Marginais atormentam moradores do Calemba 2
Nos últimos dias, a vida no bairro Calemba 2, município do Kilamba Kiaxi, deixou de ser pacífica, porque os meliantes tomaram conta da vida dos moradores, assaltando, roubando e violando mulheres.
Por: Lito Dias
Há dois anos, ou melhor, antes da pandemia, a situação já esteve pior, com a morte dos principais cabecilhas dos grupos mais perigosos, alguns dos seus componentes tiveram de emigrar para outros bairros, nas agora parecem ter regressado e reiventado as suas práticas.
Nas paragens, é onde esses cidadãos, maioritariamente jovens, mais asssaltam, com recursos à armas brancas e até de fogo.
Lopes Mazaza é um desses cidadãos que, na luta desenfreada pelo táxi perdeu a pasta de documentos e todos dinheiro que havia levado. "À porta do táxi, que estava bem difícil, apareceu um jovem que me pegou na cintura, tentanto evitar que eu subisse, quando olhei para trás, deu-me um soco, anunciando o asssalto, enquanto os outros dois comparsas, com duas pistolas, retiravam tudo o que estava nos bolsos", relatou.
Na semana anterior, acrescenta, por volta das 19 horas, na paragem adstrita a esquadra policial do Imbondeiro, no troço Camama Calemba 2, o seu filho também conheceu o mesmo cenário, ao perder uma encomenda que trazia do Benfica.
"O meu filho ainda gritou, mas com uma faca a escassos milímetros do seu coração, e com alertas para não gritar, viu os marginais a consumarem a sua acção, com a polícia dentro da esquadra", denunciou.
No Bairro do Wenji Maka, no distrito urbano da Sapú, os marginais ficam atentos às pessoas que saem cedo para trabalhar. Dona Ana Micolo que, como é da praxe, sai de sua casa às 6 horas, viveu na manhã da última quinta um ambiente de extremo terror, ao se deparar com três marginais, dois dos quais armados com armas do AKM, de cano cortado. "Eles arrastaram-me à uma obra andonada ao lado da vala, onde me disseram para não gritar, e que haviam de me violar. No entanto, eu não sabia que atrás de mim vinham outras pessoas que acompanharam, à distância, a interpelação", disse, agradecendo a ajuda dessas pessoas que a seguiam que pediram socorro. "Foi um militar médico que fez dois disparos e afugentou os marginais que não chegaram de consumar o acto sexual", narrou.
A COESÃO DOS MOTOQUEIROS
Na paragem principal dos motoqueiros da rotunda da Camama, em três semanas, foram frustrados 8 asssaltos a motos. Desses, 2 foram frustrados pelos agentes da Polícia Nacional, enquanto os restantes foram "resolvidos" pelos "colegas" das vítimas.
"Nós já não nos dispersamos, ficamos todos juntos, para acompanharmos todos esses assaltos que, nos últimos dias, têm sido frequentes", disse um motoqueiro.
Um outro motoqueiro revelou à nossa reportagem que de Janeiro a Agosto, pelo menos três colegas seus foram mortos por marginais depois de resistirem a assaltos. "É principal motivo de estarmos unidos", vincou, prometendo punir "ainda que for por mãos próprias" todos aqueles que tocarem um membro do grupo.
NA PORTA DA MORTE
Nessa mesma paragem, encontramos o jovem Manuel Wale, natural do Huambo. Quando chegou a Luanda, teve "a sorte" de encontrar uma moto, dada por um oficial das Forças Armadas, logo nos primeiros quatro dias. "Trabalhei com essa moto até avariar definitivamente, depois de ter feito bom trabalho que agradou o patrão, ao ponto de me dar uma moto nova", explicou, para depois dizer que a confiança era tanta que recebeu a terceira moto, deixando a segunda para um amigo. "O patrão era meu amigo, aos finais de semana bebeiamos juntos em casa dele", sublinhou.
Foi com essa moto que a desgraça aconteu. De acordo com Wale, certo dia, apareceu um cliente que pediu que fosse levado ao Calemba 2, pagando 500 kwanzas. Chegado ao destino, o cidadão que, durante o percurso, falava sempre ao telefone, pediu para que fossem até ao projecto Nandó já que a pessoa que procurava tinha dado coordenadas erradas, e que pagaria 1500 Kwanzas.
"Quando chegamos ao projecto Nandó, ele mostrou-se enfurecido com a pessoa com quem falava ao telefone e disse-me que a amiga em causa tinha ido ao Camama 1, por isso, uma vez que fôssemos para lá, ele pagaria ao todo 3 mil kwanzas", revelou, assegurando que o cliente parecia ser uma pessoa normal, mas debalde.
Passando pelo interior do Campus Universitário, chegaram a um local sem muitas residências, onde o cliente mandou parar e pediu encarecidamente a Wale para que lhe fizesse um favor e fosse levar 2 mim KZ a uma senhora de nome Maria que vivia na casa ao lado. Afinal era sua namorada e não queria que fosse visto pela sogra. Mas por ser próximo, decidiu deixar a moto, retirando a chave da ignição.
Contou que quando chegou à casa, perguntou por Maria e os rapazes que encontrou desconheciam a pessoa procurada com esse nome. Saiu em direcção à moto, mas já tinha sido levada pelo cliente. "Não tinham passado 4 minutos", explicou.
Como procedimento, foi à esquadra mais próxima, apresentou a queixa e, de seguida, foi informar o patrão sobre o sucedido. No entanto, este, inconformado, e sem provas, acusa Manuel Wale de ter vendido a moto.
O jovem que vivia dos rendimentos do negócio, com que pagava a renda de casa, está a ser ameaçado pelo patrão, prometendo-lhe prisão se não devolver a moto. "E se o cliente me matasse?", perguntei ao patrão, mas ele diz que "apertaria os meus amigos".











