhos de investidores estrangeiros. No contexto da desestabilização da RDC, a continuação do Corredor do Lobito fica posta em dúvidas, uma vez que Trump congela a afetação de recursos e a guerra rebenta no país de onde é exportada a maior parte dos recursos.
Nomes como o Dr. Joseph Sany têm falado na necessidade de se estabelecer a paz entre a RDC e Ruanda, bem como Angola tem feito esforços para que ambos os Estados cheguem a uma situação de paz, entretanto, essa situação deixa claro que João Lourenço, que tanto buscou a imagem de um pacificador em África, falhou. Rebentou um conflito armado entre a RDC e o Ruanda, e JLo continua a pensar como vender Angola ao Norte Global por mais dinheiro, para que seu falho plano de “tornar Angola grande”, às custas de uma via férrea que não beneficia Angola, possa elevar os seus índices de aprovação.
