Com a Polícia a ver fumo: Moradores fogem do Belo Monte e abandonam suas casas
Os moradores do bairro Belo Monte, no município de Cacuaco, estão a abandonar as suas residências em função da onda de crimes que, dia após dia, vai subindo naquela zona de Luanda. Segundo a denúncia dos moradores, a falta de policiamento, depois da morte do comandante local da Polícia Nacional aumentou o crime e o seu desespero, sendo que agora, a solução é procurar por zonas mais seguras para viver.
Por: Patrícia da Silva
Que o município de Cacuaco é fértil na ocorrência de crimes todo mundo já sabe. Todos os angolanos, pelo menos os que vivem, em Luanda, sabem que em alguns bairros deste município piscatório, os agentes da Polícia Nacional não entram.
Pelo menos, dois desses bairros são, o Paraíso e o Belo Monte, onde os nomes dos respectivos bairros contradiz, na prática, o que os pacatos cidadãos vivem diariamente.
Segundo apurou o Na Mira do Crime, nesses dois bairros há histórico da morte de agentes da Polícia Nacional em serviço, durante investidas dos marginais.
Se no Paraíso, três efectivos da Polícia Nacional que exerciam a difícil missão de garantir à ordem e à tranquilidade foram assassinados por disparos contra a esquadra móvel onde se encontravam, no recuado ano de 2013, no Belo Monte, o Comandante da Esquadra da Boa-Fé, no município de Viana, Inspector-Chefe, Manuel António Luamba perdeu a vida, vítima de assassinato com arma de fogo, efectuado por marginais, durante um trabalho de patrulhamento no bairro Belo-Monte.
Estas situações deixaram aterrorizados os munícipes daquela circunscrição de Luanda, em função das acções levadas a cabo por vários grupos de marginais que actuam naquela zona.
Helena Mateus, por exemplo, contou ao NA MIRA DO CRIME que abandonou o bairro por falta de segurança.
“Os marginais vêm na calada da noite e, por saberem que a Polícia não vai aparecer arrombam as portas, roubam, violam e fazem tudo que quiserem, sem a mínima preocupação de serem detidos em flagrante delito”, explicou, sublinhando que, caso haja alguma resistência dos moradores, os meliantes entram pelo tecto das residências ou arrombam as paredes para entrar.
“Aqui na rua da Paz, por exemplo, tem uma casa de um vizinho onde os meliantes vêm de noite e estão a partir os cabocos para roubarem os ferros. Mas nenhum vizinho se atreve a sair àquela hora, para tentar intervir, porque nunca se sabe o que pode nos acontecer”, sustentou.
Por este facto, acrescenta, “a maior parte dos moradores está a abandonar o bairro e procurar outras zonas seguras para morar com a família porque aqui mesmo está mal”, disse, apontando algumas dificuldades que levam a esquadra do Ângelo, por sinal, a única naquelas imediações, a não efectuar um patrulhamento mais efectivo do bairro.
“A esquadra não tem carro, e tem poucos polícias. Até os bandidos, as vezes são em maior número que os agentes. Quem quer morrer atoa?”, questiona.
População insegura no Paraíso
De acordo com um dos funcionários da comissão de moradores do bairro Paraíso, os marginais ali são os donos do bairro.
Eles violam, espancam e, se quiserem podem matar quem quer que seja sem medo de uma actuação da Polícia.
“A situação aqui não está fácil. Os assaltantes andam armados e dispostos a tirar a vida a quem mostrar alguma resistência no momento em que eles estiverem a satisfazer as suas vontades”, disse o funcionário comissão de moradores que preferiu não ser identificado por temer represálias dos ‘amigos do alheio’.
Já o munícipe, Adolfo Garcia, um dos mais antigos do bairro, descreveu o bairro como um lugar sem nenhumas condições de habitabilidade e que só residem ali por não terem outra alternativa.
“Assistimos os marginais a assassinarem dois moto-taxistas por eles se terem recusado a entregar as suas motorizadas. Apesar de termos fugido quando efectuaram os primeiros disparos, regressamos para os ajudar assim que se retiraram e clamámos pela intervenção da Polícia Nacional, mas ninguém apareceu”, declarou.
De acordo com o munícipe, disse ainda que há altura em que os policiais são chamados à intervir, com a possibilidade de apanhar os marginais em flagrante delito, mas estes se recusam a comparecer naquele exacto momento por falta de meios.
A título de exemplo, contou o caso de uma vizinha, cuja moradia está colada com a sua, que estava a ser assaltada de noite por um grupo de marginais e, na esperança de que os agentes da Polícia exercessem o seu papel, ligou para um deles, mas foi informado que não seria possível serem socorridos àquela hora.
