Destemido ou ousado: António Venâncio acusa João Lourenço de afastar concorrentes directos do Bureau Político
O militante do MPLA António Venâncio, pré-candidato à liderança do partido, acusou o Presidente João Lourenço de ter afastado do Bureau Político (BP) os seus mais directos concorrentes à liderança do partido. Destemido, disse que vai avançar com outra acção contra o congresso extraordinário que além de ter feito alterações aos estatutos, deixou cair Luísa Damião e catapultou Mara Quiosa à vice-presidência do MPLA.
Por: Telson Mateus
António Venâncio, militante do MPLA há quase 50 anos, mostra-se um acérrimo defensor da democratização e da implementação das múltiplas candidaturas à liderança do partido.
Em entrevista a Rádio Essencial, o político, que teve a ousadia de ter sido o primeiro a tentar 'destronar' João Lourenço do cadeirão máximo do partido no poder, em 2021, acusou o seu líder partidário de ter feito uma 'limpeza' de balneário no Bureau Político (BP) para expurgar os militantes críticos à sua governação e aqueles que tencionavam concorrer à sua sucessão.
"Como é que um líder convoca um congresso extraordinário, sem discussão nas bases, fora dos prazos para fazer razia no secretariado. Isso é vingativo", acusou.
Chamado a revelar de quem João Lourenço estaria a se vingar, António Venâncio, foi peremptório em dizer que João Lourenço vingou-se daqueles que ousaram em dizer que preferem múltiplas candidaturas do que candidatura única.
"Ponto n.º 2, isso é vingativo porque ele eliminou 90% daquilo que seria a grande vitória de um possível vencedor das eleições no MPLA e passa para ele. É ele agora que determina quem pode ser no MPLA, Presidente da República e vice-Presidente. Isso é contra a constituição", denunciou.
João Lourenço poderá indicar alguém da oposição para vice De acordo com António Venâncio, com esse cenário montado a seu favor, João Lourenço tem a faca e o queijo para mandar e desmandar no MPLA a seu bel-prazer.
"O camarada João Lourenço vai pensar num nome, se calhar já o tem na cabeça, que vai ocupar o cargo de Presidente e, se calhar, também já tem um nome para o candidato a vice-Presidente", explicou, o candidato assumido, garantindo que, de acordo com o seu sexto sentido, que muitas vezes não falha, o nome a ser indicado por João Lourenço para ocupar a vice-presidência de angola poderá ser de alguém que não pertence as fileiras do MPLA.
"E atenção que essa situação será para ir buscar votos na oposição. Mas isso é outro assunto. Tudo porque no âmbito das mexidas efectuadas nos estatutos, o presidente João Lourenço pode indicar quem quer que seja ao BP", sustentou.
António Venâncio aponta a sua certeza de que os nomes a serem indicados pelo presidente do partido podem passar no crivo do BP pelo simples facto deste BP ser composto por pessoas da sua inteira confiança.
"Ele está a fazer agora um Bureau Político que seja favorável com jovens que apoiam o líder incondicionalmente, muitos deles incoerentes e bajuladores", acusou.
JLO convidado a concorrer com múltiplas candidaturas
Embora tenha sido indeferido o pedido de impugnação do VIII Congresso Extraordinário do MPLA e esteja convencido de que os tribunais superiores do País tomam decisões alegadamente políticas, António Venâncio promete avançar com uma acção principal, cujo objectivo é anular o Congresso Extraordinário do MPLA, por presumíveis violações graves aos Estatutos Ordinários do referido partido.
Em função disso, desafia o Presidente João Lourenço a concorrer sem medo num congresso com múltiplas candidaturas.
"A minha pergunta é: o camarada João Lourenço está disponível a disputar comigo a liderança do MPLA? O camarada João Lourenço está disponível para disputar com o camarada Higino, camarada Nandó, comigo e com o Valdir a liderança do MPLA? Será que vai aceitar as múltiplas candidaturas?", questionou, apontando como pano de fundo o artigo 107 do estatuto do MPLA que fala sobre as múltiplas candidaturas.
A partir de agora, sustenta, o Presidente João Lourenço, retirou a possibilidade do presidente do MPLA ser o cabeça de lista. “Ele deixou essa prorrogativa para ele. Mas isso vai ser impugnado", garante.
Por outro lado, Venâncio sublinha que “muitos cidadãos têm assacado aos tribunais superiores a responsabilidade de acórdãos desfavoráveis à pretensão que manifestam, evocando motivação política, e disso tenho consciência plena”, acusou o também pré-candidato à liderança do MPLA.
Mas como que a fazer jus ao ditado de São Tomé “ver para crer”, António Venâncio recorreu ao TC na certeza de que o acórdão daquele tribunal lhe seria favorável.
“A experiência angolana mostra que nem sempre os tribunais realizam a justiça nos termos em que a competência dos juízes, a sua consciência e a lei sejam o único barómetro de sentença justa e imparcialmente credível”, dizia o político.
Em contrapartida, o Acórdão n.º 944/2024, sob processo n.º 1229-A/2024, viria a dar razão às inquietações de António Venâncio – a Providência Cautelar de Suspensão de Deliberação” foi indeferida pelo TC, permitindo, assim, a realização do VIII Congresso do MPLA nos dias 16 e 17 de Dezembro de 2024.
O pedido de impugnação de António Venâncio consistia em violações alegadamente graves aos Estatutos do MPLA: a agenda não estava em conformidade, o prazo da convocação não foi respeitado e os assuntos não foram submetidos a uma discussão nas bases.
Foi considerado autêntico ‘atrevimento’ e terá alegadamente ‘irritado’ a direcção do seu partido.
Mas, como era previsível, o pré-candidato ao Congresso Ordinário de 2026 diz, de viva voz, que vai continuar a luta com uma acção principal, tendo, talvez, como narrativa a uma frase atribuída a Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Aliás, não é por acaso que o antigo membro do Comité Central do MPLA, Fragata de Morais, se mostrou incrédulo à ausência de análise analítica e crítica de ‘muitos militantes’ do partido, tendo citado como exemplo a sua própria postura (crítica).
Como quem perdeu “uma batalha e não uma guerra”, António Venâncio vai apresentar a acção principal junto do TC, para a nulidade do referido congresso.
Importa referir que neste congresso saiu do Bureau Político Eugénio Laborinho exonerado do cargo de ministro do Interior.











