Nota negativa - Batata quente no SME: Quem vinha “limpar a casa” "trouxe lixo" para o próprio gabinete
Durante meses ouviu-se, dentro e fora do Serviço de Migração e Estrangeiros (SME), que uma nova era tinha começado. Falava-se de disciplina, de moralização e de tolerância zero para práticas ilegais. O novo director-geral chegara com fama de homem duro, alguém que não vinha para contemplações. Alguém que vinha para pôr ordem numa instituição que, segundo se dizia, precisava urgentemente de arrumação.
Por: Rebelo Spínoloa
E ordem houve, processos, pressões e um clima interno que muitos descrevem como de permanente vigilância. Oficiais foram chamados à responsabilidade, alguns afastados, outros investigados.
A mensagem era repetida em tom quase solene.
No SME, dali em diante, quem não estivesse em linha com a legalidade teria de responder pelos seus actos.
O problema é que, por vezes, a realidade tem um sentido de humor particularmente cruel. Esta semana, o país ficou a saber da detenção de um cidadão conhecido por Cláudio, colocado em comissão de serviço no SME e descrito por várias fontes como homem de extrema confiança do director-geral.
Não era um simples funcionário destacado, ele circulava no próprio gabinete do director, interferia em processos, discutia com directores nacionais, confrontava comissários e chefes de departamento. Para muitos dentro da instituição, actuava com uma autoridade que poucos ousavam questionar.
A explicação era simples e repetida quase como um aviso. Dito de outro modo, era homem do director. Agora surge a suspeita de que esse mesmo homem poderá estar envolvido em falsificação de documentos e na autorização de actos migratórios irregulares mediante pagamentos elevados.
Vistos e cartões de residência transformados em oportunidade de negócio. Não num corredor distante da instituição, mas no espaço onde se concentra o núcleo do poder administrativo do SME. É difícil não notar a ironia, já que durante meses se falou em limpar a casa.
Agora descobre-se que a sujidade pode ter estado mesmo ao lado da secretária de quem segurava a vassoura.
A situação torna-se ainda mais desconfortável quando se recorda um episódio que marcou profundamente a instituição.
Pouco tempo depois da chegada da nova direcção, um subcomissário do SME acabou por tirar a própria vida na sequência de pressões e medidas disciplinares associadas ao novo ambiente de rigor instalado no serviço.
Foi um episódio trágico que muitos dentro da casa ainda recordam com amargura. Na altura, a narrativa dominante foi clara.
Era o preço de uma mudança necessária. Ou seja, a casa precisava de ser moralizada. Quem tivesse algo a temer deveria preocupar-se.
Hoje, olhando para o que acaba de acontecer dentro do próprio gabinete da direcção, muitos fazem a pergunta que paira no ar com um certo sabor amargo: Afinal, quem precisava realmente de moralização? Porque se as suspeitas que agora circulam se confirmarem, então a cruzada pela disciplina terá produzido um resultado curioso.
Muito rigor para uns, muita confiança para outros. E, pelos vistos, confiança suficiente para permitir que alguém em comissão de serviço se movimentasse dentro do SME com poderes que muitos oficiais da casa nunca tiveram.
Há relatos de confrontos com directores nacionais, de tentativas de bloquear funções de determinados oficiais e de decisões impostas com uma segurança que só se explica quando alguém se sente bem protegido.
O nome que aparecia sempre por detrás dessa protecção era o mesmo. O director-geral. Claro que haverá quem peça prudência.
Dirão que a investigação ainda está em curso, que ninguém deve ser julgado antes do tempo, que tudo precisa de ser esclarecido. São argumentos legítimos.
Mas há uma realidade que não desaparece com comunicados prudentes. O escândalo nasceu dentro do próprio gabinete da direcção. E quando isso acontece, a velha explicação de que se trata apenas de um desvio individual começa a soar demasiado conveniente.
Ou a liderança não fazia ideia do que se passava à sua volta, o que não é exactamente um elogio à capacidade de controlo da instituição, ou percebeu sinais e preferiu ignorá-los. Nenhuma das hipóteses tranquiliza.
O director-geral do SME ocupa o cargo por nomeação presidencial e beneficia de um estatuto institucional especial. Isso significa que a confiança política depositada nele é elevada.
Mas confiança também implica responsabilidade. Sobretudo quando se constrói uma imagem pública baseada na ideia de disciplina e moralização. Agora, perante este episódio, a pergunta que se ouve cada vez mais dentro e fora do SME é simples e desconfortável.
Se quem veio para pôr ordem acaba a braços com um escândalo nascido dentro do próprio gabinete, então talvez o problema da casa fosse mais profundo do que se imaginava. Ou talvez a vassoura estivesse apontada na direcção errada.











