URP-Luanda: entre o reconhecimento popular e o abandono institucional
Num tempo em que muitos preferem olhar apenas para os erros da polícia, também se torna necessário reconhecer quando existem efectivos que trabalham no terreno, enfrentam criminosos perigosos e ajudam a devolver algum sentimento de segurança à população. O positivo da semana vai para a Brigada Moto da Unidade de Reacção e Patrulhamento de Luanda (URP-LUANDA).
Por: Rebelo Spínolola
O próprio título encaixa quase de forma cruel na realidade desta unidade. De um lado, existe reconhecimento popular cada vez mais visível. Do outro, permanece uma sensação de abandono institucional difícil de esconder.
Basta acompanhar alguns relatos divulgados nos últimos meses para perceber o tipo de realidade enfrentada diariamente por estes agentes. Perseguições a marginais armados, intervenções rápidas em assaltos na via pública, operações em zonas críticas da cidade e confrontos directos com criminosos que hoje já circulam com armas de guerra, sem qualquer receio das autoridades.
Em Fevereiro deste ano, efectivos da Brigada Moto envolveram-se numa perseguição na Via Expressa contra suspeitos ligados a assaltos armados. Houve troca de tiros e um dos indivíduos acabou morto durante a operação.
Moradores daquela zona relataram que os assaltos naquele percurso já começavam a criar medo constante entre automobilistas, sobretudo durante a noite.
Dias antes, outra perseguição motorizada terminou com dois suspeitos abatidos depois de reagirem contra os agentes com uma arma do tipo AKM de cano serrado, após um assalto cometido no Cazenga. Casos semelhantes tornaram-se frequentes em Luanda, uma cidade onde muitos criminosos já actuam praticamente sem medo de confronto com a polícia.
A população acompanha esses episódios. O povo percebe quem realmente aparece quando há perseguições, assaltos ou situações de emergência.
Reconhecimento popular não nasce em discursos oficiais, nem em campanhas de imagem. Surge quando o cidadão sente presença policial efectiva na rua.
O portal Na Mira do Crime já destacou várias vezes a actuação da Brigada Moto da URP, sobretudo em operações contra marginais armados no Hoji-ya-Henda e noutras zonas críticas da capital.
Em muitos comentários feitos nas redes sociais, cidadãos chegam mesmo a pedir valorização urgente da unidade, demonstrando respeito pelo trabalho desenvolvido no terreno.
Existe uma razão simples para isso. Enquanto muitos efectivos permanecem limitados a operações burocráticas ou acções de pouca exposição, a Brigada Moto tornou-se uma das poucas forças policiais que realmente entra em perseguições rápidas, enfrenta criminosos armados e responde em zonas onde a criminalidade urbana se tornou agressiva e imprevisível.
Luanda conhece bem a realidade dos assaltos praticados por grupos motorizados. Grande parte dos cidadãos já viveu, testemunhou ou conhece alguém que foi vítima desse tipo de crime.
Muitos desses marginais actuam armados, violentos e preparados para matar em plena via pública para roubar um telemóvel, uma viatura ou alguns milhões de kwanzas.
Nesse cenário, a Brigada Moto da URP passou a ocupar uma posição quase simbólica para muitos cidadãos. Para algumas pessoas, ouvir o som das motorizadas da brigada já representa sensação de alívio em determinadas zonas da cidade.
A outra metade do título revela a parte mais desconfortável da realidade. Enquanto a população aplaude, muitos destes efectivos continuam a trabalhar sem equipamentos suficientes para enfrentar criminosos fortemente armados. Capacetes adequados, coletes balísticos e melhores meios de protecção ainda parecem luxo para homens que diariamente arriscam a própria vida.
A contradição impressiona. O Estado exige coragem, rapidez e resultados, mas em certos momentos oferece aos agentes pouco mais do que motorizadas, boa vontade e fé para enfrentar marginais armados até aos dentes.
Há algo profundamente injusto nisso. Um efectivo que participa regularmente em perseguições armadas não devia preocupar-se se o colete consegue ou não parar uma bala. Um comandante operacional não devia continuar anos sem valorização compatível com o nível de responsabilidade que assume.
Também chama atenção a situação do comandante da brigada, referido como Subinspector há já bastante tempo apesar da responsabilidade operacional que exerce. Trata-se de uma patente intermédia dentro da estrutura policial, normalmente associada a funções de supervisão limitada. No entanto, quando se observa o nível de coordenação, liderança e risco exigidos no comando da Brigada Moto, torna-se legítimo questionar se essa patente ainda corresponde ao peso real das funções desempenhadas.
A própria natureza da unidade exige liderança firme, capacidade táctica e comando operacional permanente. Não se trata de um gabinete administrativo onde os maiores perigos são papéis acumulados na mesa ou ar condicionado avariado. Trata-se de uma brigada que diariamente coloca homens em perseguições, confrontos armados e operações de elevada tensão.
Nesse contexto, muitos defendem que a promoção para este quadro seria mais coerente com as funções efectivamente exercidas pelo responsável da brigada.
A responsabilidade operacional assumida no terreno já ultrapassa, há muito tempo, aquilo que normalmente se espera de um Subinspector.
A comparação acaba inevitável. Em certas instituições, quadros administrativos conseguem progressões rápidas sem nunca sentir a pressão das ruas. Enquanto isso, homens que enfrentam criminosos armados, lideram perseguições e arriscam a vida em plena capital continuam esquecidos dentro da própria estrutura que ajudam a proteger.
Valorização não deve acontecer apenas em discursos de parada policial ou em cerimónias ocasionais. Quem combate criminalidade violenta no terreno precisa sentir que o Estado reconhece o risco que corre diariamente.
Nenhuma sociedade séria combate criminalidade apenas com discursos bonitos. Segurança pública exige homens preparados, equipados, motivados e valorizados. Ignorar isso é continuar a pedir sacrifícios extremos a agentes que todos os dias saem para proteger pessoas que muitas vezes nem conhecem.
Talvez seja exactamente aí que o título faça ainda mais sentido. A Brigada Moto da URP Luanda vive hoje entre dois extremos. O reconhecimento popular de quem vê resultados nas ruas e o abandono institucional de quem, apesar de arriscar a vida diariamente, continua à espera de melhores condições, valorização e respeito proporcional ao trabalho que realiza.