Bairro completamente inóspito
Para além da criminalidade que está em alta, a outra coisa que mais preocupa os moradores é a falta de água canalizada ou de chafarizes, como alternativa, e ainda a energia eléctrica.
No caso de algum morador passar mal na calada da noite, a solução é acorrer a alguns dos postos médicos mais próximos e, momentos antes de sair de casa, clamar à Deus pela protecção do enfermo e também para que os afaste dos marginais.
Os moradores foram unânimes em afirmar que os marginais impuseram uma espécie de recolher obrigatório, tendo em conta que todo o mundo deve estar no interior das suas residências a partir das 18horas e aqueles que procederem de modo contrário estão sujeitos a serem assaltados ou até mesmo mortos.
Para melhor facilitar o trabalho de controlo do bairro Paraíso, a comissão de moradores optou por dividi-lo em 11 sectores (cada um deles recebeu um nome) ou duas comunidades. A primeira recebeu o nome de Paraíso Maria do Céu e Paraíso Bakongo, por ser maioritariamente habitado por indivíduos deste grupo étnico.
Segundo apurámos, foi nesta área onde ocorreu um dos crimes que mais abalou a sociedade no último fim-de-semana.
‘Kupapatas’ entre as principais vítimas
Os adolescentes e jovens que fazem o serviço de táxi com motorizadas, vulgo Kupapata, são descritos pelos moradores como sendo as principais vítimas dos ‘amigos do alheio’. O jovem Paulo Marcelino, de 25 anos, dos quais três no exercício desta actividade, esteve prestes a chorar ao ser indagado se poderia especificar a quantidade de amigos e colegas que perderam a vida, por se terem recusado a entregar a motorizada.
Ele contou que já foi vítima de assalto à mão armada por duas vezes. Na primeira conseguiu reaver a motorizada com a ajuda da comunidade e, na segunda, não teve a mesma sorte.
Descreveu que os marginais usam frequentemente duas técnicas, a primeira consiste em mandar parar o motorista, apontando-lhe uma arma de fogo ou branca e exigem a entrega da mesma em troca da vida do condutor. Caso ele não mostre nenhuma resistência, é liberado sem qualquer ferimento.
Noutras ocasiões, descem até a paragem e fazem-se passar por clientes. Escolhem o moto-taxista que tem a motorizada mais nova para o levaram até o interior do bairro, num local onde já tem os seus comparsas aguardando para dar o bote.
Ao chegar lá o mototaxista é rendido no momento em que se prepara para entregar o troco ao suposto cliente.
Naqueles casos em que a vítima não é o proprietário da motorizada, a sua família e a do seu patrão, reúnem-se e estabelecem um acordo para a mesma ser paga, uma vez que, segundo eles, a Polícia Nacional dificilmente consegue reaver estes meios e proceder à devolução ao seu respectivo dono.
‘Mulheres’ fazem o patrulhamento no Belo Monte
Por formas a lutar contra a criminalidade crescente no Belo Monte, um grupo de donas de casa decidiram fazer o patrulhamento da zona.
Munidas de apitos e paus, numa espécie de ‘Turma do Apito’ feminina, este grupo pretende fazer aquilo que a Polícia Nacional tem estado a desconseguir: trazer a tranquilidade de volta ao Belo Monte.
“Se a Polícia não consegue entrar aqui no bairro temos de ser nós, que vivemos aqui, a nos proteger dos bandidos. Esperamos que os nossos comandantes considerem o pedido que estamos sempre a fazer, que é colocar também as FAA nessa luta da criminalidade”, solicitaram, sublinhando que, em tempos idos, na época do Comandante Panda, já havia uma intenção dos militares ajudarem a Polícia Nacional no combate à criminalidade, mas que, por mais que a ideia fosse boa, não chegou a conhecer a luz do dia.
‘Kupapatas’ para patrulhamento no Paraíso
Entretanto, recentemente a Polícia Nacional atribuiu algumas motorizadas de três rodas, vulgarmente conhecidas como, ‘Avô Veio’, Kaleluya’ e ‘Kupapatas’ para que os agentes possam fazer o patrulhamento no Bairro Paraíso onde as vias de acesso são bastante acidentadas.
Embora a medida visa esteja eivada de boas intenções, já que poderá dotar o referido bairro da presença policial, para os populares e alguns agentes da Polícia Nacional, os meios rolantes colocados à disposição do efectivo não é o mais apropriado, numa altura que os marginais poderão estar a usar outros meios mais sofisticados, como motorizadas Yamaha YB, FZ ou até mesmo as motorizadas Lingken que são recebidas à força aos moto-taxistas.
“É preciso dotar a Polícia de meios técnicos que dão medo aos meliantes e não estes que até dão graça e vira motivo de zombaria para a tropa, numa altura que os comandantes andam de Lexus e grandes Toyotas Prados”, apontara, alguns agentes.











