Nota da semana: Quem é João Ernesto dos Santos "Liberdade" a quem João Lourenço "rende continências" e não se verga com o tempo?
Há percursos que, de tão longos, deixam de ser apenas trajectórias e passam a ser testes de coerência do próprio sistema. João Ernesto dos Santos "Liberdade" não é apenas um quadro experiente. Dito de outro modo, é um caso que obriga a revisitar etapas e a fazer contas ao tempo e aos resultados.
Por: Rebelo Spínolola
Durante décadas à frente do Moxico, num período em que José Eduardo dos Santos concentrava o poder, ele consolidou-se como uma figura estável numa província tudo menos estável. A pergunta que fica não é se houve governação, mas sim que tipo de transformação ou legado deixou.
O Moxico saiu desse ciclo mais integrado, mais acessível, com melhores indicadores sociais de forma consistente? Ou continuou refém do isolamento, das limitações em infra-estruturas, da fraca mobilidade e da dependência de decisões centrais? Houve avanços, sim, mas será que
foram proporcionais ao tempo de permanência e ao potencial da província? Quando se governa durante tanto tempo, o mínimo que se espera não é apenas presença. É legado.
E se o legado não é claro, a promoção levanta interrogações inevitáveis. Já sob liderança de João Lourenço, o mesmo quadro assume o Ministério da Defesa Nacional, numa fase em que o sector foi fundido com os Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria. Uma decisão com peso político, histórico e social. A fusão exigia visão estratégica, capacidade de articulação e, sobretudo, resultados visíveis.
Mas que ganhos concretos se tornaram evidentes? Houve melhoria estrutural nas condições dos antigos combatentes? Houve reformas profundas no funcionamento do sector da defesa? Houve modernização clara, com impacto perceptível para além dos relatórios institucionais?
Ou assistiu-se apenas a uma gestão de continuidade, sem ruptura significativa, num sector que, pela sua natureza, raramente é escrutinado com profundidade?
E, ainda assim, o percurso não abranda. Pelo contrário, culmina com a nomeação para ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança do presidente da República , substituindo Francisco Pereira Furtado.
Aqui a contradição torna-se mais visível. O próprio João Lourenço construiu parte do seu discurso político na necessidade de renovação geracional. Estamos a falar de rejuvenescimento, vários ministros nomeados nos últimos anos reflectem essa aposta em quadros mais jovens, com outra energia, outra leitura do país e, teoricamente, maior capacidade de adaptação.
Na Casa Civil do Presidência da República, essa linha foi evidente. Apostou-se em juventude, ou seja, em rostos menos marcados por ciclos anteriores.
Mas na Casa Militar, um dos núcleos mais sensíveis do poder presidencial, a escolha seguiu na direcção oposta. Porquê? Eis a questão que não quer calar .
Se a lógica é renovar, por que razão a área militar e de segurança continua reservada aos mesmos perfis de sempre? Se a confiança é o critério, ela não pode ser construída também em quadros mais jovens? Ou há sectores onde a renovação simplesmente não entra?
Talvez a resposta esteja no medo de arriscar onde o controlo é absoluto. Talvez esteja na crença de que a experiência, mesmo sem resultados claramente mensuráveis, ainda pesa mais do que qualquer tentativa de mudança.
Mas isso levanta um problema maior, já que se os sectores mais estratégicos permanecem fechados à renovação, então que tipo de mudança está, de facto, a ser feita? Por outra, se o histórico no Moxico não produziu um salto inequívoco de desenvolvimento e se no Ministério da Defesa não se destacam reformas transformadoras amplamente reconhecidas, com base em que expectativa se projecta o desempenho na Casa Militar? Quando cargos mudam, contextos mudam, mas o padrão de decisão deveria evoluir. Caso contrário, a renovação corre o risco de ser apenas estética. A experiência, quando não é acompanhada por resultados claros, deixa de ser uma mais-valia e passa a ser apenas permanência.
Quem é, afinal, João Ernesto dos Santos Liberdade dentro deste sistema?
É um quadro técnico de excelência, cuja competência justifica a permanência contínua em posições estratégicas?
É um homem de confiança, cuja lealdade ao poder o torna indispensável em momentos sensíveis?
Ou é o reflexo de um modelo político onde certos nomes simplesmente não saem de cena, independentemente dos resultados?









