Nota da semana: Ausência de comandantes municipais em Luanda com "pulungunza" deixa vazio na liderança - Conveniência na escolha tirou o mérito do trabalho
Há uma realidade que já começa a chamar atenção e que levanta questões sérias sobre a forma como a segurança pública está a ser liderada a nível dos municípios em Luanda.
Hoje, em muitas operações policiais, apreensões e apresentações de casos, os rostos mais visíveis são os efectivos do Serviço de Investigação Criminal (SIC) e da Direcção Nacional de Investigação e Ilícitos Penais (DIIP) do Comando-Geral da Polícia Nacional. São eles que aparecem, falam, explicam e apresentam resultados.
Por: Rebelo Spínolola
Com o tempo, isso criou um cenário curioso e preocupante. Em vários casos, um efectivo do SIC ou da DIIP torna-se mais conhecido do público do que o próprio comandante municipal.
Isto acontece porque o comandante, que deveria ser a principal autoridade policial no município, tem estado pouco presente no terreno e nas operações. Dito de outro modo, quando não aparece, não fala e não assume, perde visibilidade, perde ligação com o trabalho operativo e acaba por ficar fora do reconhecimento público.
Convém recordar um ponto essencial, ou seja, o comandante municipal não é apenas uma figura administrativa. É também o delegado do Ministério do Interior no município. É, na prática, a principal autoridade da segurança local. Por isso, deveria ser o rosto mais visível em tudo o que envolve operações relevantes no seu território.
Mas o que se verifica, em muitos casos, é o inverso. Sim, porque o protagonismo operacional e comunicacional passou a estar associado ao SIC e à DIIP. E isso, embora não retire mérito ao trabalho dessas estruturas, acaba por expor um vazio de liderança ao nível dos comandos municipais.
Em municípios como Mulenvos, Cazenga, Cacuaco, Viana, Samba, Maianga e Belas, onde os desafios de segurança são constantes, essa ausência pesa ainda mais. São territórios que exigem comandantes presentes, visíveis e com autoridade clara no terreno.
A consequência, como é de esperar , é evidente. A figura do comandante perde força pública. O cidadão passa a identificar mais facilmente os operativos da investigação criminal do que a própria autoridade territorial responsável pela segurança.
Não se trata de protagonismo pessoal, mas sim de liderança institucional. Ou seja, quando quem manda não aparece, alguém ocupa o espaço. E, neste caso, esse espaço está a ser ocupado por estruturas operacionais que não foram criadas para substituir a figura do comandante municipal.
Não foi sempre assim, isto é, já houve uma fase em que o comandante municipal tinha rosto, presença e impacto. Em IColo e Bengo, por exemplo, quando esta extensão territorial ainda fazia parte da capital do país, Gabriel Capusso não precisava de anunciar a sua presença, porque se sentia.
No Cazenga, João Karik assumia operações,
Comandante como Gonçalves, do Sambizanga, Massala no Cazenga, Notícia na Maianga, independentemente da antiga Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC) ou a Unidade Operativa de Luanda (UOL) ser na altura a responsável das respostas aos crimes violentos, estes nomes impunham respeito e eram comandantes "de facto".
Havia comandante efectivo, com todos os defeitos que qualquer liderança pode ter, mas havia presença e responsabilidade.
Hoje por hoje, o nome do comandante pesa na balança, a filiação tornou-se factor de promoção, já não se trabalha por amor, os jovens comandantes estão mais preocupados em fazer às unhas e se exibirem perante as namoradas. Não sabem saber o que é despertar à madrugada para interagir com os munícipes, até têm rádios de comunicação, mas no volume mínimo.
E, ao nível provincial, Quim Ribeiro representava um tipo de liderança que puxava pelos níveis abaixo. Havia exigência, acompanhamento, ou seja, uma cultura de presença que obrigava os comandantes municipais a estarem onde deviam estar.
Hoje, essa cultura perdeu-se e, em muitos casos, instalou-se um conforto perigoso, o conforto do gabinete, o conforto da patente. Em suma, o conforto de um cargo que é ocupado, mas não plenamente exercido.
A solução não passa por retirar mérito ao trabalho do SIC ou da DIIP, mas sim reforçar a presença dos comandantes no terreno, garantir que assumem operações relevantes e devolver visibilidade à autoridade que, por função, lhes pertence.
em muitos casos, o que se vê são comandantes sem carisma, sem presença e sem capacidade de mobilizar. Mais preocupados com a patente, com a exibição do posto, do que com o exercício real da função.
Estes, ao contrário do que se pensa, não são respeitados pelos efectivos, por isso não são tidos nem achados, e se não fosse pela patente e a hierarquia que é exigida na classe castrense, seriam tratados como meros colegas. E a mais alta patente da província de Luanda "Comandante Nelito", que tome boa nota, 80 por cento dos comandantes municipais em Luanda, não merecem o cargo que ocupam. Estão aí por conveniência.
O comando transformou-se, para alguns, numa posição confortável, distante do terreno e das suas exigências.
Vai-se às operações, às apreensões, às acções no terreno e o cenário repete-se. Quem aparece são os efectivos do SIC, da URP e da DIIP. Estes dão a cara, falam e assumem. E os comandantes? Ficam de fora.
O mais preocupante é que isso já começa a ser normalizado. Como se fosse natural que o comandante não apareça e que como se fosse aceitável que a liderança se faça à distância.
Parace que há mais competição entre o Serviço de Investigação Criminal e a Direcção Nacional de Investigação de Ilícitos Penais na apresentação de resultados do que propriamente uma cadeia clara de comandantes a nível dos municípios. Dito de outro modo, vê-se disputa na comunicação, protagonismo na exposição dos casos, mas não se vê o comandante a afirmar liderança no espaço que lhe pertence.
Aliás, em todas as apresentações de resultados operativos que o Na Mira do Crime acompanha ao nível dos comandos municipais, a presença dos comandantes é zero.










