NOTA NEGATIVA – Estatística fictícia do Ministério do Interior
Na semana finda, dois aspectos de um mesmo assunto, a criminalidade em Angola, anunciados por duas entidades do Ministério do Interior (Minint), o ministro Eugénio César Laborinho e o secretário de Estado para o Interior, José Paulino Cunha, constituiram uma Nota Negativa, porquanto, do ponto de vista da sociedade, os dados avançados são “avulsos” e não condizem com a realidade no terreno!
Por: Jap Kamoxi
Nos últimos tempos vários são os governantes que vêm a público expor situações e/ou revelar dados sobre factos que preocupam a sociedade sem ter o cuidado de analisar a realidade do contexto. Limitam-se a falar com base em “relatórios” dos seus subordinados que geralmente “pintam cenários” inexistentes para mostrar “serviço” e fazer crer ao chefe que está a trabalhar bem e que tudo “está sob controlo”.
Outrossim, os conteúdos dos seus discursos, ou das suas exposições, são concebidos nos “laboratórios” do regime, devidamente orquestrados para deturpar acontecimentos, realidades, impingir “gato por lebre” à opinião pública, apresentando maravilhas onde só há crise e miséria, para manter a falsa imagem de dirigentes abnegados, impolutos, cumpridores do dever e que se sacrificam em prol do seu país e do seu povo.
O ministro do Interior, general Eugénio César Laborinho, infelizmente, quiçá por crença na sua “entourage” ou por vontade própria, tem sido useiro e vezeiro em propagar realidades fictícias, o que já começa a ser intragável para os cidadãos que consideram que o general Laborinho menospreza a inteligência dos angolanos.
Pela segunda vez em poucos dias, o ministro do Interior anuncia dados sobre a criminalidade no país que não são credíveis. Na realidade, a criminalidade no país atingiu um nível deveras alarmante, mas para Eugénio Laborinho “a delinquência tende em diminuir no país”, tendo afirmado este dado precisamente poucas horas depois do assassinato do Superintendente Manuel Celestino Gonçalves “Man Nelas”, por marginais que pretendiam roubar os seus pertences em plena via pública e lhe deram um tiro na cabeça.
Igualmente, no mesmo dia, muitas outras mortes de pacatos cidadãos aconteceram. Todos os dias cidadãos morrem “gratuitamente” às mãos de criminosos que pretendem, sobretudo, roubar, causar pânico na sociedade e mostrar que são “superiores às autoridades”. Mas, para o ministro e outros dirigentes do Minint, “a delinquência no país está controlada e a diminuir”!
Desta feita, o governante anunciou que, “dados em nossa posse espelham que a criminalidade no seio da comunidade chinesa residente em Angola baixou consideravelmente nos últimos tempos, porquanto, os Órgãos Executivos Centrais do Ministério do Interior tudo têm feito para que os níveis de segurança no seio da comunidade chinesa se mantenham e melhorem cada vez mais”.
Esta afirmação foi feita numa audiência que concedeu ao Embaixador da República da China acreditado em Angola, Zhang Bin, que está em início de missão no nosso país. Ladeado pelo Comissário - geral, Arnaldo Manuel Carlos, Comandante Geral da Polícia Nacional e pelo Comissário de migração principal, João António da Costa Dias, director-geral do Serviço de Migração e Estrangeiros (SME), passando em revista a situação das relações bilaterais no sector da segurança pública, Eugénio Laborinho referiu que “a comunidade chinesa em Angola é considerável e, nos dias de hoje, o registo é de menos chineses envolvidos em acções criminais”.
Considerando a grande preocupação da sociedade angolana em relação ao elevado índice de criminalidade envolvendo cidadãos chineses que mesmo depois de terem cometido crimes diversos, simplesmente nada lhes acontece e são protegidos pelas próprias autoridades, alegadamente “para proteger as relações com a China”, conforme matéria que foi recentemente publicada por este jornal, nesta mesma coluna, as declarações do ministro visaram apenas agradar ao diplomata chinês, mas caíram mal aos angolanos.
Os dados que disse estar na posse do Minint, se forem os que alegou, não são verdadeiros, até porque nem o ministro, nem o próprio ministério, o SME, as Relações Exteriores, etc, conhecem o número exacto ou aproximado de cidadãos chineses existentes am Angola.
As palavras do ministro confirmam isso quando se refere aos chineses em Angola como “uma considerável comunidade”. Considerável significa que são muitos, poucos, mais ou menos, quantos?
Muitos crimes cometidos pelos chineses em todo país, até porque se envolvem em quase tudo, no garimpo de diamantes, de ouro, caça furtiva, dizimando manadas de animais raros e em vias de extinção, entre todos os crimes que têm sido denunciados, nem são do conhecimento das autoridades e quando são, essas mesmas autoridades preferem fazer de contas que não aconteceu nada.
Na mesma esteira, o secretário de Estado do Interior, José Paulino Cunha, afirmou na terça-feira, 26 de Março, em Luanda, que o país regista uma média diária de 187 crimes de tipologias diversas, tendo sublinhado que “trata-se de uma taxa relativamente baixa, uma vez que se regista 205 crimes por 100 mil habitantes, numa população estimada em mais de 35 milhões”.
Os mesmos dados, os mesmos números, têm sido repetidos de um tempo a esta parte por outros dirigentes do Interior, o que pressupõe o que já foi anteriormente expresso, ou seja, que muitos governantes falam por falar, sem conhecimento da realidade. Como se diz na gíria, “falam à toa”!
Contudo, na visão de José Paulino Cunha a tendência da criminalidade é baixar, “face aos trabalhos que as forças têm vindo a realizar, bem como as políticas implementadas pelo Executivo, que passam pelo recrutamento e formação de efectivos, melhoria das condições técnicas e operacionais, modernização tecnológica, bem como criação de projectos de reintegração social para ex-reclusos”.
A este propósito, conceituados analistas são de opinião que tudo não passa de teorias, porque a situação da segurança pública em Angola ainda é bastante precária e merece outra abordagem.
“Não é o recrutamento e formação de novos efectivos que vai melhorar seja o que for quando a própria corporação está envolvida em corrupção, muitos crimes são cometidos com a conivência ou mesmo com a participação de efectivos, tanto da polícia como do SIC”, referem.
“Vários crimes são cometidos nas comunidades, pelas diferentes localidades do país, e mesmo denunciadas pela população acabam por ser abafados. Outros são ‘resolvidos’ através da ‘gasosa’ ou ‘saldo’, como acontece diariamente nas principais urbes, não só nas citadas pelo secretário de Estado, como Luanda, Benguela, Huambo, Malanje e Uíge, mas também em muitas outras, acabando por prejudicar os lesados e não constam nas estatísticas”, alertam.
Não pode haver baixa do nível de criminalidade quando todos os dias, um pouco por todo país há vandalização e roubo de material de bens públicos, até de postes de transporte de energia e de alta tensão.
Os homicídios somam e seguem; os raptos e violações idem; o tráfico de combustível, com destaque para a fronteira norte é cada vez maior mesmo com as ‘rigorosas medidas’ que têm sido anunciadas; aumentou o tráfico de drogas; aumentou a entrada ilegal em território angolano de cidadãos estrangeiros; aumentou a exploração da prostituição, inclusive infantil, etc, etc, etc.
Para que a modernização tecnológica e dos meios ajudem a melhorar o trabalho da polícia e afins, tem que haver mudanças profundas, começando pelo Minint e de consciência. “Caso contrário o que se está a fazer é ‘semear vento’ e vai acabar por se ‘colher tempestade’”!











