Nota Da Semana: A província do lixo, do mau Cheiro e da Incompetência De Auzílio Jacob
A nova província do Icolo e Bengo ainda nem aqueceu a cadeira da governação e já conseguiu um título humilhante: a província mais suja do país.
Do Zango 0, 1, 2, 3 e 5, propriamente nas oito mil construções, o povo já não vive entre ruas. Dito de outro modo, vive entre montanhas de lixo, mosquitos, ratos e um cheiro que parece anunciar uma epidemia.
Por: Rebelo Spínolola
Tudo isto porque alguém, sentado num gabinete climatizado, achou inteligente rescindir o contrato com a Vista Waste, empresa responsável pela recolha de lixo, à semelhança da Elisal em Luanda, sem garantir, antes, uma alternativa imediata e funcional.
Em muitos bairros, moradores afirmam que os camiões passam em determinadas zonas apenas para despejar resíduos e retirar contentores. Verdade ou não, o impacto político já existe, porque quando um Governo perde o controlo da comunicação, rapidamente perde também o controlo da confiança popular.
Isto não é coragem administrativa.
É , a nosso ver , irresponsabilidade com selo governamental. Hoje, há relatos de contentores a serem retirados pela própria empresa, lixo despejado directamente no chão e bairros inteiros transformados em autênticas lixeiras públicas. Uma vergonha total.
Mas o mais impressionante é o silêncio confortável do governador Auzílio Jacob diante de uma crise que cresce mais rápido do que os seus discursos. Numa fase pré-eleitoral, em que qualquer governante experiente procura aproximar-se do povo, ouvir críticas e demonstrar sensibilidade social, os relatos populares apontam precisamente para o contrário: distância, rigidez e uma postura considerada pouco humilde no tratamento aos munícipes.
Afinal, quais foram os critérios que levaram à nomeação de Auzílio Jacob para governar uma província com desafios tão complexos?
Estamos a questionar, porque governar uma província recém-criada exige muito mais do que ocupar um cargo. Exige capacidade de liderança, visão estratégica, inteligência política,
sensibilidade social e, acima de tudo, competência para antecipar crises antes que elas se transformem em caos público.
Recentemente, o vice-presidente do Partido Liberal, Daniel Pereira, reagiu publicamente à situação, criticando a degradação do saneamento no município do Calumbo e chamando atenção para a quantidade de lixo acumulado na Centralidade. A sua intervenção expôs aquilo que qualquer cidadão já vê sem esforço: o lixo está lá, não é teoria, não é narrativa, isto é, realidade diária.
E ele não está sozinho nessa leitura. Outros dirigentes políticos e actores locais também têm vindo a alertar para a mesma situação, levantando preocupações sobre riscos sanitários e a falta de resposta eficaz por parte das autoridades provinciais.
Governar não é distribuir arrogância enquanto crianças brincam ao lado de lixo acumulado, governar é resolver problemas.
Até agora, o único crescimento visível nesta província é o crescimento do lixo. O governador parece ignorar que o Icolo e Bengo não possui hospitais suficientes nem estruturas sanitárias preparadas para enfrentar um eventual surto causado por esta bomba ambiental. Quando começarem os casos de cólera, malária, diarreias e outras doenças, talvez descubram que lixo não se combate com conferências de imprensa.
Aliás, Angola já assistiu à queda política de governantes por muito menos. Em 2015, Graciano Domingos ficou marcado pela degradação de Luanda e pelo caos do lixo. Joana Lina, em 2021, também foi duramente criticada quando a capital ficou sufocada por resíduos após decisões mal calculadas sobre empresas de saneamento.
A diferença é que Luanda, pelo menos, é a capital. O Icolo e Bengo nem sequer teve tempo de se organizar, ou seja, nasceu hoje e já fede a abandono.
A pergunta que o povo faz é legítima: o que mais falta acontecer para que haja responsabilização? Ou será que agora a estratégia é esperar que a população se acostume ao lixo da mesma forma que já se acostumou às promessas?
O mais revoltante é que o problema tem solução e nem exige milagres. O Governo Provincial devia, urgentemente g arantir uma empresa substituta antes de romper contratos essenciais, criar um plano emergencial de recolha diária de lixo; colocar contentores suficientes nas zonas críticas, fiscalizar empresas e administrações locais; investir seriamente em saneamento básico; parar os discursos políticos e começar a trabalhar.
Nenhuma província se desenvolve afogada em lixo e nenhum governante merece aplausos enquanto o povo respira mau cheiro, vive cercado por resíduos e corre riscos de saúde todos.
Há quem diga que o lixo é passageiro. No Icolo e Bengo, pelos vistos, já começou a ganhar residência fixa e, se continuar assim, daqui a pouco só falta o lixo começar a pedir bilhete de identidade da província.











