Negativo da semana: 50 anos de Polícia Nacional - Efectivo do DIIP executado com 14 tiros em pleno exercício das suas funções clama por justiça no túmulo
Há 14 tiros que ecoam no Cazenga e continuam sem resposta. Catorze. Não foram dois, não foi um excesso numa operação mal conduzida. Foram 14 disparos efectuados supostamente pelos efectivos
Chinho, Baptista, Catululu, Leandro e Chefe Cazenga, contra um oficial da Direcção de Investigação de Ilícitos Penais (DIIP), João Inácio Contreiras, abatido na via pública, diante da própria família, numa noite que deveria ser banal.
Por: Na Mira do Crime
Os presumíveis autores? Efectivos do Serviço de Investigação Criminal, coadjuvados por agentes da Brigada de Informação Policial (BINFOP). Foram detidos. E depois? Soltos. Desde Dezembro de 2024 que circulam em liberdade, como se nada tivesse acontecido. Como se 14 tiros fossem um detalhe administrativo.
A família denuncia morosidade. Mas chamar “morosidade” a isto é quase um eufemismo. O processo não tramitou para o juiz de garantias. Não há esclarecimentos públicos convincentes. O silêncio tornou-se regra. E o silêncio, quando o Estado se cala diante de um crime desta gravidade, soa a cumplicidade institucional.
Onde está a explicação oficial? Onde está a responsabilidade? Onde está a transparência?
A Direcção do DIIP não se pronuncia. As instâncias judiciais remetem-se a procedimentos que ninguém vê. A Procuradoria decide pela soltura e o país fica a assistir, incrédulo, à normalização do absurdo. Se um oficial de investigação pode ser executado com 14 disparos e o processo simplesmente se arrasta até ao esquecimento, o que sobra para o cidadão comum?
Há um dado que não pode ser dissociado desta investigação, e que há muito o DIIP, na pessoa do seu mais alto mandatário deveria responder: Se o malogrado estava em formação no período em que foi assassinado, quem autorizou que o mesmo circulasse com a viatura oficial do DIIP? Que missão cumpria? Estes são alguns pormenores que não podem continuar sem explicação.
A viúva regressou à casa da mãe. Os filhos enfrentam dificuldades. A vida real não conhece despachos nem formalismos jurídicos. Dito de outro modo, conhece ausência, dor e abandono. Enquanto isso, os suspeitos aguardam em liberdade o desfecho de um processo que parece ter perdido urgência e talvez prioridade.
O mais perturbador não é apenas o crime. É a mensagem que se transmite. A ideia de que, quando os protagonistas vestem farda, a justiça anda mais devagar. A percepção de que há pesos e medidas. E a percepção, ainda mais amarga, de que o tempo está a ser usado como estratégia de desgaste.
Num Estado de Direito, não basta deter. É preciso esclarecer. Não basta abrir um processo. É preciso conduzi-lo até às últimas consequências. E, sobretudo, é preciso falar ao país com frontalidade.
Catorze tiros não podem cair no esquecimento. Catorze tiros exigem respostas. E o silêncio institucional, este sim, merece ser o verdadeiro negativo da semana.
Hoje, 28 de Fevereiro, a Polícia Nacional de Angola (PNA) assinala mais um ano de existência. Haverá discursos, mensagens de exaltação, referências ao sacrifício dos efectivos e ao compromisso com a ordem pública. Tudo legítimo. Tudo esperado.
Mas há uma pergunta que se impõe, crua e incómoda: que credibilidade têm as celebrações quando um oficial da Direcção de Investigação de Ilícitos Penais foi morto com 14 tiros e o país continua sem respostas convincentes?
João Inácio Contreiras não era um cidadão qualquer apanhado numa esquina anónima. Era 1.º subchefe da DIIP. Um homem do sistema. Um quadro do aparelho de investigação criminal do Estado. Ainda assim, foi abatido no Cazenga, alegadamente por efectivos do Serviço de Investigação Criminal, com envolvimento de agentes da Brigada de Informação Policial.
Não se fazem aqui acusações pessoais ao responsável nacional da DIIP. O que se questiona é o silêncio do órgão ao qual a vítima pertenceu. Como é possível que uma instituição que tem como missão investigar ilícitos penais não se faça ouvir com firmeza quando um dos seus próprios quadros é morto desta forma?
O Negativo da Semana não é apenas o crime. É o que veio depois dele, é a lentidão, é a opacidade. Em suma, é a sensação de que o tempo está a ser usado como anestesia colectiva.











