Justiça por mãos próprias: Moradores do Calemba 2 acusam Polícia de mandar a população "resolver" os crimes
Tornou—se hábito, em alguns bairros de Luanda e, quiçá, em todo país, irmos verificando casos em que cidadãos aflitos socorrem—se à polícia para intervir em assaltos ou para simplesmente manter a ordem e a tranquilidade, mas que esta aparece tardiamente e, noutros casos, nem sequer aparece.
Por: Lito Dias
No entanto, a relação entre o cidadão e o polícia fica algo azeda, quando os papeis são invertidos. Ou seja, liga—se à polícia para dar a conhecer uma determinada ocorrência e esta alega não ter meios de locomoção e delega a população a apanhar o marginal e "resolver", para depois o SIC recolher o corpo.
Saturados com esta atitude de alguns efectivos da polícia que se despem das suas funções, estão os moradores do bairro Calemba 2, afecto ao município do Kilamba Kiaxi que exigem mais responsabilidade da corporação.
"Até pode faltar meios, mas que não nos mandem matar todos os gatunos que apanhamos", manifestou o ancião António Durão Saraiva, para quem, a atitude da polícia, nesse quesito, tem sido reprovável.
Mostrando—se conhecedor da lei, o ancião diz quem quem rouba pode ter fome, por isso a sua pena "não deve ser morte".
Sofia Augusto, outra moradora que diz ter testemunhado a sua prima a ser violada por marginais, defende severidade na punição de todos marginais para desencorajar aqueles que pretendem seguir o mesmo caminho.
"Uma pena de prisão é ideal, desde que, enquanto estiver a cumprir a pena seja reeducado e não apenas ocupar espaço na cela”. Disse ainda que o receio da população é de ver criminosos "que só vão para prisão passear, alguns dias depois são vistos nos bairros a cometerem os mesmos crimes e a vingarem—se daqueles que, presumivelmente, os teriam queixado”.
Levou pouco tempo para que a população do Calemba 2 percebesse, na verdade, o que é "resolver", mas, aos poucos, foi se implementando essa directiva, bem ou mal, deixando para trás um histórico de pelo menos 14 jovens que, depois de agarrados pela população, foram amarrados e queimados até à morte.
"Se de um lado, a Polícia, por falta de meios manda os moradores "resolverem", o que quer dizer matar, por outro lado está a própria população que, cansada de vários assaltos, descarrega toda a sua fúria sobre os meliantes, uma vez apanhados", ajuizou.
Para Conceição Longa, deviam ser queimados apenas aqueles considerados altamente perigosos, embora reconheça que, em determinadas situações, seja difícil distinguir o perigoso do menos perigoso.
"Quem anda com arma de fogo é perigoso, quem anda com catana e facas também é porque todos podem matar; o tipo de crime que cometer é que vai determinar o seu destino", referiu.
Acrescentou que, tratando—se apenas de alguém que tentou colocar—se dentro de uma residência para comete o crime, "ai, sim, deve haver alguma condescendência".
"FAMÍLIAS COM FILHOS QUEIMADOS ESTÃO TRAUMATIZADAS"
Enquanto alguns cidadãos aplaudem a ideia de, em arrepio da lei, incinerar pessoas vivas que tenham cometido crimes, os outros só pedem que a polícia faça o seu papel.
Segundo o ancião César Brás, não importa o crime que tenha cometido, mas ver o seu ente—querido queimado "é traumatizante". Hoje em dia, acrescentou, temos famílias que já não são as mesmas depois de verem o seu filho carbonizado.
Para ilustrar, apontou o nome da senhora Joana, mãe de Yuripí, um jovem queimado há mais de um ano, que depois de ver o seu filho a ser amarrado e ele a suplicar para que não o matassem, ficou não só traumatizada, como também apanhou um AVC, alguns dias depois.
"Já imaginaram como é que fica aquele jovem que presenciou o seu irmão a ser queimado?", questionou, concluindo que se a polícia jogar o seu papel, "não será necessário seguir essas práticas; até porque em Angola não há pena de morte".











