Delinquência: Município de Luanda radiografado pelo NA MIRA DO CRIME
Em relação ao propósito de radiografar a província de Luanda em termos de delinquência, sobre o ‘modus operandis’ dos criminosos, as tendências do momento, consubstanciadas em rixas entre grupos, o NA MIRA DO CRIME esteve no município de Luanda, nos seus distritos, bairros e ruas, onde os problemas não diferem muito entre um e outro, tendo em conta ser comum as idades dos marginais que variam dos 14 aos 23 anos de idade.
Por: Matias Miguel
A equipa de reportagem deste jornal começou pelo distrito do Rangel. José Vila de 45 anos de idade, nasceu, cresceu e vive na rua do Imperial há 45 anos, e tem a ousadia de tratar o Rangel “por tu”.
Conhece todos os cantos e becos, foge-lhe apenas os nomes dos grupos e integrantes por usarem alcunhas e estarem em constante mutação.
"Os assaltos nas residências e na via pública continuam na ordem do dia com ligeiro abrandamento nos assaltos à residências porque estamos cansados de fazer participações e nunca sermos atendidos com a devida prontidão por parte da Polícia; nós mesmos tomamos conta do nosso bairro", alertou.
O cidadão explica que “temos como pontos mais críticos, as ruas do Sangue e Fúria, o Beco que dá acesso ao Centro do Rangel, partindo da Comissão (a comunidade próxima á estação dos Musseques) adentro; aí sim todos os santos dias, há confusões, rixas entre os grupos rivais, que criaram limitações entre eles, ou seja, os de um lado não podem ir para o outro lado, e vice-versa, daí as confusões”.
João António, de 45 anos, residente no bairro Operário, e Walter Joaquim, do Marçal, referem que as histórias não diferem uma da outra.
Os grupos de marginais do Marçal têm como locais de concentração a Praça do Marçal e o Prédio Sujo, aqui então é o “Congo”.
Controlam o longo da rua que dá acesso ao mercado de São Paulo a partir do Prédio Sujo.
“Os assaltos a residências são esporádicos, ouve-se pouco, acontece uma ou outra vez; mas o mesmo já não se pode dizer dos roubos de celulares, postiços e carteiras de senhoras e de pacatos cidadãos; depois de consumirem drogas, de fumarem liamba e consumirem os pacotinhos, realizam as suas lutas por rivalidade entre grupos, com catanas, ferros, martelos, serrotes, garrafas e pedras”, elucida.
“Casos de mortes nunca mais se ouviu falar, mas as lutas são quase sempre, observa-se um interregno quando um dos integrante de um grupo é morto, daí dão uma pausa de 20 ou 30 dias”, lembra.
No bairro Operário não foge à regra; também vigoram os limites, os do Marçal não podem transitar para o B.O, sob pena de serem mortos, a concentração é no antigo Beato Salú (praça), disse Vasco Pedro residente no BO há 54 anos.
“Zona H” manda no Chabá, Samba, Kinanga e Bairro Azul
O grupo de marginais denominado "Zona H”, são os que mais se destacam no perímetro do Chabá/Bairro Azul e Samba/Kinanga; controlam a rua do Povoado, a rua do Boca 10 no interior do Chabá, patrulham o Bairro Azul, onde vão apenas tirar sossego aos moradores, até às montanhas da Samba e Kinanga.
O grupo é integrado por Kalifa, o K5 e o Puto; o “quartel-general” é o prédio do Ambaca, é lá onde se concentram para fumar liamba, beber os pacotinhos e partirem para as acções, usam regularmente facas de cozinha, varões aguçados e armas de fogo.
“Começam nas paragens do Zamba 2 às 16 horas, roubam de tudo um pouco, desde postiços, telefones, fios de ouro/prata e valores usando armas brancas e de fogo. Para falar dos nomes de grupos, o caro jornalista tem que falar com os miúdos que conhecem bem os nomes, olha o outro grupo é ‘Os Segredos’", conta um cidadão.
Francisco Bento (nome fictício), um dos responsáveis da Comissão de Moradores da Samba/Kinanga, disse ao NA MIRA DO CRIME “que na montanha os bandidos tomaram de assalto o bairro, a Polícia não sobe aqui, mais lá abaixo próximo ao Centro de Saúde existe uma casa nocturna conhecida como ‘Bar Ki-Kuia’, está mesmo grafitado na parede. Esse bar é o nosso calvário, todos os grupos de bandidos vêm aqui, fumam liamba à luz do dia, a partir das 16 horas a música é colocada ao máximo e permanece até às 07 horas do dia seguinte; nesse bar tudo acontece, desde prostituição às drogas; nós é que passamos mal com o fumo, os gritos e as faltas de respeito”.
Continuando, o cidadão diz que já denunciaram, bateram portas, “para encerrarem esta casa, ninguém faz nada, nós estamos cansados, uma vez ou outra o comandante da Camuxiba vem nos acudir, mas ele sozinho é a mesma coisa que uma gota de água no oceano”.
Fernando Manuel, de 53 anos, professor de profissão, residente na Ilha de Luanda há 37 anos, explicou a nossa equipa de reportagem que o bairro é calmo, “fala-se da existência de três grupos de marginais que tentam chocar entre si, mas estão controlados”, acrescentando que "essa coisa de grupos de marginais é mais nos bairros suburbanos, isso tudo tem muito a ver com o nível de vida, aqui é outra coisa, é cidade”, rematou.











