Exclusão nas nomeações pesaram na balança - Saída de Ginga Savimbi da UNITA foi planeada em 2021
Ginga Savimbi, filha do fundador da UNITA, Jonas Malheiro Savimbi, anunciou a sua saída do partido, alegando ter sido marginalizada pela actual direcção, numa altura em que, intramuros, já se cogitava tal possibilidade, depois de ter sido vista numa foto com Norberto Garcia, director do gabinete de acção psicológica do Presidente da República, há mais de um ano.
Por: Mara Márcia
O maior partido na oposição “não engole” essa amizade que consiste em estender abraços com gente adversária, sobretudo quando se trata de gente ligada à “bófia”, pelo que, sejam quais fossem as motivações, o facto da filha de Jonas Savimbi aparecer amistosamente numa fotografia com Norberto Garcia abriu alas para muita especulação, dentro e fora do partido.
A UNITA, disse a nossa fonte, acredita que a exposição na fotografia de Ginga, a sua mãe e o director do gabinete de acção psicológica do Presidente da República, foi feita na perspectiva de suscitar desconfiança sobre as motivações de tal encontro, tendo em conta que a acção psicológica, na realidade angolana, destina-se, entre outros objectivos, influenciar as atitudes e o comportamento dos indivíduos e obter o apoio da população, desmoralizar e alcançar o adversário, passando por uma tortura mental que deixa marcas emocionais que podem durar a vida inteira.
Indo para o caso vertente de Ginga Savimbi, é consabido que ela emergiu na política, oficialmente, na campanha que elegeu Adalberto Costa Júnior à presidência da UNITA em 2019, como uma figura ligada ao marketing.
Em 2021, já como figura sonante na JURA, organização juvenil da UNITA, viu a actual deputada (a mais jovem da Assembleia Nacional), Ariane Nhany, e alcançar o cargo de Secretária Geral Adjunta, para o desagrado de filha de Savimbi que ambicionava o cargo que só não o alcançou por alegada falta de maturidade política à altura das encomendas. A partir daquela altura, Ginga deixou de ser a mesma: contribuiu para o desmembramento da Brigada Especial de Mobilização que desempenhava um papel “extraordinário” na JURA.
Diz a nossa fonte que, antes das eleições de 2022, ela esperava por um favor de Adalberto Costa Júnior, que consistiria na colocação do seu nome numa das posições privilegiadas nas listas de candidatos a deputado, sonho que não se materializou ao ser colocada na posição 99. Embora cabisbaixa, a jovem não baixou os braços, pois ainda havia algumas portas abertas.
Estava à vista o congresso da JURA, onde, geralmente, a direcção do partido tem sempre uma palavra a dizer no que a indicação do candidato preferido diz respeito. Mas foi Nelito Ekuikui o candidato quisto pelo Conselho Presidencial da UNITA. Ginga tentou candidatar-se, mas viu essa possibilidade coactada por não reunir requisitos, facto que não a convenceu.
Ela, a seu jeito, desabafou nas redes sociais sobre a inconveniência e decidiu apoiar o candidato que não era da conveniência da superestrutura partidária.
Assim, falhou a posição da Secretaria Adjunta da JURA, falhou a ascensão à Secretaria Geral da mesma organização. O pano que sobrou na manga é um dos lugares nos comissariados da Comissão Nacional Eleitoral (CNE), mas também viu essa chance retirada, pois já tinha “manchado” a sua confiança pelo líder do partido, devido as suas aparições nas redes sociais a opor-se ao ACJ.
De lá para cá, os seus pronunciamentos têm sido contra as opções da direcção do partido na indicação de quadros para determinados cargos. Aturou, aturou, mas a indicação de Irina Diniz para o cargo de Secretária Adjunta do partido em Luanda, fez transbordar o tanque, porque, segundo a visão de Ginga, ela queimou muitas etapas para ascender “desta maneira”.
Mais uma vez, colocaram em causa o “dedo podre” de ACJ que se impressiona “facilmente” com personalidades que, depois, o vêm a trair. De resto, é uma coisa herdada de Isaías Samakuva, o que vem traduzir-se num DNA da UNITA.
Quem salava a alma do pai?
Depois de Tao Araújo Kanganjo Savimbi, que, na véspera das eleições de 2022, declarou o seu voto a favor do Presidente do MPLA, João Lourenço; depois do outro filho de Jonas Savimbi, na circunstância, Sakato Savimbi, ter igualmente apelado ao voto a favor do MPLA; depois de o filho mais velho do líder fundador da UNITA, Cheya Savimbi, ter renunciado ao cargo de Secretário do Património do partido, sem justificação plausível; depois de Luísa Sakaita ter sido recebida por João Lourenço, aquando da sua visita à Costa do Marfim; tudo ficou definido sobre a tendência do que viria a ser a relação dos filhos de Savimbi com o partido por ele fundado.
Já agora, este comportamento pode afectar, queira-se ou não, o posicionamento de Rafael Massanga, actual Secretário para as Relações Exteriores da UNITA, de momento, o único filho que grita UNITA em todos cantos de Angola. A sua irmã, Helena Savimbi, responsável principal da Fundação Jonas Savimbi, está sem rosto quanto ao seu posicionamento, mas contributo ao partido é o que ela não dá.
Massanga, que ambiciona candidatar-se à presidência da UNITA, tem tarefa difícil na sensibilização dos quadros do partido, sobre os irmãos que se desfizeram do partido que o pai deles criou, em 1966.
A vida de luxo no exterior
Jonas Malheiro Savimbi, em 1979, mandou para o exterior do país, mais especificamente para o Senegal, Costa do Marfim e Togo, os seus bolseiros, um grupo que incluía o seu sobrinho, Salupeto Pena. Os seus filhos biológicos eram muito pequenos, na sua óptica. Mas a partir de 1996, todos filhos foram enviados para o exterior, “numa altura em que os jovens coitados e desamparados eram mobilizados para guerra”. “O dinheiro que usufruíam, dava-lhes muita tontura ao ponto de esquecerem da sua missão no exterior do país”, vinca.
“Nenhum dos filhos de Jonas Savimbi participou na guerra. Nenhum deles solicitou ao pai para ir ao interior do país para apoiar a guerrilha”, relatou um militante sénior da UNITA, para quem, os filhos de Savimbi deviam agradecer aos jovens combatentes como Liberty Chiyaka, Adriano Sapiñala, dentre outros que, enquanto eles andavam em discotecas e festanças no exterior do país, estes estavam, de arma na mão, a combater.
“Muitos deles morreram, mas hoje são traídos pelos filhos de quem os arrastou para guerra atroz”, sublinha, acrescentando que Rafael Massanga tem a rica oportunidade de salvar a imagem de Jonas Savimbi e sua família, sob pena de os seus admiradores mudarem de ideia e isso, confundir as futuras gerações.











